Capítulo 4 4
Isadora
No dia seguinte…
— Você precisa escolher as flores para o velório, querida. — Uma moça diz cautelosa, cuidadosa. Eu apenas respiro fundo, completamente sem forças e faço um sim com a cabeça.
Qual o grau de tristeza te deixa dormente ao ponto de não sentir nada? Eu não sinto dor, nem falta de ar, nem vontade de chorar. Deveria ser um dia lindo e vitorioso para mim, mas não foi assim.
— Cravos brancos e lírios da mesma cor, eram as flores preferidas dele — sibilo sem forças. — As fitas podem ser um bege suave e você pode colocar mensagens que lembram o melhor homem desse mundo e um pai perfeito.
— É claro, senhorita Dixon. — E ela se vai.
— Viu o John? — pergunto para uma empregada da casa, mas ela fez um não para mim e se retira. Desolada, apenas observo a sala cheia de pessoas que sequer conheço direito, mas provavelmente eles conheciam o meu pai. Sara parecia desligada desse mundo nesse momento tão doloroso e ela não sai de perto do caixão.
Horas depois estamos lhe dando adeus.
Uma semana depois…
— Senhorita Dixon, acorde!
Ouço a voz de uma da empregada, seguida de algumas batidas fortes na porta do meu quarto e olho para o relógio em cima do criado mudo. Nossa, não são nem seis da manhã! Resmungo mentalmente quando penso que a noite passada foi terrível e que quase não consegui dormir direito. Não quando a minha mãe recebeu um choque de realidade e entrou em crise de choro. Foi necessário dar-lhe um calmante para ela enfim, descansar. Depois, me tranquei em meu quarto e chorei por horas, tomada pelas muitas lembranças de uma família feliz e eu simplesmente não consegui me desligar.
— O que foi, Matilde? — grunho cansada e sonolenta, abrindo apenas uma brecha na porta.
— É que… tem alguns homens lá embaixo. — Confusa, franzo o cenho.
— Que homens? O que eles querem?
— Eles disseram ser do banco, Senhorita Dixon.
Reviro os olhos.
— Que merda, o meu pai mal foi enterrado e esses abutres já estão aqui?! Avise que descerei em alguns minutos, Matilde, por favor!
— Sim, Senhorita. — Ela se afasta e eu fecho a porta, mas torno a abri-la e a chamo de volta.
— Matilde?
— Sim?
— Minha mãe já acordou?
— Ainda não, Senhorita. — Faço outro sim com a cabeça.
— E o John?
— Eu não o vi, Senhorita.
Solto o ar com força pela boca.
— Está bem. Obrigada!
Minutos depois…
Se eu pensei que o meu mundo estava caindo sobre a minha cabeça, acredito que agora ele acabou de desabar de vez. Porque nesse exato momento tem pelo menos meia dúzia de homens espalhados por toda mansão com suas canetas e pranchetas, calculando o valor de tudo. Exatamente tudo. Nem mesmo as minhas joias escaparam de suas contabilidades. Nervosa, pego o meu celular e ligo para o meu irmão.
Onde você se meteu, seu idiota? Retruco mentalmente quando mais uma ligação vai direto para a caixa postal.
— Merda! — xingo com uma respiração profunda e guardo o celular no meu bolso.
— Senhorita Dixon? — Aceno um sim sutil para um homem alto e barrigudo quando ele se aproxima. — O meu nome é Phil Carter. Eu sou o gerente do banco de Seattle e gostaria de falar com a sua mãe sobre algumas pendências.
— Terá que falar comigo, Senhor Carter. Por favor, venha comigo até o escritório da casa — peço mostrando-lhe a direção, seguindo na sua frente e entro na sala, apontando uma cadeira para ele se sentar. — O Senhor aceita uma bebida?
— Ah não, obrigado! Ainda é muito cedo. — Meneio a cabeça outra vez. Entretanto, vou até o bar de canto e me sirvo uma dose dupla de conhaque. Bebo o líquido forte e amargo de uma só vez, e faço uma careta no processo. O homem parece surpreso com a minha atitude. Contudo, largo o copo em cima do balcão e limpo o canto da minha boca com o dorso da minha mão.
— De que pendências estamos falando, Senhor Carter?
— O seu pai tinha uma dívida grande com o nosso banco. Hipotecas, cheques, cartões e empréstimos.
— Como assim?
— O senhor Dixon tem tido alguns problemas com a empresa já tem algum tempo e ele tem feito empréstimos exorbitantes na tentativa de salvá-la. Nos últimos meses começou a usar os cheques especiais e há dois dias fez mais um empréstimo. Esse ainda mais alto e por garantia, ele hipotecou essa casa com tudo dentro dela.
Caio sentada no sofá.
Isso é loucura! Penso estagnada. Papai jamais faria isso conosco.
Estávamos bem, certo?
Por Deus o que está acontecendo?
— Eu sinto muito, Senhorita Dixon, mas você e sua mãe terão apenas quinze dias para deixar essa casa.
— Quinze… dias?!
Alguns dias depois…
Uma sala compacta, uma cozinha minúscula, dois quartos bem pequenos e alguns mofos nas paredes e no teto. Foi o melhor que consegui com as minhas economias para nós duas e para o jantar temos dois pães com manteiga e um pouco de café. Ainda estou me perguntando se isso tudo é um maldito pesadelo. Por que se isso for real, como não percebi os sinais ao longo desses meses? Eu poderia perguntar isso para a mamãe, mas nesse instante é impossível, porque ela está completamente fora da nossa realidade.
— Deite-se aqui, você precisa descansar — sibilo, inclinando o seu corpo com cuidado para trás, fazendo-a se deitar em uma cama de solteiro. Ajeito o seu travesseiro confortavelmente e cubro o seu corpo, deixando um beijo casto em sua testa. — Boa noite, mamãe!
