Capítulo 5 5
Isadora
— Seu nome, por favor?
— Isadora Dixon.
— Certo, Isadora. Temos uma vaga disponível para copa em uma empresa de contabilidade, mas ela está bem longe do que o seu currículo nos oferece.
Respiro fundo.
A verdade, é que eu já andei tanto e espalhei vários currículos por todos os lugares dessa cidade e nada. Parece que todas as portas estão fechadas para mim. E o pior é que eu não tenho mais tempo. Eu preciso de um emprego e não dá para escolher onde, quando e nem mesmo a função.
— Tudo bem, eu fico com esse. — A moça ergue as sobrancelhas.
— Você tem certeza? É uma vaga bem inferior.
— Infelizmente, eu não tenho muita escolha. Eu preciso de um emprego e preciso de um salário com urgência. — Forço um sorriso sem graça para a moça do outro lado do balcão da agência de empregos.
— Tudo bem. Vou anotar o endereço da D’Angelo Corporation e vou ligar avisando que você ocupará essa vaga.
— Obrigada, Dany! — sibilo e aguardo a moça fazer as anotações. E assim que saio do prédio, vou direto para a D’Angelo Corporation.
Um emprego em uma das maiores empresas de administração e contabilidade desse país seria uma oportunidade única para a minha carreira. Mas servir cafezinhos, limpar balcões e mesas não era o que eu tinha em mente. Entretanto, é o que temos para hoje. A minha vida não tem sido muito fácil desde que Andrew Dixon, meu pai faleceu em um acidente de carro. É como se ele fosse o eixo que mantinha tudo no seu devido lugar. E desde então John Dixon, meu irmão mais velho saiu de casa em busca de novas aventuras. E infelizmente a minha mãe não tem tido muita vontade de viver. Depois, das cobranças das dívidas não sobrou nada para vivermos, nem mesmo o nosso lar. Enfim, servir cafezinho é o que vai nos manter da melhor maneira possível por algum tempo.
Com uma respiração profunda, ergo a minha cabeça e fito um arranha-céu suntuoso, forçando-me a entrar nele em seguida. Inevitavelmente observo o luxo por todo o hall e caminho para o enorme balcão de um mármore negro e lustroso, e me apresento para uma jovem atrás dele.
— Bom dia, eu me chamo Isadora Dixon. A agência de empregos me enviou para a vaga na copa. — Estendo-lhe o papel que ela o lê em silêncio, abrindo um sorriso profissional em seguida.
— Avisarei que está aqui, Senhorita Dixon. — Apenas aceno um sim para a moça, enquanto ela pega o telefone e fala com alguém. — Pronto, siga para o elevador dos empregados e aperte a tecla do terceiro andar. Alguém te aguardará.
— Obrigada!
Não me imaginei entrando em lugar como esse pela área de serviços, afinal, estudei tanto e me dediquei por anos a fio, que cheguei a cogitar que entraria pela porta da frente e ainda, que ocuparia uma sala só minha.
Sonhos, não dá para acreditar neles.
O Tim do elevador avisa que cheguei no meu andar e assim que as portas se abrem, um homem, usando um terno barato se aproxima e me abre um sorriso espalhafatoso.
— Você deve ser a Senhorita Dixon. — Ele me estende a sua mão. — O meu nome é Peter Thompson e sou o encarregado desse setor.
— Ah, é um prazer, Senhor Thompson! — Aperto a sua mão, acompanhado o seu sorriso cordial e me pergunto se ele será o meu chefe de agora em diante.
— Por favor, me chame apenas de Peter. Agora, venha por aqui. — Ele pede e logo o estou acompanhando dentro de um corredor largo e comprido, parando na última porta.
Dentro da copa encontro algumas moças usando uniformes azuis-escuros, com seus aventais e toucas brancas que exibem a logo de uma empresa que eu não conheço. Provavelmente a D’Angelo terceiriza esse tipo de serviço. — Vista isso, Isadora, eu preciso que fique pronta para começarmos
Pega de surpresa apenas arqueio as sobrancelhas, enquanto fito o homem extremamente alto me estendendo um uniforme.
— Você diz… tipo… agora? — gaguejo, pois não imaginava que começaria o meu primeiro dia hoje e tão pouco agora. Quer dizer, eu não avisei nada para ninguém e mamãe ficou sozinha em casa.
Droga!
— Algum problema, Senhorita?
— Ah, não. Está tudo bem. Onde eu posso me trocar?
— Tem um banheiro para empregados voltando por esse corredor, a terceira porta.
Seguro o fardamento e saio da copa para me trocar. E quando volto à cozinha, Peter me apresenta as dezenas de funcionários que estão em fileira e em pé diante dele. Não demora muito para descobrir que a minha primeira tarefa do dia. Organizar um breakfast em uma das salas de reuniões do vigésimo sexto andar. Tudo parece ser muito rápido e pragmático por aqui e em um piscar de olhos tenho um carrinho prateado na minha frente com algumas bandejas contendo torradas, biscoitos, croissants, uma garrafa de café e outra com água, um bule com chá, algumas xícaras e copos, e ainda, uma jarra de suco.
A sala de reuniões está completamente vazia e isso me deixa mais à vontade para deixar tudo organizado em um canto de parede bem próximo da uma enorme janela que tem a mais bela vista da cidade Seattle. Assim que termino, saio, deixando as portas duplas fechadas e imediatamente volto para o meu setor para seguir as próximas ordens.
— O que está achando do seu primeiro dia? — Anne, uma das funcionárias pergunta, sentando-se do meu lado no horário de almoço. Ela abre uma vasilha plástica e o cheiro de comida caseira se espalha pelo ar no mesmo instante.
Dou de ombros para a sua pergunta.
— Nada mal — ralho, abrindo a embalagem de uma barrinha de cereal que tinha na minha bolsa.
— Aqui não é tão ruim. Temos um bom salário, plano de saúde, cartão alimentação e ganhamos alguns extras caso precise passar do horário.
— Passar do horário? — Ela meneia a cabeça, fazendo um sim e leva uma garfada da sua comida a boca.
— Às vezes chego a fazer quase dois mil por mês só de horas extras.
— Uau! — ralho com desdém. — Não estou desdenhando realmente, mas dois mil por mês não dá nem para começar a quitar as dívidas que meu pai deixou. Sem falar no aluguel e as contas do cotidiano.
Bufo mentalmente.
E ainda tem a minha mãe que não pode ficar sozinha. Terei que pensar onde deixá-la durante o dia enquanto estiver trabalhando aqui.
— Você só trouxe isso para o almoço? — Anne pergunta me despertando.
— Na verdade, eu não sabia que começaria hoje.
— Entendi. Se quiser eu posso dividir o meu com você.
— Não precisa, Anne. Obrigada! Na verdade, eu não estou muita fome no momento.
