Capítulo 7 7
Isadora
Você precisa sair, Isa.
Meu subconsciente me alerta e ansiosa pressiono os lábios, afastando-me da mesa, porém, sem lhe dar as costas para ir para a saída. No mesmo instante alguém abre a porta bruscamente e sou empurrada com violência para frente, caindo de quatro no chão de madeira lustroso.
— Merda! — xingo baixinho, porém, exasperada, pois sei que fiquei mais tempo que deveria ficar aqui. Droga, eu só tinha que deixar o maldito carrinho na sala e sair logo em seguida. Por que não fiz isso, merda?
— O que faz aqui?! — Uma voz feminina questiona-me com irritabilidade, me fazendo erguer a cabeça. E sem jeito, me levanto, sibilando um pedido de desculpas.
— Eu só… eu só vim trazer o breakfast para a reunião — explico, passando as mãos pelo meu uniforme, tentando arrumá-lo da melhor maneira possível.
— Você é novata?!
É um nítido tom de insatisfação da mulher.
Droga, estou muito ferrada!
— S-sim, Senhora!
— Peter sabe das nossas exigências. Como ele se atreve?!
Engulo em seco e penso que não posso me dar ao luxo de perder esse emprego.
— I-isso não voltará a se repetir, S-senhora
Garanto entre nervosa e agitada.
— Não, não vai. Agora saia daqui!
— Claro, Senhora! E me desculpe pelo transtorno!
Dou dois passos apressados para sair quanto antes dali, porém, esbarro forte demais contra um corpo alto e duro, e sinto que estou sendo lançada ao chão outra vez. Contudo, antes que eu chegue a sentir o impacto da queda, um par de mãos seguram firmes na minha cintura e encontro imediatamente um par de olhos escuros me olhando. Um sorriso de lado surge em seguida em um rosto másculo e quadrado, desprovida de pelos.
— Só me faltava essa agora!
A mulher resmunga ainda irritada, fazendo-me afastar do homem imediatamente, e trêmula volta a ajeitar o meu uniforme.
— Me desculpe por isso, Senhor! — peço envergonhada, mas não ouso olhar nos olhos de todos que se aglomeram atrás dele devido o maldito incidente.
— Eu mesma cuidarei para que isso não se repita. Não se preocupe!
A mulher ralha furiosa outra vez e eu forço a minha saída entre os empresários.
Logo mais à noite…
Abro a porta de casa ansiosa por um banho demorado e louca para devorar um jantar. E depois, simplesmente quero cair na minha cama. Contudo, ao vir Mila em pé na minha sala e com um olhar de pena, as minhas energias se renovaram e eu corro para o segundo quarto do pequeno corredor. Paro estática ao vir a minha mãe sentada na ponta da sua cama, balançando o seu corpo para frente e para trás e com o olhar perdido.
— Ela não está nada bem hoje. — Mila comenta parando ao meu lado.
— O que houve? — Ela solta um suspiro audível.
— Eu não sei. Sara simplesmente se recusou a tomar os seus remédios e começou a dizer que estava vendo seu pai dentro do quarto. Eu quis acalmá-la, mas ela não parava de gritar e quando parou, ficou assim.
— Droga, Mila! Por que não me ligou?
— E atrapalhar o seu segundo dia de trabalho?
— Mas, ela é a minha mãe!
— Sim, eu sei. E você precisa desse emprego para poder ajudá-la.
Solto uma respiração alta e vou para perto da minha mãe. Ponho as mãos nos seus ombros, mas ela sequer me olha nos olhos. O seu olhar continua fixo na parede atrás de mim.
— Oi, querida! — sussurro, forçando um sorriso para ela. Mas nada acontece, nenhuma reação sequer. Sara simplesmente parece não estar aqui conosco. — Desculpe ter demorado tanto. Mas eu já cheguei, está vendo? — Forço uma animação que eu não tenho no momento.
— Isadora, a Sara precisa de ajuda. — Mila insiste. Contudo, fecho os meus olhos e seguro as lágrimas. Entretanto, ela tem razão. Eu não posso ajudá-la se não consigo estar perto dela o tempo todo. — A Marisa não pode viver roubando calmantes do hospital. Ela pode perder o emprego por isso.
— Eu sei — respondo baixinho e com desânimo.
— Andei pesquisando algumas casas de repouso, que tem uma mensalidade razoável. E eles cuidarão direto dela para você. Deixei alguns contatos e panfletos em cima da mesa para você analisar.
— Obrigada, Mila!
Ergo o meu corpo e caminho para fora do quarto. Na sala, me despeço da nossa vizinha, fecho a porta e sento-me sem forças em uma cadeira da mesa de quatro lugares. Observo alguns papéis e cartas sobre o tampo e com um suspiro cansado, seguro um panfleto com o nome San Tiago Nursing Home – Casa de Repouso São Tiago e me ponho a ler, deixando as lágrimas virem à tona.
— Desculpe por isso, mãe! — Abaixo a cabeça e me entrego ao momento doloroso.
Alguns dias…
O lugar não é de todo ruim e as mensalidades cabem direitinho no meu bolso. E ainda me sobrará tempo para fazer alguns extras se precisar. Penso enquanto caminho pelos cômodos da casa de repouso ao lado de Larissa Krill, a administradora do lugar. Um quarto só para ela com banheiro, um guarda-roupa pequeno e uma cama de solteiro próximo de a uma janela larga, de onde poderá apreciar um belo e convidativo jardim. O quarto não é muito espaçoso, porém, é bem iluminado. E o contato com a natureza poderá ajudá-la. Larissa me garante um acompanhamento com psicólogo e outros profissionais. Contudo, separar-me da minha única família está me matando por dentro.
— E então?
A mulher me encara em expectativa através dos óculos de grau e antes de lhe responder, olho mais uma vez para o pequeno e aconchegante cômodo.
— Eu gostei — digo por fim e ela me abre um meio sorriso. — Quando posso trazê-la?
— Primeiro, precisa preencher alguns documentos e uma ficha com todos os dados de sua mãe. É necessário sabermos os mínimos detalhes sobre ela, Isadora. Depois, você precisa pagar a primeira mensalidade adiantada. É só uma forma que encontramos de arcar com alguns gastos iniciais e então poderá trazê-la.
— Está bem. Farei isso o mais rápido possível. Obrigada, Larissa!
Saio da casa de repouso satisfeita, embora com o coração apertado no peito. Mas com a consciência de que será o melhor para ela. Agora precisarei de mais um emprego para garantir a minha sobrevivência e quitar a hipoteca da nossa casa. E quem sabe poderemos voltar a morar nela? Ao chegar em casa, dedico-me a lhe fazer companhia, pois a terei por perto por poucos dias. Então quero aproveitar o máximo de tempo que teremos juntas. À noite preencho uma longa ficha, tendo o cuidado de não me esquecer alguma informação. Por fim, janto sozinha como tenho feito nos últimos dias.
Dona Sara passou o dia inteiro divagando e isso é preocupante. O adiantamento da mensalidade foi a coisa mais fácil de se conseguir e acredite, fiquei surpresa com isso, mas o meu chefe facilitou bastante esse quesito. Preciso lembrar-me de agradecê-lo na segunda. O início da semana foi a parte mais difícil da minha vida. Após deixá-la na casa de repouso e de ter a certeza de que ficaria bem, fui direto para a D’Angelo. E como imaginei, a minha cabeça estava o tempo todo focada na minha última decisão. Até pensei em voltar atrás e ir tirá-la de lá, mas e depois?
— O que você fez dessa vez? — Peter pergunta com um tom preocupante assim que entra na copa. Entretanto, simplesmente o fito sem reação alguma, afinal, eu não sei dizer se fiz algo de errado realmente.
Provavelmente sim, mas eu não tenho certeza.
— Eu… não sei — gaguejo desnorteada.
Deus, eu não posso me dar ao luxo de perder esse emprego! Repito em forma de oração, pois agora tenho uma responsabilidade a mais.
— Por que a pergunta? — Forço-me a perguntar.
O homem solta uma respiração alta e se aproxima um pouco mais.
— O Senhor D’Angelo deseja vê-la em sua sala. Agora! — diz com um tom sério demais.
Merda, agora eu tenho certeza de que fiz algo errado!
Mas foi tão grave ao ponto de o chefão pedir para me ver?
