Capítulo 5
MAVERICK
Eu ainda estava em choque, tentando digerir o que tinha acontecido mais cedo na prefeitura. Como eu pude ser tão idiota a ponto de confiar naquelas pessoas e entregar um ano da minha vida? Como eu pude ser tão ingênua? Talvez o Heath estivesse certo quando disse que eu era boba e facilmente manipulável.
Eu ia tirar a aliança de diamante e o anel de noivado, mas parecia errado quando a verdade era que, legalmente, eu estava casada com o filho de um bilionário, Lake Winston. Ele era rico também?
“Droga.” Quantos anos ele tinha? Ele não era tão velho, talvez dois ou três anos mais velho do que eu, e eu não sabia nada sobre aquele cara além de que ele namorava a modelo influencer Natalie Wise. “Será que ela sabe?”
“Sabe o quê? Quem?”
“Nada, Nana. Eu estava falando sozinha.” Olhei para ela, sentada no banco do passageiro.
“Tem certeza de que você não está ocupada?”
“Eu não vou deixar você ir pro hospital de táxi, Nana.” Ela tinha recebido o diagnóstico de cardiopatia hipertensiva cinco anos antes. Então precisava visitar o médico a cada três meses. “E que tipo de pessoa eu seria se deixasse você ir sozinha ao médico?”
“Sua mãe não se importa”, ela disse, contrariada.
“Bom, mas ela é minha mãe.”
Chegamos ao hospital. Depois de uma hora esperando, finalmente chegou a nossa vez. O doutor Webbs fez um check-up completo nela, e a enfermeira colheu uma amostra de sangue.
“A senhora tem sentido falta de ar, dona Augustine?”
“Não mente, Nana.”
“E por que eu mentiria?”, ela retrucou, na defensiva.
O doutor Webbs sorriu, recostando-se na cadeira. “Eu vou saber, dona Augustine. A senhora vai continuar com a medicação de manutenção até eu receber todos os resultados do exame de sangue.”
“Uhum. Vai ver você podia me receitar um comprimido que juntasse todos esses remédios.”
“Isso não existe”, disse o médico.
“Tanto faz. Eu sinto que estou ficando cada vez mais doente.”
“Nana, médicos não são mágicos nem Deus.” Ajudei-a a se levantar. “Obrigada, doutor Webbs.”
“A gente se vê daqui a alguns meses.”
“Não, obrigada, doutor. Eu sei, Ricky. A gente pode ir pra casa agora? Tem certeza de que isso vai cobrir meu plano?”
“Não se preocupa. Eu resolvo o resto.” Ela nem fazia ideia de que eu estava me esparramando no sofá do Rocco fazia semanas. Ela já tinha coisas demais para se preocupar além dos meus problemas pessoais.
Por fim, chegamos em casa. Eu dei uma geral na casa dela e, depois, fiz um chá. Eu ia visitá-la com frequência. Se a faculdade e o Bazz fossem mais perto dali, eu ficaria com ela em vez de alugar um apartamento. Assim eu poderia ficar de olho nela, mas foi ela mesma que me obrigou a arrumar um apê e ter uma vida como qualquer mulher da minha idade.
“Vai viver a sua vida, Ricky! Eu sei me cuidar!”, ela gritou da sala.
“Você nem usa o aspirador que eu comprei pra você.”
Depois de duas horas limpando, eu desci, coloquei as roupas dela na máquina e troquei os lençóis e a coberta da cama.
“As pessoas hoje em dia... E nem pense em comprar aquele robô, ou eu jogo pela janela. Que ridículo.”
Eu ri alto. “Tá bom. Vou ficar na cozinha.”
“Deixa isso comigo, Ricky. Vem sentar aqui comigo.”
Ai, meu Deus. Eu fui até ela e dei um gole no meu chá. “Você tem certeza de que está usando a lava-louças?”
“Vai lá. Confere. E já que é você quem paga a conta de luz... Cadê seu namorado, afinal? Vocês terminaram?”
“Sim.” Pela primeira vez, eu não senti aquela raiva apertada no peito.
“Ótimo. Ele não é bom pra você. Você merece um homem com um futuro melhor.”
“Engraçado você falar isso, Nana. Ele acabou de me dizer que eu não penso no meu futuro.”
“Bom, ainda bem que você finalmente saiu desse relacionamento tóxico. Você está ficando onde agora? Você pode voltar depois que terminar a faculdade. Faltam quantos meses pra você se formar?”
“Cinco. Eu peguei um apartamento novo com uma colega de quarto legal. Ela também trabalha no Bazz.”
“Talvez você devesse casar com o Rocco.”
A Nana me pegou bem quando eu estava prestes a esconder os anéis no meu dedo. “Por que você está usando esses anéis? Essa pedra é enorme, Ricky. Tem alguma coisa que você quer me contar?” O Lake tinha exagerado na compra do anel de noivado para a esposa temporária dele.
Eu nunca tinha mentido pra ela, mas não estava pronta para contar a verdade e ver a decepção no rosto dela.
“Isso é moissanita. Eu comprei pela internet.” Olhei para o anel de noivado. O diamante lapidação cushion parecia ter umas 3 quilates, com duas pedrinhas nas laterais. E ainda tinha a aliança inteira de diamantes, que devia ter custado uns trinta mil dólares ou mais.
— “Hã. Parece de verdade.” Eu via nos olhos verdes dela que ela não estava comprando a história.
— Queria. Quem é que me daria um anel se eu não tenho um homem na minha vida?
— Bom. Você devia ir. Você trabalha hoje?
— Não. Hoje eu tô de folga, mas tenho umas coisas da faculdade pra fazer.
— Então vai.
— Você ainda tem comida aí?
— Ricky, cai fora e vai se divertir um pouco.
Eu me levantei da cadeira e beijei a bochecha dela. — Eu te amo, Nana. Me liga se precisar de qualquer coisa.
A volta de carro demorou um pouco, e eu fiquei me perguntando pra onde eu devia ir — pro meu apartamento ou pro penthouse dele. Aliás, onde era o penthouse dele mesmo?
Mas aquele beijo… Foi estranho, de um jeito bom. Parecia que era pra acontecer, como se a gente estivesse apaixonado, ou como um casal de verdade, feliz da vida pra casar. Pra ser bem precisa, parecia certo.
Meu celular tocou de repente dentro da bolsa. Provavelmente era o Rocco.
Atendi. — Hoje eu tô de folga. O que você quer?
— Sra. Winston?
Merda. Eu olhei a tela. Era o Owen. — Foi mal, Owen. Eu achei que fosse o meu chefe. Me chama de Maverick, ou Mave. “Sra. Winston” me deixa com cara de velha.
— Desculpe, senhora.
— Tá. Tanto faz. Em que eu posso ajudar, Owen?
— Meu chefe mandou eu ver como você está. Ele ainda tá preso na reunião.
— Ah, eu tô bem. Acabei de voltar da minha avó. Eu tava indo pro meu apartamento.
— Ele quer que você esteja no penthouse. Ele já deixou suas coisas preparadas.
— Como assim?
— Ele resolveu tudo.
— Ele é sempre assim? Querendo controlar tudo?
— Quase sempre, senhora.
— Para de me chamar de senhora. E eu vou pro penthouse, se você não se importar de me passar o endereço.
— Tô te mandando agora.
Quando o endereço chegou, eu salvei no GPS do carro. Levei quase uma hora até uma das torres residenciais mais altas de Manhattan. A Central Tower se erguia enorme na minha frente, e eu não fazia ideia do que fazer, onde estacionar meu carro — que claramente não tinha nada a ver com aquele lugar — nem pra onde ir depois.
Uma batida no vidro interrompeu meus pensamentos. Era um manobrista pedindo pra eu sair dali. Foi quando eu reparei num Cadillac atrás de mim.
— Merda. — Eu saí dirigindo pra procurar uma vaga e quase atropelei alguém. — Que porra é essa?
Era o Owen. Dessa vez, ele estava sem o paletó do terno. Parecia bonito e jovem. — Você tá tentando me atropelar? — Ele entrou no carro. — Vamos. Vira à direita. O chefe tem uma área de estacionamento particular.
— Eu tô completamente fora do meu lugar. Eu, sinceramente, não sei o que eu tava pensando e em que merda eu me meti.
— Você vai ficar bem.
Eu olhei pra ele de lado, por um instante. — Então não é a primeira vez que seu chefe te manda procurar uma esposa pra ele?
— Eu tenho uma lista de candidatas, mas ele dispensou todas, até a mulher…
— Com quem ele tá saindo.
— O chefe não “sai” com ninguém. Eu não chamaria isso de namoro. Eles só ficaram, sem compromisso, e os dois sabem exatamente qual é a situação.
— Uau. — Doeu saber que meu marido ainda ficava com outra mulher. Mesmo com nosso acordo bem claro, e com a gente tendo combinado um relacionamento aberto enquanto ainda fôssemos casados, desde que tudo fosse informado, ainda assim não me descia.
Tinha uma cláusula de que a gente podia concordar em dormir junto, desde que fosse consensual, e isso foi antes de eu descobrir que ia me casar com o filho.
Eu estacionei meu carro ao lado de um Audi R8, que parecia que devia estar num pátio de sucata. — Ele coleciona carros. Por que eu ainda me surpreendo?
— Ele coleciona, mas nunca faz questão de mostrar.
— Você pode falar mal assim do seu empregador?
— Claro. — Ele me ajudou a sair e me guiou até a porta do elevador privativo, que ele destrancou com o cartão.
Assim que a porta se fechou, começou a tocar um rock clássico. Era um elevador supermoderno, mas demorou um pouco pra chegar ao penthouse.
Ele nos deixou no corredor, e Owen destrancou a porta dupla. Eu me surpreendi com o tamanho do penthouse. Era acolhedor, com o pé-direito alto, fazendo tudo parecer amplo, espaçoso e aconchegante, com um design de interiores moderno.
A janela enorme, do chão ao teto, dava vista pros arranha-céus e pro parque da cidade. Havia uma escada no canto que levava ao andar de cima, mas o que mais me chamou a atenção foi o tom neutro das paredes, em contraste com os estofados, os tapetes e os diferentes detalhes dos móveis.
Eu esperava algo com uma pegada mais masculina, mas o Lake continuava me surpreendendo.
