Capítulo 6 6
Isadora
No segundo turno foi difícil manter a minha concentração. Eu estava preocupada com Dona Sara e com o fato de ela estar sozinha em casa por tantas horas. E sequer pude telefonar para Mila – nossa nova vizinha para pedir que a olhasse até eu voltar. Contudo, pude me distanciar dos problemas que tiram o meu sono todas as noites desde que tudo virou de cabeça para baixo. Os credores que batem em minha porta querendo receber o dinheiro que meu pai lhes devia, ou na última carta do banco que me deu um ultimato para quitar a hipoteca da casa. Como não pude pagar nada, fomos despejadas e confiscaram tudo que tinham de valor.
Menos as minhas economias que já está quase no fim.
— Uau, você está maravilhosa! — sibilo admirada para Emma, que surge no meu campo de visão usando em um vestido negro colado ao seu corpo de uma forma sensual e com uma maquiagem que realça os seus olhos negros, e puxados. Ela leva as mãos por baixo dos cabelos volumosos e cacheados, e sacode os fios.
— Ela está indo para a boate Tecno's Kiss. Emma é dançarina à noite. — Anne explica, enquanto a morena passa um batom vermelho-púrpura na boca.
— Ah! — É tudo que consigo dizer.
— Pois é, não dá para viver apenas com o salário de copeira. — Emma resmunga e ajeita uma bolsa a tiracolo cheia de brilho no seu ombro. Eu só penso que ela está certíssima. Entretanto, eu não fazia ideia. Durante toda a minha adolescência e mocidade sempre tive tudo nas minhas mãos e a minha família era feliz. Então eu estava satisfeita com isso.
Como tudo mudou tão radicalmente do dia para noite? Essa é a pergunta que me faço todos os dias.
— Estou indo — aviso após trocar de roupa e as meninas acenam um tchau de dedos para mim.
À noite…
— Ela está dormindo agora. — Mila fala assim que largo minha bolsa em cima do sofá.
— Obrigada, Mila! Não sabe o quão me preocupei com ela hoje — sibilo, me sentindo cansada.
— Sabia que havia saído a procura de emprego. E quando não voltou para casa, supus que havia conseguido algo.
Sorrio.
— Sim. Não é grande coisa, mas vai nos ajudar.
— Que bom, querida. E como fará com ela?
Solto uma lufada de ar audível.
— Ainda não sei, Mila. Será que pode olhá-la, enquanto não volto para casa?
— Posso fazer isso por alguns dias, querida. Mas você sabe que a Sara precisa de cuidados especiais.
— É, eu sei. Mas com o que receberei mal dará para assumir as contas e nos alimentarmos. Como farei para pagar uma clínica? — resmungo desanimada.
— Querida, você pode deixá-la em uma casa de repouso. Só… até as coisas melhorarem.
Me sinto sufocar só de ouvir essa sugestão, mas sei que não terei outra opção.
— Prometo que pensarei com carinho, Mila.
A doce Senhora força um sorriso para mim.
— Tudo bem, querida. Deixei um pouco de macarronada para você na geladeira. Tome um banho, coma algo e descanse. Amanhã é outro dia.
— Sim. Mais uma vez obrigada, Mila! — Ela assente e sai.
Após um banho demorado, visto apenas um conjunto curto de pijama de flanela e antes de ir para o meu quarto aproveito para olhá-la. Mamãe está dormindo tranquila sobre o efeito de medicamentos e em lágrimas silenciosas, sento-me na pequena poltrona para observá-la por longos minutos.
— Eu sinto muito, mãe! — sussurro. — Não queria ter que levá-la para longe de mim, menos ainda forçá-la a conviver com estranhos. No entanto, não estou vendo outra saída. Eu… prometo que será por pouco tempo — sibilo baixinho e seco as lágrimas. Levanto-me e antes de deixar o quarto beijo suavemente a sua testa.
No dia seguinte…
— Bom dia, Isadora! Pronta para mais um dia? — Meu chefe pergunta com uma animação que não dá para entender.
Talvez esse seja o seu jeito estabanado demais, ou talvez queira apenas nos animar para mais um dia corrido. Com um sorriso, pego meu uniforme e vou me trocar para mais um dia de trabalho. A D’Angelo é um edifício empresarial, porém, a grande maioria das salas comerciais são de escritórios de advocacia e de administração. Ele reúne nomes de empresas renomadas e de grande porte aqui. Pelo que ouvi as meninas comentar, o Senhor Heitor D’Angelo, o proprietário mantém uma de suas empresas aqui mesmo, só que na cobertura. Os boatos ainda dizem que nenhuma de nossas copeiras chegou a servir esse andar. Parece que o homem tem manias de grandeza ou um rei na barriga.
Enfim, nem mesmo trabalhando na copa do prédio terei a chance de chegar a esse topo também.
— Vamos lá, meninas. Anne, você vai para o terceiro, quinto e sexto andar. Emma, vigésimo, vigésimo terceiro e trigésimo primeiro. Isadora, o andar de empreendedorismo.
— Olha, mal chegou e já está perto do céu! — Anne ralha com humor, tirando a minha atenção da chamada do nosso chefe e me faz olhá-la com curiosidade.
— Perto do céu? — Ela faz sim com a cabeça, esbanjando um sorriso largo.
— É o andar mais próximo da D’Angelo e o que dá as melhores gorjetas também. — Emma cochicha e eu olho para o meu chefe, que continua lendo a enorme lista de afazeres, passando-as para os devidos funcionários. Enquanto ler, ele me lança um olhar indecifrável e sorrio para o homem que sorrir sugestivamente para mim. Apenas finjo descaso e saio com os outros funcionários da pequena sala de reuniões.
— Acho que Peter está arrastando asas para você, Isadora. — Anne comenta com tom de segredo, enquanto arruma o seu carrinho.
— Ah, é claro que não. Por que acha isso?
Ela dá de ombros.
— Ninguém nunca vai para esse setor no segundo dia de trabalho. Eles costumam ser bem exigentes quanto a isso. E Peter sempre procura manter tudo na mais perfeita ordem. Você fez progressos com nosso chefe, menina.
A garota pisca um olho e empurra o seu carrinho. Inevitavelmente olho para as paredes de vidro que separa o escritório do meu chefe da copa e outra vez o encontro me olhando.
Suspiro e tento me concentrar no meu carrinho.
Nervosa? Posso dizer que nesse momento essa palavra é um eufemismo para mim. Estou trêmula pra caramba! O fato de saber que a Maden Contabil é o escritório de contabilidade mais requisitado do país e do mundo mexe com a minha estrutura. E você deve estar se perguntando: por que tanto estresse? Porque contabilidade é o meu mundo. Eu estudei para isso, sonhei com isso a minha vida inteira e principalmente, eu sonhei em trabalhar para essa empresa, mas olha onde estou agora. Exatamente em uma sala de reuniões dos melhores contadores, olhando para cada cadeira acolchoada da mesa retangular. Só, que estou do lado errado e não em uma dessas cadeiras. Ansiosa, passo a mão pelo tecido grosso e azulado de uma delas e chego a suspirar profundamente.
