Capítulo 3
MAVERICK
Fiquei furiosa ao encontrar minhas coisas do lado de fora do prédio. O caminhão de lixo podia ter levado tudo se eu tivesse chegado só cinco minutos mais tarde. Aquele babaca estava testando a minha paciência, e isso não me deixou escolha a não ser aceitar o quarto que a Genesis me ofereceu. Estava acima do que eu podia pagar, mas era o único lugar mais barato do que qualquer outro apartamento.
Genesis me ajudou a tirar algumas caixas que o inquilino anterior tinha deixado antes de ir trabalhar.
Meu estômago revirou quando o alarme do meu celular tocou. Era um lembrete de um compromisso na minha agenda. As contas não paravam de chegar, eu estava com saldo zero na poupança, cartão de crédito estourado, e a consulta de retorno da minha avó já estava marcada.
— Merda. — Fui até a bolsa e catei o celular.
Uma parte de mim dizia para eu não fazer isso, mas, por outro lado, o meu orgulho não pagava as contas e, no fundo, eu queria me vingar do meu ex. Talvez eu estivesse pendendo mais para a vingança.
Disquei o número, e atenderam na hora.
— Boone.
Limpei a garganta antes de falar.
— A oferta de meio milhão de dólares ainda está de pé?
Prendi a respiração, mas meu coração disparou enquanto eu esperava a resposta do outro lado da linha.
— Sim.
Eu me encolhi com a resposta dele. Meu Deus, eu queria poder voltar atrás.
— Ótimo. Eu tenho uma lista de exigências que você vai repassar pro seu chefe.
— Não seria você, senhorita Bates, se não tivesse exigências. — E uma delas era nada de intimidade.
— Não me lembro de ter dito meu nome completo.
— Saber com quem estou lidando faz parte do meu trabalho. E eu vou encaminhar ao meu empregador. Só envie a lista para o e-mail que está no cartão.
— Eu quero um adiantamento em dinheiro. E isso não é negociável. Pode ficar tranquilo: eu vou fazer o melhor que eu puder para ser uma esposa. — Deus, só de dizer isso me dava ânsia. No que foi que eu me meti?
— Muito bem. Vou enviar o dinheiro imediatamente e os detalhes do contrato. Um advogado vai se encontrar com você mais tarde hoje, com o acordo de confidencialidade, o contrato e o acordo pré-nupcial.
Desliguei, encarando a tela. O que foi que eu fiz?
Minha avó nunca me perdoaria pelo meu comportamento, e isso me levaria por um caminho sem volta. Eu não era nada além daquelas interesseiras que eu via nas redes sociais. Talvez fosse um karma ruim, por julgar gente que eu nem conhecia, sem saber pelo que tinham passado e a humilhação que precisavam engolir todos os dias.
Eu queria chorar, mas meu orgulho não me alimentava nem pagava as contas.
Mais tarde, naquele dia, os dez mil dólares caíram na minha conta, e eu me encontrei com os advogados num restaurante chique à noite.
Depois de ler o acordo de confidencialidade e ignorar o pré-nupcial blindado para proteger a fortuna do cliente deles, eu assinei tudo na hora, porque, se me dessem mais cinco segundos para pensar, eu teria saído correndo do restaurante — e eu precisava do dinheiro. Além disso, eu não queria os bens e a herança da família dele, e sim o valor pelo qual eu tinha assinado.
— Aqui está o acordo conjugal por doze meses. Assim como está escrito no termo de confidencialidade, você não pode revelar isso a ninguém.
— Eu sei o que é um acordo de confidencialidade. — Assinei o documento e larguei a caneta. Os dois advogados, Milus e Anders, não deixaram passar meus dedos tremendo.
— Obrigado, senhorita Bates. Não se preocupe. A senhora não abriu mão do direito de registrar uma queixa se o nosso cliente a tratar mal ou se houver qualquer tipo de abuso doméstico durante esse casamento.
Eu me olhei no espelho. Eu estava com um terno branco novo, oversized, passei um pouco de maquiagem e prendi o cabelo num coque. Comprei um par de sapatos, porque eu não podia chegar no dia do meu casamento parecendo uma moradora de rua enquanto o meu futuro marido vestia um terno de mil dólares de uma marca famosa.
Peguei minha bolsa e enfiei minhas coisas lá dentro, incluindo a caixinha pequena de veludo azul. Eu nem tinha aberto, mesmo ela tendo chegado ontem.
A cada minuto que passava enquanto eu dirigia até a prefeitura, meu coração batia mais forte. Eu não era de chorar por qualquer coisa. Achei que a vida tinha me ensinado a ser dura quando minha mãe me abandonou pra ficar com um babaca, porque o namorado dela não queria cuidar de uma criança.
A prefeitura apareceu à frente. Depois de dias segurando minhas emoções, meu peito finalmente cedeu. Encostei o carro na vaga vazia e gritei em silêncio.
Aquilo simplesmente não parecia certo. Minha avó me criou direito, mas o que isso me teria deixado se eu tivesse deixado sozinho o homem a quem eu agora devia dinheiro? O fato de ele ser podre de rico… ele podia muito bem contratar alguém pra acabar com a minha vida, ou me sequestrar e depois jogar meu corpo morto no rio.
Uma batida no vidro me fez pular. Respirei fundo e me recompus antes de ver quem estava do lado de fora do meu carro.
Era o Owen, no terno chique dele.
Peguei minha bolsa e destranquei a porta.
“Eu estava começando a achar que você não ia aparecer.” Cavalheiro como era, ele abriu a porta pra mim.
“Eu ainda quero viver.” Dei uma risadinha ao lembrar do que eu tinha pensado um segundo atrás. “É só doze meses no inferno, e eu estou no inferno quase a minha vida inteira, Owen.”
“Vai dar tudo certo, senhorita Bates. Confie em mim.” Ele me encarou, talvez percebendo que eu não estava usando o vestido que o chefe dele tinha comprado pra eu vestir na cerimônia desse casamento de fachada.
Ajeitei a roupa e encarei Owen. “Eu nem te conheço pra confiar em você. Aposto que você não tá nem aí pra mim se não for seu chefe mandando você estar aqui.”
“Eu me importo com pessoas boas, senhorita Bates.”
“Só Maverick, Owen.”
“É meu trabalho me dirigir a você do jeito certo, senhorita Bates.” Ele fez um gesto com a mão. “Vamos?”
Eu literalmente sentia meu coração batendo contra o peito enquanto eu entrava na prefeitura.
“Relaxa”, Owen disse, assentindo para o outro cara, com o mesmo terno que o dele.
Com o estômago apertado, fiz o possível pra sorrir. “Fácil falar. Você não é quem vai casar com um velho desconhecido por dinheiro.”
Pela primeira vez, eu o ouvi dar uma risada. Os dentes dele, retos e brancos, apareceram quando ele sorriu. Owen era um homem bonito, bem-apessoado, alto e forte, com o cabelo num undercut texturizado.
“Não tem graça.” Só então reparei que ele estava usando um ponto no ouvido, daqueles de segurança. “Tá tudo bem?”
“Tá. Você vai ser a próxima depois que um casal terminar de casar agora.”
“Ótimo. Agora eu tô ainda mais nervosa.” Segui com ele até a capelinha e sentei num dos sofás, mas ainda não via meu noivo.
Meu coração podia explodir a qualquer momento dentro do peito, e eu estava prestes a perguntar ao Owen sobre o meu noivo quando alguém se sentou à minha esquerda, com cheiro de colônia cara.
“Pra você”, disse a voz grave à minha esquerda, me oferecendo um buquê lindo de peônias, margaridas e rosas brancas.
Virei os olhos para o homem num terno italiano azul-marinho sob medida. “Não, obrigada. Tenho certeza de que meu noivo consegue pagar um buquê do jeito certo.”
Eu ainda não tinha visto o rosto dele quando ele soltou uma risada, mas, pelo terno, pela voz, pelo cheiro e pela flor que ele escolheu, ele não era Wallace Winston. Aquele homem era, com certeza, mais novo.
“E você não está usando o meu anel nem o vestido que eu escolhi pra você.” O tom soou quase… decepcionado.
Num instante só, meu mundo mudou, deixando um gosto amargo de realidade. Meu olhar endureceu quando encarei o homem — olhos azul-pedra me encarando de volta, me pegando desprevenida. Ele não era Wallace. Nem de perto.
Merda.
Com uma sobrancelha escura arqueada, ele esperava, paciente, a minha resposta. O olhar dele era firme, focado, e tudo o que eu consegui fazer foi engolir em seco.
“Maverick.”
