Cinco Irmãos, Uma Noiva

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Capítulo 10

Ponto de vista de Lily

O caminho de volta do hospital foi silencioso, meu pulso recém-enfaixado latejando com uma dor surda que me lembrava dos eventos dramáticos desta noite.

As mãos de William seguravam o volante com precisão, mas notei que ele olhou de relance para o meu braço machucado mais de uma vez.

"Ainda se sentindo culpado pelo esqueminha da mamãe?", pensei, recostando-me no banco de couro.

As luzes da cidade passavam como um borrão pelas janelas enquanto seguíamos para a Mansão Sterling, e eu não conseguia deixar de me perguntar que tipo de consequências encontraríamos quando chegássemos.

Elizabeth não era do tipo que aceitava a derrota com elegância.

Quando entramos na entrada circular de carros, notei que a maioria das luzes da casa principal ainda estava acesa.

"Interessante. Parece que alguém está tendo uma conversa até tarde da noite."

Quando William e eu entramos pela porta da frente, ouvi vozes vindas da sala de estar.

Walter e Elizabeth estavam em uma discussão acalorada, com suas vozes ecoando claramente pelo espaçoso saguão.

"Lily está nesta casa há apenas três dias, e você já a está perseguindo a cada oportunidade!" A voz de Walter soou áspera de raiva, mais furioso do que eu jamais o tinha ouvido.

A risada de Elizabeth foi fria e amarga.

"E de quem é a culpa disso, Walter? Diga-me, por que você realmente trouxe Lily para esta família?"

William e eu trocamos um olhar rápido, e ele parecia tão surpreso quanto eu me sentia.

Essa conversa claramente não era para os nossos ouvidos, mas já estávamos no saguão, e recuar agora seria evidente demais.

A resposta de Walter foi comedida, mas firme.

"Eu já te disse antes, Elizabeth. James e eu fizemos um acordo sobre nossos filhos anos atrás."

"Um acordo?" A voz de Elizabeth elevou-se, carregada de sarcasmo. "Tudo não passa de uma desculpa, não é? Na verdade, não é porque um dia você foi apaixonado pela mãe da Lily, Jane Spencer?"

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Mesmo de onde eu estava, eu podia sentir a tensão irradiando da sala de estar.

William havia ficado completamente imóvel ao meu lado, com uma expressão indecifrável.

"Bem, isso é inesperado", pensei, meu pulso acelerando. "Que segredos estão prestes a vir à tona?"

A voz de Walter, quando finalmente surgiu, soou tensa.

"Elizabeth, isso foi há muito tempo..."

"Eu sabia!" A frustração de Elizabeth era evidente.

"Você continuou apaixonado por aquela mulher todos esses anos, não é? É por isso que trouxe a filha dela para cá, por isso que trata a Lily como se fosse sua própria filha!"

Senti minha respiração falhar.

Minha mãe, Jane Spencer — a mulher da qual eu mal me lembrava —, havia sido o centro de algum triângulo amoroso entre Walter e meu pai?

As peças estavam começando a se encaixar de maneiras que eu não havia antecipado.

O suspiro pesado de Walter ecoou pela casa.

— Não é o que você está pensando, Elizabeth. Sim, quando éramos jovens, tanto o James quanto eu gostávamos da Jane. Fomos colegas de quarto em Harvard, ambos brilhantes, ambos ambiciosos. Para nós, ganhar dinheiro depois da formatura era tão fácil quanto respirar.

Sua voz ficou mais suave, tingida de velhas lembranças.

— Então conhecemos a Jane. Ela era linda, inteligente, cheia de vida. Nós dois nos apaixonamos por ela.

Pude ouvir Elizabeth inspirar bruscamente.

— A família Spencer já havia arranjado um noivado entre mim e a Jane — Walter continuou. — Nossas famílias achavam que era o par perfeito. Mas a Jane... ela escolheu o James. Eles fugiram juntos.

A revelação me atingiu como um golpe físico.

Meus pais tinham sido fugitivos, escapando de um casamento arranjado exatamente como aquele do qual eu agora fazia parte.

"A ironia é quase poética", pensei, com a mente atordoada.

— Todos esses anos — a voz de Elizabeth estava cheia de malícia —, você ficou suspirando por uma mulher morta, e agora trouxe a filha dela para cá para me torturar!

— Não! — A voz de Walter explodiu de emoção. — Você não entende, Elizabeth. A morte da Jane foi há anos. Você é a única mulher que eu amo agora.

Houve uma pausa, e quando Walter falou novamente, sua voz carregava uma dor antiga.

— Mas eu devo tudo ao James. Você sabe o que aconteceu naquele evento de gala beneficente quinze anos atrás? Quando os terroristas atacaram?

O silêncio de Elizabeth indicou que ela não sabia.

— O James levou um tiro que era para mim — a voz de Walter tremeu levemente. — Ele se jogou na minha frente sem hesitar. A bala destroçou a perna esquerda dele... ele mancou pelo resto da vida porque salvou a minha.

Pressionei a mão contra a boca, abafando um som de espanto.

Papai nunca tinha me contado a história completa do seu ferimento.

Eu sempre soube que ele tinha se machucado em algum tipo de acidente, mas isso...

— É por isso que ele ficou em Blue Mountain todos esses anos — Walter continuou.

— Ele poderia ter tido a vida que quisesse, mas escolheu criar a Lily tranquilamente, longe de tudo isso. Antes de morrer, ele me fez prometer que cuidaria dela. Como eu poderia dizer não ao homem que salvou a minha vida?

A sala de estar ficou em silêncio, exceto pelo que parecia ser o choro baixo de Elizabeth.

"Papai", pensei, com as lágrimas brotando em meus olhos. "Você nunca me disse que era um herói."

Enquanto Walter continuava a falar, sua voz ficou distante, perdida na memória.

— Elizabeth, há mais uma coisa que você deveria saber. Sobre a Jane...

Mas ele se interrompeu, como se algumas palavras fossem perigosas demais para serem ditas.

"E a minha mãe?", me perguntei, me esforçando para ouvir mais.

Mas Walter parecia ter desistido de compartilhar qualquer revelação que estivesse prestes a fazer.

William tocou meu braço gentilmente, fazendo um gesto em direção às escadas.

Precisávamos anunciar nossa presença antes que essa conversa se aprofundasse ainda mais nos segredos da família.

"Chegamos", avisou William, sua voz ecoando até a sala de estar.

A conversa cessou abruptamente, seguida por sons de movimentos apressados e sussurros.

Quando William e eu entramos na sala de estar, encontrei Walter e Elizabeth sentados nas pontas opostas do sofá, ambos parecendo emocionalmente esgotados.

A maquiagem perfeita de Elizabeth estava levemente borrada, e a aparência de Walter, normalmente impecável, estava desalinhada.

Para o meu total espanto, Elizabeth se levantou e caminhou diretamente na minha direção.

"Lily", disse ela, com a voz formal, mas não hostil. "Devo-lhe um pedido de desculpas pelo... incidente desta noite. Meu comportamento foi inaceitável."

Fiquei olhando para ela, surpresa demais para responder de imediato.

Essa era a mesma mulher que havia orquestrado uma armação elaborada poucas horas atrás, e agora estava pedindo desculpas?

"Tudo bem", eu disse simplesmente, decidindo não fazer muito caso disso. "Eu escolho perdoar você."

Walter sorriu com um alívio evidente, provavelmente grato por sua esposa finalmente demonstrar alguma civilidade.

"Foi um dia longo para todos", acrescentei. "Acho que vou subir e descansar."

Depois de um banho quente, eu tinha acabado de vestir meu pijama quando alguém bateu na porta.

Abri e encontrei Elizabeth parada no corredor, parecendo muito mais recomposta do que estava lá embaixo.

"Sra. Sterling", eu disse, genuinamente curiosa. "Precisa de alguma coisa?"

"Gostaria de falar com você", disse ela. "Posso entrar?"

Dei um passo para o lado, fazendo um gesto para que ela entrasse.

Ela examinou o espaço como se procurasse pistas sobre o meu caráter, e então se virou para me encarar diretamente.

"Lily", começou ela, a voz assumindo um tom profissional, "estou disposta a aceitar a sua presença nesta família. Até mesmo apoiarei o seu casamento com um dos meus filhos."

Ergui uma sobrancelha, pressentindo a chegada do inevitável "mas".

"No entanto", continuou Elizabeth, encontrando meu olhar com uma determinação férrea, "há uma condição. Você não pode escolher William."

"Aí está", pensei, não totalmente surpresa.

"Posso perguntar por quê?"

A expressão de Elizabeth endureceu.

"William é o meu filho mais excepcional. Já encontrei a parceira perfeita para ele, alguém que realmente entende o nosso mundo e pode apoiar suas ambições de forma adequada."

A insinuação era clara como cristal: eu não era boa o bastante para o seu precioso primogênito.

"E essa parceira perfeita seria Fiona, presumo", pensei, lembrando-me da mulher elegante que estava tão ansiosa para reivindicar o seu lugar na hierarquia da família Sterling.

"Entendo", eu disse simplesmente.

Elizabeth pareceu surpresa com a minha falta de questionamento.

"Então você entende? William precisa de alguém que esteja à altura de sua sofisticação, alguém que já nasceu nesta vida. Os outros quatro rapazes... bem, eles são mais adequados para alguém com a sua... origem."

"Como ela formula diplomaticamente 'você não é digna do meu melhor filho'", refleti.

"Entendo perfeitamente", respondi, oferecendo-lhe um sorriso que não revelava nada.

Elizabeth pareceu aliviada, provavelmente esperando mais resistência.

"Ótimo. Fico feliz que possamos chegar a um entendimento."

Depois que ela saiu, sentei-me na cama, processando as revelações desta noite.

A história complicada entre Walter, meu pai e minha mãe.

O verdadeiro motivo pelo qual Walter me protegia com tanta ferocidade.

E agora o ultimato de Elizabeth sobre William.

"Interessante como todo mundo acha que sabe o que é melhor para mim", pensei, observando as luzes da cidade que cintilavam do lado de fora da minha janela.

"Pena que não fazem ideia de com quem estão lidando de verdade."

A manhã seguinte chegou com a promessa de novas complicações.

Hoje era o meu dia marcado com Thomas, o irmão que supostamente não suportava William e que tinha como missão se opor a tudo o que o irmão mais velho fazia.

"Isso deve ser interessante", pensei, escolhendo uma roupa casual, mas estilosa, para o que quer que Thomas tivesse planejado.

Desci as escadas e encontrei Thomas esperando ao lado de seu Mercedes prata, vestindo um terno caro, porém mais descontraído do que os trajes formais que William costumava usar.

Ele tinha um sorriso fácil e uma postura confiante que o tornavam imediatamente mais acessível que o irmão mais velho.

"Pronta para uma aventura?", perguntou Thomas quando me aproximei, mas notei que ele não usou nenhum termo de tratamento familiar.

Nada de "futura cunhada" ou sequer o meu nome — apenas um cumprimento deliberadamente casual que sugeria que ele estava mantendo uma certa distância emocional.

"Interessante. Ele já está se posicionando como o anti-William", observei.

Acomodei-me no banco do passageiro do carro dele.

Assim que pegamos a estrada, Thomas me lançou um olhar com um sorriso que parecia feito para ser charmoso.

"Então", disse ele, com um tom deliberadamente casual, "como foi o seu dia com o meu querido irmão ontem?"

A pergunta estava carregada de entrelinhas, e eu conseguia perceber a leve provocação por trás de sua postura amigável.

"Foi tudo bem", respondi, mantendo minha resposta deliberadamente vaga.

Thomas riu, mas havia algo calculista em seu olhar.

"Tudo bem? Só isso? Qual é, Lily, você pode ser sincera comigo. Eu sei como o William é: frio, controlador, completamente desprovido de calor humano ou charme."

Ele me lançou um olhar de soslaio.

"Estou te avisando, aquele cara é problema. Implacável nos negócios, emocionalmente indisponível na vida. Você seria louca de escolhê-lo."

Senti um sorriso querendo se formar no canto da minha boca.

"Lá vem o discurso de vendas", pensei, achando graça da transparência de Thomas.

"É mesmo?", eu disse, deixando um tom de interesse transparecer na minha voz. "Então eu deveria escolher você?"

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