Capítulo 1
MAVERICK
Para uma mulher que já tinha passado pelo pior, ido ao inferno e voltado, eu não conseguia acreditar que tinha aguentado mais um dia.
— Você tá com uma cara de acabada. Tira um dia de folga — disse meu chefe, Rocco, como cumprimento. Ele também era meu amigo e era dono do Bazz Village Bar, no centro de Nova York.
Olhei para ele enquanto amarrava o avental. — Não, obrigada. Eu preciso de dinheiro.
— Todo mundo precisa de dinheiro, Maverick, mas você precisa descansar. — Ele quase me fulminava com o olhar, mas hoje era sábado, e a gorjeta ia ser boa.
— Você quer que eu saia do seu caminho e pare de dormir no seu sofá? Então eu preciso de dinheiro pra alugar um apartamento. — Fechei meu armário com força. Quando meu ex terminou comigo e me expulsou do apartamento, Rocco deixou eu ficar na casa dele, lá em cima. Isso foi há três semanas.
Meu ex era um canalha e um traidor. Eu não conseguia acreditar que fui tão cega e não percebi antes que ele estava me traindo. No mesmo dia em que terminou comigo, ele levou a namoradinha pra o apartamento que a gente dividia.
Eu não suportava a ideia de eles estarem transando no nosso quarto, então decidi ir embora e aceitar a oferta do Rocco. Sim, minha vida estava uma bagunça.
— Você tá se matando — ele suspirou, como se já estivesse cansado demais de me aturar. — Se você simplesmente aceitasse o dinheiro—
— Não. — Passei por ele pra bater o ponto. Ele veio atrás, mas eu decidi não deixar ele continuar. — Só me deixa trabalhar em paz, tá?
— Eu só quero que você saiba que você tem um amigo. — Os olhos castanhos dele ficaram sérios.
— Uau. Obrigada.
Entrei no bar e já estava lotado. Reconheci um homem de trinta e poucos anos, sempre de terno preto impecável e gravata. Provavelmente trabalhava como segurança particular de algum ricaço importante.
— O de sempre? — sorri.
— Isso. — Um sorriso leve apareceu nos lábios dele.
Servi um uísque com gelo, como ele sempre pedia, e coloquei na frente dele quando ele se sentou no banquinho. — Aqui está, senhor.
Fui até outro cliente, uma mulher linda, com dedos bem cuidados e um ar meio artístico. — Posso te oferecer alguma coisa forte, moça?
— Só um Manhattan. Obrigada. — Ela parecia carregar o mundo nas costas.
— Achei que você ia folgar hoje.
Preparei o Manhattan e me virei pra Genesis, uma loirinha baixinha e bonita, mais ou menos da minha idade. — O Rocco te falou isso?
— Não. Você tá trabalhando há três semanas sem parar.
— Uma garota precisa comer, GG.
Ela deu uma risadinha. — Você ainda tá procurando um apartamento?
— Como você ficou sabendo? — As notícias corriam rápido, e eu não fiquei exatamente surpresa. Eu não tinha contado pra ninguém além do Rocco.
— Eu sei que você tá ficando lá em cima já faz dias. Se te ajuda, minha colega de apê foi embora ontem pra ficar com o noivo. Algumas caixas dela ainda tão no quarto, mas, se você se interessar, me avisa.
— Seu apartamento fica a que distância daqui?
— Quinze minutos, no máximo.
Sorri pra ela. — Eu vou lá ver, mas você sabe que meu orçamento tá apertado.
— Ah, não é tão caro. A gente divide tudo meio a meio.
— Ótimo. Posso passar lá pra dar uma olhada?
— Claro. Eu te passo o endereço.
— Obrigada.
Um grupo de garotas chamou minha atenção, e uma mulher usando uma tiara vagabunda gritou:
— Feliz aniversário pra mim!
A turma dela explodiu num berro, aplaudiu e começou a cantar parabéns.
Peguei as notas que o homem de terno e gravata tinha deixado na mesa. Ele sempre deixava uma gorjeta boa e sorriu antes de ir embora.
Antes que eu pudesse pegar o copo vazio, outro cliente chegou.
— Eu preciso falar com você.
Por dentro, eu gemi ao reconhecer aquela voz. Meu maldito ex — de todas as pessoas — tinha vindo até meu trabalho. — O que você quer, Heath?
— Já fazem semanas, Maverick. Você precisa tirar suas coisas do meu apartamento.
Encarei ele. — Da última vez que eu conferi, também era meu apartamento.
— Maverick, a gente tem clientes. Leva o seu problema pessoal pra longe do balcão — disse Rocco. Eu fui grata por ele ter aparecido e interrompido.
Suspirei pra ele e acenei pra Genesis. — Me cobre um minuto. Isso não vai demorar. — Saí pela porta de serviço e soltei o ar devagar. Eu sabia exatamente por que o Heath estava ali, porque eu tinha ignorado as mensagens dele.
— Você tem que tirar suas coisas do meu apartamento. Você tem até amanhã, ou eu vou jogar tudo no lixo.
— Você acabou de me dar um ultimato? — Apertei os olhos pra ele. Ele podia ser alto, mas eu não dava a mínima. — Eu morava lá, Heath, e você simplesmente me chutou pra fora porque arrumou um brinquedinho novo.
“Você sabe que nosso relacionamento não ia durar mesmo. Você vive ocupada estudando e trabalhando naquele barzinho meia-boca.” Filho da puta.
Quando a gente se conheceu, eu achei que ele era só confiante e bonito. Eu estava ansiosa demais pra ter um namorado, e ele esteve comigo até alguns meses atrás, quando tudo mudou entre nós. Ele mal aparecia em casa e, quando eu perguntava, dizia que era coisa do trabalho, então eu não insistia. Quando chegava, dormia e acordava cedo pra trabalhar.
“Isso paga minhas contas, Heath.”
“Tá vendo?” Ele deu de ombros. “Você não tem sonho nenhum além de pagar conta. E quanto você ganha, afinal? Você não conseguiu nem pagar metade do mínimo em três meses e ainda me deve dois mil e duzentos dólares. Eu preciso desse dinheiro agora. Tenho certeza de que você consegue pegar emprestado com seu chefe.”
Meus olhos se arregalaram com a cara de pau dele. “Você só pode estar de brincadeira. Eu já disse que vou te pagar.”
“Me dá o meu dinheiro ou eu jogo suas tralhas no lixo. Faz um mês que a gente tá junto, e eu tenho planos com a minha namorada.” O nojo nas palavras dele me fez estremecer.
Por um instante, eu só encarei, sem acreditar, incapaz até de piscar. “Há quanto tempo você tá me traindo, Heath?”
“Você é muito ingênua. Ninguém aguenta seu jeito. Você nem se veste direito. Vai dormir de pijama ou com aquela sua camiseta larga, toda surrada.”
Meu nariz dilatou enquanto eu fechava as mãos em punhos. Antes que eu respondesse, alguém parou do meu lado. “Quanto ela te deve?”
Virei a cabeça num estalo pro homem ao meu lado — um cara de terno. “O-o que você tá fazendo?”
“Quem é você?” Heath perguntou, olhando pra ele, que era mais alto e mais largo do que ele.
O cara do terno o ignorou. Enfiou a mão no bolso do paletó e tirou dinheiro de uma carteira com presilha.
“Não. Você não pode fazer isso.” Empurrei o dinheiro de volta. “Eu nem te conheço.”
“Eu aceito. Dois dias, Maverick, ou você vai achar suas coisas no lixo.” Heath já tinha arrancado o dinheiro da mão do cara do terno e virado as costas, sumindo no beco sem nem olhar pra trás.
“Esse é o seu ex?”
“Quem diabos é você?” Eu encarei ele com dureza.
“Owen Boone.” Ele estendeu a mão grande, como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Me chama de Boone.”
“Quanto eu tô te devendo?” Apertei a mão dele com firmeza.
“Você não me deve nada. Meu chefe vai cobrir.”
“Como é?” Minhas sobrancelhas subiram. Meus olhos se arregalaram ainda mais.
“Eu tenho uma proposta pra você.”
“Não, obrigada, mas eu vou te pagar.” Dei alguns passos pra trás, fazendo um cumprimento rápido com a mão.
“Maverick, me escuta.”
Merda. Eu parei, me sentindo mal-educada e ingrata. “Obrigada por salvar minha pele. Que proposta?”
Demorei um tempo pra processar o que ele tinha acabado de jogar em cima de mim. Eu tentei abrir a boca pra dizer alguma coisa, mas meu cérebro travou. Gente rica fazia mesmo esse tipo de coisa?
“Maverick!” A voz do Rocco ecoou lá da saída, me assustando.
“Já vou aí, Rocco. Um minuto.”
Quando a porta se fechou, tudo que eu consegui fazer foi piscar, encarando Owen Boone.
“E então, o que você me diz?”
“Você quer que eu me case com o seu chefe por um ano, com uma mesada de dez mil dólares por mês, casa de graça, todas as despesas pagas, meu empréstimo da faculdade quitado e, no fim do acordo, eu ganho quinhentos mil dólares?”
“Sim.”
Bom… era tentador. “Qual é a pegadinha?”
“Sempre ser a esposa dele, ir a compromissos formais e suprir—”
“As necessidades dele.” Meu estômago revirou. Eu engoli o gosto amargo subindo na garganta, e Owen viu a minha reação.
“Ele não vai te forçar. Você pode deixar isso como condição, e você vai assinar um acordo—”
“Um termo de confidencialidade.”
“Isso. E você pode anotar suas exigências e acertar tudo com ele.”
“Quem é o seu chefe?”
“Sr. Winston. Liga pra esse número.”
“Wallace Winston? O bilionário?” Era o único Winston que eu conhecia. Segundo a Forbes, ele tinha entrado no top 100 das pessoas mais ricas, e isso estava em tudo quanto é notícia e rede social ultimamente. Eu peguei o cartão de contato. Era do Owen. “Ele não tá saindo com uma mulher mais ou menos da minha idade?”
“Não — não—”
“Não. Desculpa.” Eu afastei a oferta com um gesto enquanto me afastava. Eu podia estar desesperada por dinheiro, mas não tinha como eu virar esposa-troféu dele. A namorada dele era linda, e todo mundo achava que ela era interesseira e vivia escalando socialmente. Então o que sobrava pra mim?
“Seiscentos mil!”
“Não!”
