Capítulo 4 Capítulo 0004
•CASSANDRA•
De repente, o quarto pareceu pequeno demais, o ar fino demais, enquanto as palavras de Mason ecoavam na minha cabeça como um feitiço cruel do qual eu não conseguia escapar.
Nadia é minha ex. Ela foi a mulher que esteve comigo e salvou a minha vida.
Por um longo instante, eu não consegui ouvir mais nada. Nem o tique-taque do relógio na parede. Nem a minha própria respiração. Nem mesmo Mason se afastando depois de jogar aquela verdade como uma lâmina no meu peito.
Tudo o que eu conseguia ouvir era a vozinha do Rowan de anos atrás, chiando nos meus braços enquanto eu o embalava em mais uma noite interminável, enquanto Mason pensava na ex-namorada.
As dezenas de vezes em que eu fiquei acordada até o amanhecer, rezando para ele sobreviver.
Os dedinhos dele se enroscando no meu cabelo quando estava com medo. O “Cadê o papai?” baixinho toda vez que ele acordava de um pesadelo, e eu dizia que ele estava trabalhando até tarde.
E agora…
Agora a verdade mudava tudo.
Apertei uma mão trêmula contra a barriga, tentando respirar. As paredes do corredor pareciam balançar enquanto eu andava em direção ao quarto do Rowan, desesperada para vê-lo, para confirmar que nada tinha mudado.
Mas, no instante em que cheguei perto da porta, ouvi a voz dele.
Clara e ansiosa.
— Eu quero que a Nadia leia a minha história preferida antes de dormir.
Meu mundo congelou no meio do passo.
— Rowan… — sentei ao lado dele na cama, tentando firmar a voz. — Meu amor, eu leio suas histórias desde que você era pequenininho. Você nunca quis que mais ninguém lesse. Nem o seu pai. O que mudou?
Rowan tinha seis anos agora, e eu o amava com todo o meu coração, e nunca imaginei que ele pediria que outra mulher ocupasse o meu lugar como mãe.
Desde o momento em que eu o peguei no colo pela primeira vez, prometi a mim mesma que o protegeria, acontecesse o que acontecesse.
Quando ele chorava, bebê, só se acalmava comigo.
Ele nasceu com os pulmões fracos, e por anos os curandeiros temeram que ele não sobrevivesse às doenças do inverno. Eu passei incontáveis noites ao lado da cama dele, ouvindo cada respiração irregular, apavorada com a ideia de perdê-lo.
Quando ele finalmente melhorou, eu achei que tinha garantido meu lugar no coração dele para sempre. Mas agora ele mal olhava para mim.
— Eu quero a Nadia — ele repetiu, baixinho.
Meu estômago se revirou de dor.
Parecia que a Nadia estava tirando tudo de mim. A atenção do Mason. O amor do Rowan. O meu lugar dentro desta família.
— Eu posso ler a história do cavaleiro lobo — tentei de novo, com cuidado.
— Mamãe Nadia! — Rowan gritou, alto.
A porta do quarto se abriu na mesma hora.
Mason e Nadia entraram juntos.
— O que aconteceu? — Mason perguntou imediatamente, indo até Rowan.
O rosto do Rowan se iluminou no segundo em que viu a Nadia.
— Eu quero que ela leia pra mim — ele respondeu, feliz. — Não a Cassandra.
As palavras doeram mais do que eu esperava.
Eu encarei ele em silêncio por um segundo antes de me forçar a falar.
— Rowan — eu sussurrei — eu sou a sua mãe. Eu estive aqui a sua vida inteira.
Antes que Rowan pudesse responder, Mason interrompeu.
— Se o Rowan quer que a Nadia leia pra ele, deixa — ele disse, calmo. Como se isso não estivesse me destruindo.
Nadia deu um passo à frente com uma expressão cuidadosa.
— Só se a Cassandra estiver confortável com isso.
Mas os olhos dela contavam uma história completamente diferente. Ela parecia feliz por ele estar escolhendo ela em vez de mim. E doía saber que não havia nada que eu pudesse fazer.
Rowan agarrou a mão dela, ansioso.
— Por favor, lê a história do cavaleiro.
Nadia se sentou ao lado dele, abrindo o livro como se se conhecessem desde sempre.
Mason ficou de pé ao lado dos dois. Parecia protetor e à vontade. Como se eles já fossem, de novo, uma família.
E, de repente, eu entendi exatamente qual era o meu lugar.
Do lado de fora.
“Vou deixar vocês à vontade”, respondi, antes de me virar em direção à porta.
No instante em que pisei no corredor, Kira quase esbarrou em mim.
“Luna, eu estou te procurando em todo lugar”, ela disse, apressada. “O Beta Noah me pediu pra te lembrar da reunião do conselho amanhã, sobre a sua proposta dos curandeiros.”
Me obriguei a manter a compostura. “Obrigada, Kira. Eu espero há meses que o conselho aprove pelo menos uma análise.”
Mesmo com a minha vida pessoal desmoronando, as minhas responsabilidades ainda importavam.
Durante meses, passei cada hora livre trabalhando nessas propostas.
Revisei registros de curandeiros de ataques anteriores, estudei a falta de suprimentos e calculei quantos lobos morreram porque o tratamento adequado chegou tarde demais.
Silvercrest dependia demais de ajuda médica de fora. Se outra guerra acontecesse, gente demais ia morrer.
Por isso eu lutei por um centro de treinamento de curandeiros, mesmo com os anciões resistindo à ideia repetidas vezes.
Não era só mais um prédio.
Era sobrevivência.
Um futuro em que lobos como Rowan pudessem receber o cuidado certo dentro do território da alcateia, em vez de depender de estranhos.
Sem pensar, esfreguei a cicatriz apagada no meu braço esquerdo.
Meus pais morreram durante um ataque de renegados quando eu ainda era criança. Depois disso, meu tio me criou junto com meu irmão mais velho.
Ele me contou uma vez que minha mãe me escondeu atrás de uma árvore caída antes de os renegados chegarem à nossa casa.
Eu mal lembrava mais dos rostos deles. Mas certas perdas nunca vão embora de verdade.
Enxuguei os olhos depressa antes de seguir para o banheiro. Então a porta do quarto se abriu atrás de mim, e Mason entrou.
A expressão dele continuava indecifrável enquanto caminhava até o armário e puxava várias camisas. Eu o observei arrumar as coisas em silêncio por alguns segundos.
Aí, por fim, ele falou: “Eu quero o divórcio.”
Mesmo depois de tudo, aquelas palavras ainda doeram.
“Tudo bem”, suspirei. “Se você quer o divórcio, então vamos nos divorciar.”
Mason ficou paralisado. Como se esperasse que eu implorasse, ou chorasse, ou brigasse por ele. Em vez disso, eu só fiquei ali, exausta.
Depois de um instante, perguntei: “Eu ainda vou à reunião do conselho amanhã?”
“Sim”, ele respondeu. “A alcateia ainda precisa de estabilidade durante a transição.”
“Transição?”, repeti, fria.
Mason fechou a mala devagar antes de olhar para mim.
“Eu preciso da sua cooperação enquanto a Nadia se estabelece em Silvercrest.”
Um sorriso amargo passou pelo meu rosto. “Então esse é o meu papel agora?”
Mason pareceu irritado na mesma hora. “Não torne isso mais difícil do que já é.”
Eu ri baixo, sem humor. “Por seis anos, eu dei tudo por essa alcateia. Acho que eu mereci o direito de fazer perguntas.”
“Você ainda tem responsabilidades como Luna.”
“E depois do divórcio?”
Aquele silêncio respondeu tudo.
Assenti devagar. “Certo. Eu vou à reunião. Vou terminar o meu trabalho.”
Então me virei antes que ele visse as lágrimas finalmente caírem. Dentro da minha cabeça, Lyra rosnou baixo. Mas, dessa vez, nenhuma de nós duas tinha mais forças pra lutar.
