Capítulo 3 Capítulo 2
CAPÍTULO 2
Ela observava uma movimentação um tanto estranha do lado de fora, mas não conseguia ver direito o que acontecia ali. Haviam seguranças demais na residência, e ela estranhava bastante.
De vez em quando ela ouvia algo meio abafado, e ficava com a impressão de serem gritos, mas não dava para ter certeza, e eles misteriosamente sumiam do nada, ela começou a achar que a pancada havia mesmo afetado a sua cabeça, pois começou a achar que estava ouvindo demais e aquilo era loucura.
Os funcionários evitavam de olhar para ela, pareciam ter algum tipo de medo, e a jovem começou a se perguntar se ela teria os tratado mal antes do acidente, pois ninguém ousava a olhar e nem falar, era muito estranho.
Infelizmente os remédios que ela tomava, não a permitiam continuar muito tempo acordada, e Maria Júlia muitas vezes, voltou ao mundo dos sonhos, ouvindo nomes estranhos, como: Morcego, Gavião e MP, era abusada e até drogada, naquele mundo sombrio. Assim era a todo o momento, e o que ela achava mais estranho era o fato de estar sonhando com outro homem, um que ela o beijava com frequência nos sonhos e o chamava de Miguel, mas não sabia nada sobre ele.
Felipe tratava a jovem muito mal, e um dia a agrediu, mas com isso ela conseguiu ser liberada para sair e andar do lado de fora da residência.
— Não é uma boa ideia, mas tudo bem! Vou isolar os guardas no período da tarde e vou pedir ao Davi, o novo segurança, que fique com você, ele parece ser de confiança! — Felipe respondeu, mesmo sem querer isto, pois ele acha arriscado ficar deixando-a tão solta, mas é melhor se redimir pela noite anterior, embora o Lombardi achasse aquilo tão normal.
Horas depois...
A jovem almoçou no quarto por ordem do marido, mas logo depois do almoço assim como o combinado a Aurora a levou para tomar um pouco de sol num lugar reservado no jardim, aonde o Lombardi já tinha autorizado.
Ela olhava, olhava, e ficava imaginando se era realmente verdade o que o marido havia contado sobre aqueles barracões, e sobre a sua vida, mas essa seria uma coisa que levaria um bom tempo para ela descobrir.
Observou um rapaz encostado na beira do portão, e ele a observava muito. Maria Júlia tinha a impressão de já ter visto aquele homem, mas isso também era normal, provavelmente ela já o conhecia mesmo, o homem não tirava os olhos dela, e ela deu uma leve risada... “Claro... o marido deveria ter dado ordens para o segurança, para que fizesse isso”, pensou ela. Ele era bonito, pele bronzeada, cabelos lisos e bem penteados... ela não deveria olhar, se corrigiu por isso, pois era casada.
Ela já tinha ficado muito tempo lá, e de repente notou o segurança se aproximando dela, ele dava umas olhadas para os lados e caminhava lentamente, então chegando perto, apoiou a mão na árvore lhe perguntou:
— Está tudo bem, com você?
— Ah, sim! Estou tomando um sol, preciso respirar um pouco, fora daquela casa! — Respondeu ela.
— Eu preciso ser rápido... alguém me pediu que te entregasse um bilhete pessoalmente. Um homem entregou aqui no portão, e disse que era importante, e o seu marido não poderia saber em hipótese nenhuma, parece que é sobre parte do seu passado! — Ao falar, agora ele conseguiu a total atenção da moça.
— Porquê está fazendo isto? Vai sair correndo contar ao Felipe, se eu aceitar?
— Talvez... ou talvez eu apenas queira te ajudar! — Falou deixando a jovem ainda mais curiosa.
— E, por que você me daria essa ajuda? Não tem medo de Felipe Lombardi, assim como todos os outros? — Perguntou, com a sobrancelha levantada.
— Eu não tenho medo de nada e de ninguém! Já tive... não nego! Mas, esse é um defeito que destruí de dentro de mim, hoje sou muito mais forte!
— Hum... neste caso, vou aceitar o bilhete! — gostou daquele rapaz, ele parecia sincero
— Está aqui...
— Vou entrar, agora, já está tarde! Quem é esse homem, e porque está me ajudando? — Ela questionou.
— Ele é de confiança, só isso que posso dizer por enquanto, e eu também! Então pode contar comigo, e se depois de ler a carta quiser conversar, volte no mesmo horário amanhã! — Propôs o Davi.
— Eu não sei! Vou ler agora mesmo, e se eu voltar, terei que pedir autorização ao meu marido outra vez!
— Não se preocupe! Ele vai me perguntar sobre o seu passeio de hoje, e eu te ajudarei para que volte! Agora espere que vou chamar a Aurora para que te ajude a voltar, pois se eu te encostar, o senhor Lombardi me arranca as mãos, não é? — Brincou, e ela sorriu.
Assim como ele falou, a Aurora ajudou a jovem a voltar para dentro de casa, em segurança. Maria Júlia estava ansiosa demais para saber sobre o conteúdo da carta.
— Porquê não me contou sobre isso? — Perguntou, ao erguer o envelope discreto, na altura do rosto, mostrando para a Aurora.
— Aqui, eu não sei de nada, não vi nada, e se me perguntarem eu nego, filha! Com licença! — Falou ela se retirando, e a jovem já percebeu que a Aurora tinha muito medo de algo.
Ela pegou o envelope, e por fora estava escrito:
“Para a jovem que entrou no meu carro no dia do acidente!“
Ela estranhou a colocação, será que o marido sabia disso? Parece que ela havia ouvido que o acidente foi com Felipe, agora outro homem está falando outra coisa?
Até as suas mãos começaram a suar, a curiosidade estava a matando, precisava abrir aquela carta. Pela primeira vez tentou trancar a porta do quarto, mas ao encostar percebeu que não tinha chave do lado de dentro. Precisou deixar como estava.
Sentou com certa dificuldade na beira da cama, abriu aquele envelope, e começou a ler...
“Olá, querida Maria Júlia!“
“Se as coisas tiverem acontecido como eu ouvi dizerem por aí, então nesse momento você deve estar muito surpresa de receber esta carta, pois não deve se lembrar de mim!
Estou muito preocupado com você, e espero realmente que esteja bem!
Por enquanto não vou revelar o meu nome, tanto para a minha segurança, quanto para a sua, pelo menos até que você alcance o seu verdadeiro objetivo, que é fugir daí...“
“Se você não lembra, vou te ajudar com algumas coisas que você me contou...
Eu te conheci no dia do seu acidente, e o meu carro foi parar debaixo da água! Você estava com hematomas, mal vestida, despenteada, e descalça! Falou inúmeras vezes que precisava fugir de onde morava, e me implorava para que eu te levasse sem custo a um lugar longe, que depois me enviaria o dinheiro de forma online.
No começo tive receio de te levar, mas acreditei em você, e te deixei entrar. Você pedia repetidamente para que eu acelerasse o carro o máximo que desse, para um tal de Gavião não te alcançar, e comentou de outros nomes também, como: MP, Morcego, Lombardi! Falou que haviam te sequestrado a quatro anos, e te usavam para prostituição...“
Maria Júlia começou a passar mal! As coisas que ela estava lendo, eram absurdas! De onde este homem tirou tudo aquilo?
A jovem parou de ler por segundos, e depois de estar mais calma, resolveu continuar...
“Você estava sob o domínio deles, por anos, sendo vendida a clientes, como você mesma contou, e repetia muitas vezes que precisava voltar para a sua casa, que a sua família deveria até ter pensado que você havia morrido, e também precisava encontrar o seu namorado, um tal de Miguel!“
Quando Maria Júlia leu esse nome, ela gelou... Miguel, era o nome do seu namorado no sonho, que ela tinha até beijado, e inclusive adorou! Como aquele homem saberia disso se ela não o tivesse contado, e ele também pronunciou “MP”, outra vez esse apelido foi pronunciado, como ele também saberia disso? Era coincidência demais, tudo isso!
A jovem resolveu continuar...
“Abra os olhos, moça! Tente se lembrar! E se não conseguir, por favor não conte nada sobre isso a quem te mantém aí, essa pessoa deve estar mentindo para você, te enganando, pois, você jamais escolheria voltar para o mesmo inferno, então se cuida, tá? Até você descobrir sobre algo, guarde o nosso segredo, jogue esta carta fora, e logo te mandarei mais informações que eu tiver! Boa sorte, garota!“
Maria Júlia estava assustada! Ela já percebeu que muitas coisas não batem na história dela, ela já sabe que algo está errado, mas não entende o que o marido teria a ver com tudo isso, pois esses sonhos que ela anda tendo e pesadelos, são reais demais! Ela sabe que todos eles estão lhe dizendo algo, mas eles parecem como peças de um quebra-cabeças que ela precisa montar.
A primeira coisa que Maria Júlia faria, era tentar voltar a encontrar com aquele segurança, pois ele pareceu um tanto suspeito agora. Como ele saberia dessa carta? E, porque a Aurora também saberia e não quis dizer mais nada? Ela precisaria falar com o rapaz de novo, o tal de Davi, que havia lhe informado que talvez ela quisesse ver ele novamente no outro dia.
