ATRAÇÃO IRRESISTÍVEL

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Capítulo 4 MOVIMENTOS

O relógio marcava quase nove da noite quando Paulo entrou no La Ruelle.

Não era seu tipo de lugar — elegante demais para um homem que preferia o silêncio do próprio apartamento. Mas Lucas insistira em arrastá-lo até ali, dizendo que ele “precisava aprender a relaxar sem uma planilha na mão”.

Paulo fora por pura diplomacia.

O salão estava cheio de luzes amareladas, música suave e murmúrios de conversas discretas.

Ele pediu um vinho tinto, soltou a gravata e deixou-se levar pelo ambiente.

Foi então que a viu.

Sentada sozinha no bar, uma mulher de vestido vermelho.

Não era a cor o que o prendeu, nem o cabelo solto em ondas castanhas que roçavam os ombros.

Foi o olhar.

Um olhar seguro, curioso, quase desafiador — o tipo de olhar que ele não via há muito tempo.

Ela virou o rosto ligeiramente, e por um instante, ele sentiu algo familiar sem conseguir definir o quê.

Aquela mulher não parecia estranha, e ainda assim... parecia vir de outro mundo.

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Aline sentiu o coração acelerar quando percebeu quem acabara de entrar.

Paulo Bianchi.

O homem que ela via todos os dias, mas que nunca realmente a olhara.

E agora estava ali, tão perto, que o ar ao redor parecia rarefeito.

Ela manteve o disfarce — o batom vermelho, o perfume de jasmim, o sorriso treinado por Beatriz.

Mas por dentro, Aline era um turbilhão.

— Posso me sentar? — ele perguntou, com um sorriso discreto.

Ela sustentou o olhar, como faria Nina, não Aline.

— Só se prometer não me fazer perguntas de negócios — respondeu, erguendo a taça. — Hoje não trabalho.

Paulo riu, intrigado.

— Prometo. Então... o que você faz quando não está trabalhando?

Ela girou o vinho na taça.

— Eu imagino. Histórias, pessoas, finais que nunca acontecem. — Fez uma pausa, olhando-o diretamente. — E você? O que faz quando não está sendo o homem mais sério de São Paulo?

Ele arqueou a sobrancelha, surpreso com a ousadia.

— Tento lembrar quem eu era antes de ter tantas responsabilidades — admitiu, depois de um breve silêncio. — Mas a verdade é que nem sei mais.

— Isso soa solitário.

— É — ele respondeu sem hesitar. — E você? Também parece alguém que se esconde de vez em quando.

Aline desviou o olhar, sentindo o impacto das palavras.

Ele não fazia ideia do quanto estava certo.

— Às vezes, esconder é a única forma de continuar — disse ela, suavemente. — Nem sempre o mundo aceita todas as versões da gente.

Paulo ficou em silêncio por um instante, estudando o rosto dela.

Algo nos gestos, na maneira de falar... havia uma delicadeza que contrastava com a confiança aparente.

Uma contradição que o fascinava.

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A conversa fluiu sem esforço.

Falaram sobre viagens, música, infância.

Ele contou que gostava de caminhar de madrugada quando o sono não vinha; ela disse que escrevia coisas que nunca mostrava a ninguém.

— Poemas? — ele perguntou.

— Talvez — respondeu com um sorriso misterioso. — Ou só tentativas de entender o que sinto.

Paulo observava os detalhes: o jeito como ela tocava a borda da taça, a risada contida, o brilho nos olhos.

Nada nela parecia forçado. E ainda assim, havia uma aura de segredo, como se cada palavra escondesse uma história inteira.

O tempo passou rápido demais. Quando perceberam, o bar já esvaziava.

Paulo olhou o relógio, surpreso.

— Já é quase meia-noite.

— A culpa é sua — disse ela, brincando. — Conversar com você é perigoso. A gente esquece das horas.

— E o perigo te assusta?

— Me fascina — respondeu, sem hesitar.

Ele ficou em silêncio por um momento, estudando-a mais uma vez.

— Não sei o que é em você, mas... tenho a sensação de que já te conheço.

A frase caiu no ar como uma faísca.

O coração de Aline disparou, mas o rosto permaneceu sereno.

— Talvez em outra vida — disse, sorrindo com os lábios, mas não com os olhos.

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Do lado de fora, a noite estava morna.

O vento brincava com os fios de cabelo soltos, e as luzes da cidade piscavam em reflexos dourados sobre os carros.

Paulo se ofereceu para acompanhá-la até o carro. Ela aceitou.

Caminharam lado a lado, em silêncio.

Aline sentia cada batida do coração ecoar no peito, uma mistura de medo e desejo.

Sabia que estava brincando com fogo. Que um passo em falso poderia destruir tudo.

Mas, pela primeira vez em anos, sentia-se viva.

Ao chegarem ao carro, Paulo hesitou.

— Posso te ver de novo?

Ela o olhou, avaliando a resposta.

Se dissesse sim, abria uma porta da qual talvez não pudesse sair.

Se dissesse não, perderia a chance de viver algo que o destino parecia insistir em colocar à sua frente.

— Talvez — respondeu, finalmente. — Se o acaso permitir.

Ele sorriu, um sorriso pequeno, mas sincero.

— Espero que ele permita.

Ela entrou no carro, e antes de fechar a porta, acrescentou:

— Boa noite, Paulo.

Ele franziu o cenho, surpreso.

— Eu te disse meu nome?

— Não — respondeu, com um sorriso quase travesso. — Mas eu leio jornais.

E partiu, deixando-o parado na calçada, com o eco de seu perfume no ar e uma dúvida queimando dentro dele.

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Aline dirigiu pelas ruas vazias, as mãos tremendo levemente no volante.

O coração ainda batia acelerado.

Ela havia passado a noite conversando com o homem que sempre admirara — e ele não fazia ideia de quem ela realmente era.

No espelho retrovisor, viu o reflexo da mulher que se tornara.

Lábios vermelhos, olhos brilhando, um sorriso que misturava medo e euforia.

Aline Méndez estava desaparecendo.

E Nina Alves ganhava força.

Ao chegar em casa, tirou os saltos, encostou-se na parede e deixou escapar uma risada nervosa.

— O que eu estou fazendo? — sussurrou, mais para si mesma do que para o vazio.

Mas, no fundo, ela sabia a resposta: estava cansada de ser invisível.

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Paulo, por sua vez, não conseguiu dormir.

Deitado, encarava o teto escuro do quarto, revivendo cada palavra, cada sorriso, cada olhar daquela mulher misteriosa.

Nina.

Era esse o nome que ela havia dado ao garçom ao pagar a conta. Ele lembrava perfeitamente.

Nina Alves.

Ele repetiu o nome em pensamento, tentando ligá-lo a algo conhecido, mas nada vinha.

Ainda assim, sentia como se já a conhecesse — não de uma vida passada, mas de algum lugar dentro dele que nunca ousara explorar.

Havia algo nos olhos dela… um brilho que lembrava ternura, mas escondia algo mais profundo.

Um segredo.

Quando finalmente adormeceu, o relógio marcava três da manhã.

E, pela primeira vez em muito tempo, Paulo Bianchi teve uma noite em claro não por causa dos negócios — mas por causa de uma mulher.

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No dia seguinte, Aline chegou cedo ao escritório.

O mesmo coque, o mesmo terno cinza, os mesmos óculos.

Mas dentro dela, algo havia mudado.

Enquanto digitava, sentia o eco da noite anterior pulsando em cada gesto.

Quando Paulo entrou, o ar pareceu mudar de novo — só que, dessa vez, foi diferente.

Ele olhou para ela por um segundo a mais do que o habitual, franzindo o cenho, como se tentasse decifrar algo.

Aline manteve a compostura, o rosto sereno, o tom de voz profissional.

— Bom dia, senhor Bianchi.

— Bom dia, senhorita Méndez — respondeu ele, distraído.

Mas, quando passou por ela, uma leve confusão cruzou seus olhos.

O perfume.

Aquele perfume… o mesmo que ele sentira na noite anterior.

Ele hesitou, virou-se ligeiramente, mas Aline já voltava ao computador, impenetrável, envolta em sua máscara perfeita.

Paulo seguiu até sua sala, sem perceber que, pela primeira vez em anos, sorria sem saber o motivo.

E Aline, sozinha, permitiu-se um pequeno sorriso vitorioso.

Nina ainda estava ali — escondida atrás dos óculos, pronta para o próximo movimento.

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