Capítulo 6 Esse é o papai?
Depois de deixar a Cidade Esmeralda anos atrás, Emily tinha ido para Eldoria com a ajuda de sua melhor amiga, Elodie Garcia. Quando descobriu que estava grávida, não havia dúvida de quem era o filho — daquele homem.
Elodie tentou convencê-la a interromper a gravidez. Na opinião dela, não valia a pena sacrificar o futuro por um homem cujas intenções eram desconhecidas. Mas, quando o médico disse a Emily que ela estava esperando trigêmeos, ela não teve coragem de desistir deles. Com o passar dos dias, ela foi sentindo, aos poucos, os movimentos dentro do ventre.
Emily era profundamente grata por ter mantido seus três filhos.
Jasper ergueu o olhar, o rostinho sem qualquer sinal de ansiedade, e falou com calma:
— Mãe, não se preocupa. A Elodie levou o Ethan com ela faz um tempinho.
Os nervos tensos de Emily relaxaram um pouco, mas a confusão que ainda persistia não deixou que ela ficasse totalmente tranquila.
— A Elodie estava aqui? Por que ela não me esperou? E por que levou só o Ethan?
Que comportamento sem pé nem cabeça era esse da Elodie?
— A Elodie teve uma emergência e precisou sair. Ela comprou um monte de lanches, e o Ethan estava com fome, então ele insistiu em ir com ela — explicou Jasper.
— Entendi. A Elodie disse quando volta?
— Ela disse pra gente ir pra casa primeiro, e que ela traz o Ethan de volta depois que resolver as coisas dela. — Jasper não demonstrou nenhum desconforto enquanto inventava, com segurança, esse combinado que não existia.
Tecnicamente, ele não estava mentindo. Só estava escondendo a verdade por um bom motivo.
Na família deles, ele e o irmão, Ethan, eram os pilares — encarregados de eliminar qualquer ameaça e proteger a mãe e a irmã.
O jeito de adulto em miniatura de Jasper fez Emily sorrir.
Apesar de ter apenas cinco anos, Jasper sempre fora maduro e responsável, assumindo em silêncio seus deveres como irmão mais velho, o que tirava um grande peso de Emily.
Por isso, Emily sempre confiara nas palavras de Jasper.
Talvez ela devesse agradecer àquele homem de seis anos atrás por ter sido abençoada com três anjinhos tão adoráveis. Mas a existência deles era um segredo que ela guardaria dele para sempre — ela não ia deixá-lo entrar na vida deles.
Ninguém tomaria seus filhos dela.
Emma, sem perceber que os pensamentos de Emily tinham se perdido, olhou para Jasper, surpresa. Ela estava prestes a contar a verdade — que, na realidade, o Ethan tinha se afastado sozinho e que a Elodie nem tinha aparecido.
Antes que ela pudesse falar, um pirulito foi enfiado rapidamente na boca dela.
Enquanto Emma saboreava o doce, sua lealdade mudou na mesma hora.
Tá bom, ela não ia desmascarar a mentira do irmão.
Com Emma devidamente subornada, Jasper suspirou aliviado. O plano que ele e Ethan tinham bolado não podia desandar agora.
Pouco antes, o relógio dele tinha vibrado com uma mensagem do Ethan: [Achei uma pessoa suspeita. Pode ser o pai.]
Isso acendeu a curiosidade de Jasper.
Todos esses anos, a mãe nunca tinha dito nada sobre o pai deles. Com medo de magoá-la, eles não perguntavam, e recorriam à Elodie em busca de respostas.
Mas Elodie os tratava como crianças, desviando das perguntas. Quando insistiam, ela encerrava o assunto com um “Quem liga pra onde aquele idiota foi?”
Então o idiota finalmente tinha dado as caras?
Jasper precisava entender por que esse homem tinha abandonado a mãe deles. Por que Emily tinha fugido da Cidade Esmeralda? Por que ela ainda acordava chorando no meio da noite?
Os trigêmeos tinham feito um pacto: quem mexesse com a mãe deles teria que arcar com as consequências.
Emily, sem duvidar da história de Jasper, levou as duas crianças para uma área de assentos ali perto. O carro de aplicativo que ela tinha chamado ainda demoraria alguns minutos para chegar.
Enquanto isso, Jasper parecia estar jogando com Emma no tablet, mas, na verdade, seus dedos se moviam rápido, puxando informações.
Na tela, apareceu o perfil de Charles — CEO do Grupo Windsor, uma figura lendária no mundo dos negócios, conhecido por decisões certeiras e métodos implacáveis. O que mais chamou a atenção de Jasper foi ver que Charles constava como namorado da tia Clara.
Jasper franziu levemente a testa.
Elodie tinha comentado que Emily e Clara guardavam um rancor antigo uma da outra. Se Charles era o namorado de Clara, provavelmente também não era boa coisa.
Mas Jasper já tinha visto a foto de Charles, e a semelhança era inquietante. Charles parecia tanto com ele e com Ethan que Jasper não conseguiu evitar a suspeita de que aquele homem fosse o pai deles.
Então… o pai deles tinha abandonado a mãe porque tinha traído?
Jasper especulou em silêncio.
Ele enviou as informações para Ethan, orientando-o a tentar conseguir um fio de cabelo de Charles para um teste de paternidade.
Naquele momento, Ethan estava sentado no carro da família Windsor. O relógio dele piscou com uma luz vermelha bem discreta. Ele sabia que era Jasper respondendo à mensagem, mas não podia olhar agora. Charles era atento demais, perspicaz demais, e Ethan não queria ser mandado embora tão cedo.
Ethan ergueu os olhos para Charles, que estava à sua frente, revisando documentos.
Aquele homem era mesmo o pai dele? Sendo ou não, Ethan não mediria esforços para descobrir a verdade.
Enquanto isso, o carro de aplicativo de Emily chegou rápido.
Emily levou Jasper e Emma primeiro para a Mansão Starlight, a casa que Elodie tinha ajudado a comprar. Os quartos já estavam preparados com antecedência, e a babá tinha sido escolhida a dedo por Elodie.
Depois de acomodar as crianças, Emily saiu para resolver um assunto importante.
Emily parou na esquina, com os olhos presos às portas de vidro tão familiares. Sentiu um aperto súbito e agudo no peito — como se uma mão invisível fechasse os dedos ao redor do coração dela.
Nas lembranças, a Mirage Fashion sempre tinha sido cheia de clientes, um entra e sai constante. Agora, a entrada estava vazia, com algumas folhas secas rodopiando pelos degraus ao vento.
Como alguns poucos anos tinham conseguido transformar aquilo num lugar tão desolado?
Ela respirou fundo e empurrou a porta giratória de vidro. As dobradiças soltaram um som opaco, que ecoou de um jeito constrangedor na loja vazia.
A jovem atrás do balcão da recepção estava absorta no celular. Atrás dela, uma tela de LED repetia em looping um vídeo barato, com um desfile de moda feito por computador. A luz branca e fria lançava um tom sem vida, acinzentado e azulado, sobre o piso de mármore.
Uma tristeza indescritível subiu no peito de Emily.
Aquele era o lugar que Scarlett tinha construído com dedicação de uma vida inteira. Ali, Emily tinha aprendido a escolher tecidos e a dominar a arte da costura. Agora, tinha virado uma casca abandonada e desanimada do que já fora.
Os croquis feitos à mão da coleção “Noite Estrelada”, de Scarlett, que antes enfeitavam as paredes, tinham sido substituídos por pôsteres mal impressos de vestidos da moda. Como aquilo podia ser a mesma Mirage Fashion — a própria, um dia famosa pelo acabamento impecável e pelos tecidos de primeira?
Tinha virado nada mais do que uma lojinha comum num polo de roupas no atacado!
