Capítulo 5 Bisneto
Charles devolveu o brinquedo ao garotinho.
— Como você se chama? E qual é o seu objetivo ao se aproximar de mim?
William, impaciente, deu um tapa na nuca de Charles.
— É assim que se fala com uma criança? Vai ficar ali!
Num instante, a postura dele mudou por completo. Diante do menino, virou o retrato de um avô carinhoso.
— Qual é o seu nome, meu bem?
— Eu sou o Ethan — respondeu a criança, com aquela voz doce e inocente.
William abriu um sorriso, apertando de leve a mãozinha de Ethan.
— Um nome magnífico! Você se separou dos seus pais?
Ethan piscou, com os olhos marejados, e seu olhar ficou preso no rosto de Charles. A semelhança era inconfundível — aquele homem parecia muito com ele e com o irmão.
Será que isso podia ser só coincidência?
A mãe sempre se mantivera firme em silêncio sobre o pai deles. Ele e os irmãos já tinham concluído havia tempo que o sujeito devia ser um canalha sem coração para ter merecido o desprezo duradouro dela.
Olhando para a figura fria e imponente à sua frente, Ethan decidiu que o homem se encaixava perfeitamente no perfil.
Será que ele era... o pai deles?
Já o senhor idoso parecia genuinamente bondoso. Ethan decidiu que acompanhar os dois talvez fosse o único jeito de desvendar aquele mistério.
Ethan pôs a mão atrás das costas e tocou de leve na tela do smartwatch algumas vezes.
Perfeito. Ele acabara de mandar uma mensagem para o irmão pelo relógio.
Quando o irmão visse o recado, saberia onde Ethan estava, poupando a mãe de um pânico desnecessário.
Agora era hora de começar a encenação.
Ethan ergueu o rostinho gordinho.
— Eu... eu não tenho pai, e agora não consigo achar a minha mãe.
A testa de Charles franziu. Há poucos instantes, aquela criança estava gritando “Mãe, me espera”, o que deixava claro que a mãe estava por perto.
Mesmo assim, agora os olhos dele se nublavam com a medida certa de pânico. A atuação era assustadoramente convincente.
Ethan baixou o olhar; os ombrinhos tremeram de leve enquanto ele continuava:
— A gente acabou de voltar do exterior. Minha mãe disse que precisava encontrar uma pessoa importante e mandou eu esperar aqui, mas eu corri rápido demais e me perdi... Eu tô com medo. Posso ir pra casa com vocês?
— De jeito nenhum!
— Claro que pode, vamos pra casa!
Charles e William falaram ao mesmo tempo, com respostas completamente opostas.
Ethan recuou na hora, com uma expressão miserável e assustada, e se agarrou à perna de William.
— Ele é tão malvado... — choramingou.
Como era de se esperar, um segundo depois a bengala de William acertou as costas de Charles.
— Se você quiser bancar o tirano no escritório, problema seu. Mas não intimide uma criança na minha frente!
— Vô! A origem dessa criança é desconhecida. Isso aqui está claramente armado. A gente deve entregá-lo à segurança do aeroporto ou à polícia.
Os olhos de Ethan ficaram vermelhos na mesma hora, e lágrimas grandes e silenciosas começaram a descer pelo rosto.
A racionalidade de William foi para o espaço. Ele puxou Ethan para um abraço protetor e bateu a bengala com força no chão. “Esse menino quer ir comigo! A gente tem uma ligação! Eu não vou deixar ninguém levar ele pra delegacia! Esquece Lumaria! Como é que alguma coisa pode ser mais importante do que o meu bisneto! Ethan, né? Eu compro doce pra você. Vamos pra casa primeiro e depois a gente procura sua mãe, tá?”
William cutucou a bochecha gordinha de Ethan, encantado com aquela maciez lisinha.
Ethan lançou um olhar rápido para o perfil rígido de Charles e se aconchegou ainda mais nos braços de William, assentindo com timidez. “Tá.”
“Nem pensar.” Charles tirou o celular do bolso, os dedos deslizando rápido pela tela. “Vou acionar a segurança do aeroporto pra fazer um aviso. Se a gente não encontrar a mãe dele em meia hora, temos que comunicar a polícia!”
“Você não teria coragem! Charles, escuta bem — esse menino vem comigo! Se você encostar um fio de cabelo nele, eu liquido minhas ações do Grupo Windsor e dou cada centavo pra caridade!” William se levantou de supetão, pegou a mãozinha de Ethan e foi em direção à saída.
William estava quase fora de si. Ethan tinha deixado claro que não queria ir pra delegacia, e mesmo assim Charles continuava insistindo em mandar a criança pra lá!
Era uma falta de empatia absurda; não era à toa que as crianças achavam ele repelente.
Ethan caminhou ao lado de William, olhando para trás de fininho na direção de Charles. O homem o observava com uma desconfiança profunda.
Qual era, ele era só uma criança — o que tinha pra desconfiar?
Com aquela personalidade gelada, o homem era exatamente igual ao irmão de Ethan.
Não, não era bem assim — o irmão dele era muito mais legal! Se Charles não queria ter contato com ele, então Ethan faria justamente o contrário do que ele queria.
Ethan parou de repente. “William, eu posso ir com o Charles em vez disso? Eu gosto dele.”
Os olhos de William brilharam, e ele parou na hora, virando-se para Charles de queixo erguido. “Ouviu? Até o menino vê alguma coisa em você! Você vai com a gente. E vai liderar pessoalmente a busca pela mãe dele — nem pense em jogar isso pra polícia!”
Charles notou os olhares cúmplices entre os dois e sentiu a dor de cabeça piorar.
Ele guardou o celular e disse friamente: “Façam como quiserem. Mas eu aviso, vovô: não se espante quando a máscara cair e o senhor descobrir que foi enganado.”
Ethan, escondido, repuxou os lábios num sorrisinho.
Mamãe sempre dizia que, pra lidar com gente distante, persistência era a chave.
William seguiu orgulhoso em direção ao estacionamento, com a mão de Ethan na sua, resmungando: “Lumaria não é nada perto do meu bisneto precioso!”
Charles veio atrás, mais devagar, observando o redemoinho teimoso do cabelo de Ethan quicar sob a luz do sol, sentindo uma sensação cada vez mais fria na nuca.
Quem estava armando pra ele?
E como conseguiram uma criança tão parecida com ele?
Enquanto isso, Emily saiu apressada do banheiro, os olhos varrendo a área de espera. O coração dela despencou quando viu apenas o filho mais velho, Jasper Johnson, segurando a mão da filha caçula, Emma Johnson — e Ethan não estava em lugar nenhum.
“Jasper”, ela arfou, com a voz carregada de pavor crescente. “Onde é que o Ethan está?”
