Capítulo 5 O Homem na Fotografia
Hazel percebeu a mudança no rosto de Ethan antes mesmo de entender o motivo dela.
Foi sutil.
Rápida.
Mas aconteceu.
Os ombros dele enrijeceram quase imediatamente, os olhos escuros presos na fotografia como se alguém tivesse arrancado o chão sob seus pés, e por um instante o homem controlado, frio e impecavelmente calmo que abrira a porta daquele apartamento simplesmente desapareceu.
Aquilo fez um arrepio subir lentamente pela espinha dela.
— O que foi? — perguntou outra vez, agora mais baixo.
Ethan não respondeu imediatamente.
Continuou olhando a fotografia antiga em silêncio, o maxilar travado de um jeito que denunciava tensão demais para alguém que aparentemente passava a vida inteira tentando escondê-la.
Hazel sentiu o estômago apertar.
Porque, pela primeira vez desde que encontrara a carta da mãe, aquilo começou a parecer real.
Real demais.
— Ethan.
Ele finalmente ergueu os olhos para ela.
E havia algo estranho ali.
Algo entre incredulidade e irritação.
Talvez até medo.
— Onde você conseguiu isso?
A pergunta veio seca.
Direta.
Hazel franziu levemente a testa.
— Eu já disse. Era da minha mãe.
— Quem era sua mãe?
Ela hesitou por uma fração de segundo.
Não porque a pergunta fosse difícil.
Mas porque o tom dele era.
Como se já soubesse que não gostaria da resposta.
— Olivia Monroe.
Silêncio.
O nome atingiu Ethan de maneira visível.
Hazel percebeu imediatamente.
Ele passou a mão lentamente pela boca antes de desviar o olhar para as janelas do apartamento, respirando fundo uma vez.
Depois outra.
Como alguém tentando reorganizar os próprios pensamentos rápido o suficiente para não demonstrar nada.
Aquilo assustou Hazel mais do que deveria.
— Você conhece minha mãe.
Não foi uma pergunta.
Ethan demorou alguns segundos antes de responder:
— Não exatamente.
— Então por que você está agindo assim?
Ele soltou um riso baixo, sem humor algum.
— Porque o homem dessa foto é meu pai.
O mundo pareceu inclinar levemente sob os pés dela.
Hazel piscou uma vez.
Depois outra.
Como se o cérebro estivesse demorando para alcançar a informação.
— O quê?
Ethan entregou a fotografia de volta sem desviar os olhos dela.
— Arthur Calloway.
O nome não significava nada para Hazel.
Mas claramente significava tudo para ele.
Ela observou novamente a imagem antiga nas próprias mãos, tentando reconciliar a fotografia sorridente da mãe com aquele sobrenome milionário que agora parecia ecoar em todos os cantos do apartamento.
Seu coração começou a bater mais rápido.
— Isso não faz sentido.
— Concordo.
Hazel levantou os olhos rapidamente.
— Minha mãe nunca falou sobre vocês.
— Meu pai também nunca falou sobre ela.
A tensão no ambiente ficou quase sufocante.
Lá fora, Manhattan continuava brilhando indiferente, mas dentro daquele apartamento algo tinha mudado completamente entre eles.
Hazel sentiu isso.
O desconforto.
A suspeita.
A forma como Ethan agora observava cada reação dela com atenção calculada.
Como se tentasse decidir se ela era uma ameaça.
Aquilo a irritou imediatamente.
— Você acha que eu vim aqui por causa da sua família?
— Eu não sei por que você veio aqui.
— Eu também não sabia que sua família existia até literalmente cinco minutos atrás.
Ethan ficou em silêncio.
Hazel respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos.
Sua mãe.
Arthur Calloway.
Nova York.
A carta.
O endereço.
Tudo parecia começar a se conectar de maneira perigosa.
E pior: ela não tinha certeza se queria descobrir o desenho completo.
— Minha mãe odiava falar sobre Nova York — disse baixinho. — Ou pelo menos era isso que eu achava. Ela sempre mudava de assunto quando eu perguntava qualquer coisa.
Ethan apoiou a taça vazia sobre a bancada.
— Meu pai também evita falar sobre o passado.
— Talvez porque homens ricos tenham hobbies estranhos como destruir emocionalmente mulheres na década de noventa.
Aquilo escapou antes que ela pudesse evitar.
Mas Ethan não pareceu ofendido.
Pareceu cansado.
Muito cansado.
— Você não faz ideia do tipo de homem que Arthur Calloway é.
Hazel cruzou os braços.
— Pelo visto vou descobrir.
O silêncio voltou outra vez.
Ela odiava o fato de que a presença dele a deixava nervosa. Não apenas porque Ethan era intimidador de um jeito absurdo, mas porque havia alguma coisa profundamente difícil de ler nele. Algo escondido atrás daquela postura impecavelmente controlada.
Como se estivesse constantemente segurando rachaduras internas para ninguém perceber.
Hazel conhecia aquele tipo de exaustão.
Ela vivera assim durante anos.
— Então… — ela começou lentamente — você sabia que eu vinha pra cá?
Ethan franziu a testa.
— Não.
— Mas o porteiro sabia meu nome.
— Minha irmã organizou a locação do apartamento. Eu esqueci completamente disso até hoje.
Aquilo parecia genuíno.
Ela acreditou.
Infelizmente.
Porque teria sido mais fácil odiá-lo se ele parecesse um babaca completo.
Mas então Ethan fez outra pergunta:
— Sua mãe deixou mais alguma coisa?
Hazel hesitou.
Instinto.
Algo dentro dela mandou tomar cuidado.
Não porque achasse que Ethan fosse perigoso exatamente, mas porque claramente existiam segredos naquela história, e ela acabara de descobrir que estava muito mais perto deles do que imaginava.
Pensou na carta.
Na chave.
Nas fotografias.
Pensou também nas lembranças pequenas que vinham surgindo desde aquela manhã: a gaveta que rangia, os envelopes sem remetente, a voz da mãe ao telefone tarde da noite.
Coisas que, até então, tinham parecido detalhes sem importância.
Agora pareciam portas.
— Algumas cartas — respondeu, escolhendo as palavras. — Fotografias. Um endereço.
— Qual endereço?
Ela pegou o papel dobrado dentro do envelope e entregou para ele.
Ethan leu.
Então ficou imóvel outra vez.
Droga.
Hazel percebeu imediatamente.
— O que foi agora?
Ele ergueu os olhos devagar.
— Esse endereço pertenceu ao meu pai.
O ar pareceu desaparecer da sala pela segunda vez naquela noite.
Hazel sentiu uma vertigem leve.
— Não.
— Sim.
— Mas você disse que sua irmã organizou a locação.
— O imóvel ficou anos ligado à família. Depois passou por administradores, fundos, nomes que provavelmente existem só para advogados fingirem que entendem. Mas, originalmente, era dele.
Ela começou a andar lentamente pela sala, tentando pensar.
Tudo parecia embaralhado demais.
Sua mãe tinha um relacionamento com Arthur Calloway?
Um caso?
Um segredo?
E por que esconder aquilo durante décadas?
Hazel passou a mão nervosamente pelos cabelos.
— Isso é loucura.
— Bem-vinda à minha semana.
Ela lançou um olhar irritado para ele.
Ethan apenas sustentou o olhar dela em silêncio.
Pela primeira vez desde que se conheceram, Hazel percebeu que existia alguma coisa quebrada nele também.
Não visível.
Mas presente.
E talvez tenha sido exatamente isso que tornou o momento seguinte perigoso.
Porque por um segundo longo demais os dois apenas se encararam no meio daquela sala silenciosa, cercados pela cidade mais barulhenta do mundo, enquanto algo estranho começava lentamente a surgir entre eles.
Reconhecimento.
Não confiança.
Ainda não.
Mas reconhecimento.
De solidão.
De cansaço.
De pessoas tentando sobreviver aos próprios fantasmas.
Então o celular de Ethan começou a tocar.
O nome na tela fez a expressão dele endurecer imediatamente.
Arthur Calloway.
Hazel observou enquanto ele encarava o telefone vibrando.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até finalmente atender.
— O que você quer?
A voz dele ficou instantaneamente fria.
Do outro lado da linha, Arthur dizia alguma coisa rápido demais para Hazel entender.
Mas ela viu a mudança no rosto de Ethan acontecer quase no mesmo instante.
Os olhos escurecendo.
A tensão aumentando.
Então ele perguntou, baixo e perigoso:
— Como assim alguém esteve perguntando sobre Olivia Monroe?
