ATRAÇÃO IRRESISTÍVEL

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Capítulo 9 VERDADES INCONVENIENTES

O amanhecer chegou silencioso, coberto por um céu indeciso entre o azul e o cinza.

Aline chegou ao escritório pontualmente, como sempre.

Mas, dessa vez, cada passo até sua mesa parecia pesar mais do que o anterior.

O e-mail trocado com Paulo — ou melhor, com o “Paulo que acreditava falar com Nina” — ainda martelava na cabeça dela.

E a sensação de estar vivendo uma mentira começou a se tornar insuportável.

Ela se acomodou, ligou o computador e respirou fundo, tentando mergulhar no trabalho.

Mas, quando levantou o olhar, o viu — parado na entrada do escritório, observando-a em silêncio.

Paulo.

O olhar dele era firme, intenso, e por um segundo Aline sentiu como se ele pudesse enxergar através dela.

Como se as camadas cuidadosamente erguidas de Aline Méndez e Nina Alves se dissolvessem sob aquele olhar.

— Bom dia, senhor — disse, mantendo o tom neutro.

— Bom dia, Aline. — Ele hesitou. — Pode vir à minha sala quando terminar esse relatório? Temos... assuntos a discutir.

— Claro, senhor.

Assim que ele se afastou, ela percebeu que algo estava diferente.

O modo como ele falara, o peso nas palavras.

Não era apenas trabalho.

Paulo Bianchi estava prestes a fazer perguntas — e ela não sabia se conseguiria mentir novamente.

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Na sala dele, o ambiente estava silencioso.

A luz suave da manhã entrava pelas janelas, refletindo nas pastas empilhadas sobre a mesa.

Quando Aline entrou, Paulo já estava lá, de pé, com as mãos nos bolsos e o olhar distante.

— Pedi que viesse porque há algo que preciso entender — começou, direto.

Ela sentou-se devagar, tentando manter o controle.

— Claro, senhor.

Ele a observou por um longo momento antes de continuar.

— Tenho pensado sobre aquela noite... no La Ruelle. — A voz dele era baixa, mas cada palavra parecia pesar. — E sobre você.

Aline sentiu o coração acelerar.

— Sobre mim?

— Sim. — Ele se aproximou um pouco. — Há algo em você que... me intriga.

O modo como fala. O jeito como evita certos olhares.

E há coisas que simplesmente não se explicam.

Ela tentou sorrir. — Não entendo o que quer dizer.

— Entende, sim. — A voz dele agora era firme. — O perfume. O olhar. As palavras.

O silêncio entre eles ficou denso.

Aline sentia a garganta seca, as mãos frias.

— Está me confundindo com alguém, senhor.

Paulo deu uma risada curta, sem humor.

— Gostaria de acreditar nisso. Mas não consigo.

— Por que não?

— Porque desde aquela noite, não consigo pensar em outra coisa.

O tom dele era um misto de frustração e fascínio.

— Eu sei que é loucura. Que não faz sentido algum. Mas quando olho pra você, Aline... eu vejo ela.

O mundo pareceu girar por um instante.

Ela desviou o olhar, fingindo ajustar os papéis sobre a mesa.

— Com todo respeito, senhor, acho que o trabalho está afetando seu descanso.

Ele sorriu de canto, mas o olhar permaneceu sério.

— Pode ser. Mas também pode ser que o destino esteja me pregando uma peça.

---

Nos dias seguintes, Paulo passou a observá-la discretamente.

Não por desconfiança apenas — mas por necessidade.

Precisava entender.

Precisava saber se sua mente estava o traindo... ou se o coração o estava conduzindo à verdade.

Começou a reparar em detalhes:

o modo como Aline segurava a caneta, o leve desvio no sotaque quando se distraía, o riso contido que lembrava o de Nina.

Tudo se encaixava, como peças de um quebra-cabeça que ele não sabia se queria completar.

Enquanto isso, Aline tentava desesperadamente manter o controle.

E, para complicar ainda mais, “Nina” continuava recebendo mensagens dele — mensagens cheias de emoção, de confissão, de uma ternura que a deixava sem chão.

> Paulo: “Não consigo parar de pensar em você. Mesmo quando estou cercado de gente, é o seu rosto que me vem à mente.”

Nina: “Talvez você devesse tentar esquecer.”

Paulo: “Já tentei. E falhei.”

Cada palavra era uma lâmina de culpa e desejo ao mesmo tempo.

Ela sabia que estava se afundando — mas não conseguia parar.

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Numa tarde chuvosa, ele a surpreendeu com um convite.

— Aline, o conselho se reunirá amanhã cedo. Quero revisar a apresentação antes. Pode ficar até mais tarde hoje?

— Claro, senhor.

O escritório esvaziou-se aos poucos, e só os dois permaneceram.

O som da chuva contra o vidro criava um ritmo calmo, quase hipnótico.

Ela revisava os slides, ele caminhava pela sala, distraído.

Mas, a certa altura, parou atrás dela, observando-a em silêncio.

— Aline — chamou, baixinho.

Ela se virou. — Sim, senhor?

Ele a olhou por um instante longo, como quem busca coragem para algo.

— Tire os óculos.

Ela piscou, confusa. — Como disse?

— Por favor. — A voz dele era calma, mas firme. — Tire os óculos.

O coração dela disparou.

— Senhor, não vejo necessidade...

— Eu vejo.

Sem alternativa, ela obedeceu.

E, naquele instante, o tempo pareceu congelar.

Os olhos dela — os mesmos que ele sonhava há semanas — o encaravam agora sem escudo algum.

A mesma cor. O mesmo brilho.

— Eu sabia — murmurou ele, quase num sussurro. — Eu sabia que era você.

Aline ficou sem palavras.

Quis negar, mas o tremor em suas mãos a denunciou.

— Eu... posso explicar.

— Então explique. — A voz dele estava tensa, mas não havia raiva. Apenas perplexidade. — Por quê, Aline? Por que criar outra pessoa?

Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas.

— Porque eu queria ser vista.

— Eu a vejo todos os dias.

— Não, senhor. — Ela o interrompeu, a voz firme. — O senhor vê a funcionária exemplar, a mulher discreta atrás da mesa. Mas nunca olhou pra mim.

Ele ficou em silêncio, sentindo as palavras pesarem.

— E Nina... foi o jeito que encontrou de me fazer olhar?

Aline assentiu, com os olhos marejados.

— Eu nunca quis enganar. Só... precisava sentir que podia ser alguém que chamasse sua atenção.

Paulo passou a mão pelos cabelos, tentando ordenar os pensamentos.

— Você me colocou em um labirinto, Aline.

— Eu sei. E me perdi nele também.

O silêncio voltou, denso e cheio de tudo que não cabia em palavras.

Lá fora, a chuva continuava caindo, e o som era como um fundo para o que restava entre eles.

Finalmente, ele respirou fundo.

— Eu deveria estar bravo. Mas não consigo.

— Por quê?

— Porque, no fim, não sei mais qual delas me encantou.

Aline o olhou, surpresa.

Ele continuou:

— A mulher inteligente, dedicada, leal... ou a mulher livre, misteriosa, que diz o que sente sem medo.

Fez uma pausa.

— Talvez ambas sejam a mesma pessoa, e eu é que demorei demais pra perceber.

As lágrimas dela escaparam, silenciosas.

— E agora?

— Agora — disse ele, com um meio sorriso triste — acho que temos duas verdades inconvenientes.

— Quais?

— Você me enganou… e eu não consigo te culpar.

---

Aline saiu da sala com o coração em pedaços e, ao mesmo tempo, mais leve do que nunca.

O segredo havia sido revelado.

E, por mais que o medo ainda a cercasse, uma parte dela sentia que, pela primeira vez, Paulo realmente a via — inteira.

Mas o futur

o ainda era incerto.

Porque, embora o amor tivesse finalmente mostrado o rosto, o mundo em volta deles — as regras, os julgamentos, as aparências — não perdoava facilmente. E o que viria a seguir poderia mudar tudo.

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