Capítulo 6 Não Envolva a Garota
Ethan odiava a maneira como o nome Olivia Monroe parecia capaz de transformar qualquer conversa em alguma coisa perigosa.
O silêncio do apartamento mudou imediatamente depois da ligação.
Hazel percebeu.
Claro que percebeu.
Ela observava tudo com atenção demais, como alguém acostumada a procurar rachaduras nas pessoas antes que elas desmoronassem completamente.
E aquilo era um problema.
Porque Ethan passara anos aperfeiçoando a arte de esconder as próprias.
— O que meu pai disse não significa nada — falou enquanto bloqueava o celular e o colocava sobre a bancada.
Mentira.
Os dois sabiam disso.
Hazel permaneceu parada perto da janela, ainda segurando a fotografia antiga entre os dedos.
— Parecia significar alguma coisa.
A cidade brilhava atrás dela, iluminando parcialmente o rosto cansado que tentava fingir calma melhor do que realmente conseguia. O voo longo, o choque de chegar em Nova York, as descobertas daquela noite, tudo começava a pesar visivelmente sobre seus ombros.
Mesmo assim, ela continuava ali.
Não correndo.
Não surtando.
Aquilo impressionava Ethan mais do que deveria.
Ele passou a mão pela nuca lentamente antes de responder:
— Meu pai disse que alguém esteve procurando informações sobre sua mãe esta semana.
Hazel franziu a testa imediatamente.
— Quem?
— Ele não sabe.
— Isso não é exatamente reconfortante.
Não.
Definitivamente não era.
Ethan caminhou devagar até o bar embutido próximo à sala e serviu outra dose de uísque para si mesmo, ignorando o fato de que provavelmente já tinha bebido o suficiente naquela noite.
Ou talvez justamente por isso.
Hazel observou o movimento em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:
— Você acha que minha mãe estava envolvida em alguma coisa ilegal?
Ele soltou um riso baixo.
Cansado.
— Na minha família? As possibilidades são infinitas.
Ela não sorriu dessa vez.
Ethan percebeu tarde demais que talvez humor ácido não fosse exatamente o que alguém precisava ouvir depois de descobrir que a mãe morta tinha um passado secreto ligado a bilionários emocionalmente destruídos.
Hazel desviou o olhar para as luzes da cidade outra vez.
— Eu nem conhecia essa versão dela.
A frase saiu tão baixa que quase pareceu involuntária.
Ethan sentiu algo estranho apertar levemente dentro do peito.
Porque entendia aquilo.
Mais do que gostaria.
A pior parte de perder alguém era descobrir quantas coisas nunca seriam perguntadas.
Quantas respostas morriam junto.
Ele observou Hazel em silêncio por alguns segundos.
Ela parecia pequena diante das janelas enormes de Manhattan. Pequena e completamente fora do lugar naquele apartamento luxuoso, usando um casaco amarrotado de viagem e segurando segredos que claramente não estava preparada para carregar.
Mesmo assim, havia alguma coisa firme nela.
Algo que permanecia.
— Você devia descansar — disse ele por fim. — Está tarde.
Hazel soltou uma respiração lenta, como se finalmente lembrasse do próprio cansaço.
— Certo.
Mas ela não se moveu imediatamente.
Continuou olhando a cidade.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Já perguntou várias.
Ela ignorou o comentário.
— Você odeia seu pai?
A pergunta pegou Ethan desprevenido.
Perigosamente desprevenido.
Ele tomou um gole do uísque antes de responder:
— Acho que existe um ponto em que o cansaço substitui o ódio.
Hazel permaneceu quieta.
Então virou o rosto lentamente para ele.
Ethan se arrependeu da honestidade no mesmo instante.
Porque pessoas não deviam vê-lo daquele jeito.
Sem armadura.
Sem controle.
Mas os olhos dela suavizaram quase imperceptivelmente.
Como se reconhecesse aquela exaustão.
— Minha mãe costumava dizer que pessoas cansadas se tornam frias porque é mais fácil do que admitir que estão machucadas.
Ethan sustentou o olhar dela por um segundo longo demais.
O apartamento inteiro pareceu silencioso de novo.
Perigoso de novo.
Então ele desviou primeiro.
— Sua mãe claramente gostava de frases dramáticas.
Hazel finalmente sorriu.
Pequeno.
Verdadeiro dessa vez.
E aquilo fez alguma coisa desconfortável acontecer dentro dele.
Droga.
Ethan virou-se imediatamente e caminhou até o corredor.
— O quarto de hóspedes é a segunda porta à direita.
Ela o acompanhou em silêncio.
O apartamento parecia diferente agora — menor, mais íntimo, carregado por perguntas que nenhum dos dois sabia responder ainda.
Quando chegaram ao corredor, Ethan abriu a porta do quarto.
Hazel entrou devagar.
Os olhos dela percorreram o ambiente com certa hesitação: cama grande demais para uma pessoa, iluminação baixa, janelas enormes revelando a cidade ao fundo.
— Isso aqui é maior que minha casa inteira.
— Manhattan tem problemas de humildade.
Ela soltou uma risada fraca pelo nariz.
Bonita.
Muito bonita.
Ethan percebeu novamente antes de conseguir impedir.
Hazel colocou a mala perto da cama e permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir alguma coisa.
Então perguntou:
— Por que você está me ajudando?
A pergunta o atingiu de maneira inesperada.
Porque ele não sabia responder.
Talvez estivesse ajudando porque a história da mãe dela envolvia seu pai.
Talvez porque queria entender o que Arthur Calloway escondera todos aqueles anos.
Ou talvez porque reconhecia nela a mesma solidão silenciosa que carregava havia tempo demais.
Nenhuma dessas respostas parecia segura.
Então Ethan escolheu a mais simples:
— Porque você atravessou o país inteiro sozinha e acabou presa num apartamento comigo. Ser minimamente educado parece razoável.
Hazel cruzou os braços.
— Você definitivamente não é minimamente educado.
Ele quase sorriu outra vez.
Quase.
— Boa noite, Hazel.
Ela observou-o por mais alguns segundos antes de responder baixinho:
— Boa noite, Ethan.
Ele fechou a porta do quarto e voltou lentamente para a sala.
Mas não conseguiu relaxar.
Algo naquela história estava errado.
Muito errado.
Arthur Calloway raramente demonstrava nervosismo.
Mas demonstrara naquela ligação.
E isso significava perigo.
Ethan pegou novamente a fotografia esquecida sobre a bancada e a observou em silêncio.
Seu pai parecia mais jovem na imagem.
Mais leve.
Ao lado dele, Olivia Monroe sorria para a câmera como alguém genuinamente feliz.
Aquilo incomodava Ethan mais do que deveria.
Porque ele nunca tinha visto Arthur Calloway olhar para ninguém daquele jeito.
Nunca.
O celular vibrou outra vez.
Uma mensagem do pai.
Precisamos conversar. Não envolva a garota nisso.
Ethan releu a frase lentamente.
Depois outra vez.
Não envolva a garota nisso.
Tarde demais para isso.
Muito tarde.
Porque naquele momento, do outro lado da parede, Hazel Monroe já fazia parte daquela história.
E, pior, talvez sempre tivesse feito.
