As Mentiras Que Herdamos

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Capítulo 4 A Fotografia de Arthur

Ethan encarou a garota parada diante da porta do apartamento como se ela fosse mais um problema que Manhattan decidira despejar em sua vida sem aviso prévio.

O que, honestamente, provavelmente era exatamente o que estava acontecendo.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou nada.

Hazel ainda segurava a mala com força, o cabelo castanho levemente bagunçado pela viagem longa e os olhos claros arregalados numa mistura de cansaço, desconfiança e irritação crescente. Ela parecia completamente deslocada naquele corredor silencioso da Madison Avenue, como alguém que tinha entrado na história errada por acidente.

Ethan percebeu isso imediatamente.

As roupas simples.

A maneira como observava tudo ao redor.

O desconforto evidente diante do luxo do prédio.

Ela não pertencia ali.

Então por que diabos estava ali?

— Um segundo — ele disse finalmente, passando a mão pelo rosto cansado. — Acho que houve algum erro.

Hazel cruzou os braços quase instantaneamente.

— Espero que sim, porque eu atravessei o país inteiro e adoraria descobrir agora que não estou sendo sequestrada.

Apesar do próprio esgotamento, Ethan quase sorriu.

Quase.

— Você sempre acusa estranhos de crimes federais nos primeiros trinta segundos de conversa?

— Só os muito ricos.

Aquilo definitivamente arrancaria uma reação dele em qualquer outro momento.

Mas Ethan estava cansado demais para humor.

Ele deu um passo para o lado, permitindo que ela entrasse.

— Entra antes que o porteiro comece a pensar que estou expulsando mulheres de casa no meio da noite.

Hazel hesitou.

Aquilo chamou atenção dele.

Porque pessoas acostumadas a Nova York simplesmente entrariam. Mas ela analisou rapidamente o apartamento, depois ele, depois a distância até o elevador, como alguém calculando riscos.

Inteligente.

Ou assustada.

Talvez os dois.

— Se isso virar um documentário criminal, saiba que minha tia vai suspeitar imediatamente de você — disse ela antes de entrar.

Ethan fechou a porta atrás dela.

O apartamento mergulhou em silêncio outra vez.

Hazel parou no meio da sala.

E ficou completamente imóvel.

Ele já estava acostumado com a reação das pessoas ao ver aquele lugar pela primeira vez: janelas enormes revelando Manhattan iluminada lá fora, móveis minimalistas absurdamente caros, cozinha integrada em mármore escuro, pé-direito alto, obras de arte modernas demais para fazer sentido.

Mas no rosto dela não havia admiração.

Havia estranhamento.

Como se aquele lugar confirmasse que alguma coisa na história não estava certa.

Ela se virou lentamente para ele.

— Você mora aqui sozinho?

— Sim.

— E alugou um quarto para uma desconhecida da Califórnia?

— Tecnicamente eu não aluguei nada. Minha irmã fez isso sem me consultar.

Hazel piscou.

— Isso parece saudável.

— Não é.

Pela primeira vez desde que ela chegara, algo parecido com um sorriso atravessou rapidamente o rosto dela.

Pequeno.

Cansado.

Bonito.

Ethan percebeu antes mesmo de querer perceber.

Irritante.

Ele desviou o olhar imediatamente e caminhou até a cozinha.

— Quer água?

— Você tem vinho?

Ele lançou um olhar curto por cima do ombro.

Hazel deu de ombros.

— Estou tentando processar o fato de que aparentemente vou morar com um bilionário desconhecido em Manhattan. Acho que álcool é razoável.

Bilionário.

Ele odiava essa palavra.

Principalmente porque as pessoas sempre presumiam que ela explicava tudo sobre alguém.

— Não sou bilionário — respondeu automaticamente.

Hazel arqueou uma sobrancelha enquanto observava o apartamento gigantesco.

— Ah, claro. E eu sou herdeira da família real britânica.

Ethan ignorou o comentário e abriu uma garrafa de vinho que provavelmente custava mais do que ela imaginava.

Não por ostentação.

Era simplesmente o primeiro que encontrou.

Ele entregou uma taça para ela.

Hazel segurou o vidro delicadamente, observando a cidade através das enormes janelas.

— Isso aqui é ridículo — murmurou.

— O apartamento?

— Nova York.

Ela parecia genuinamente impactada.

Ethan encostou-se na bancada da cozinha, observando-a discretamente pela primeira vez de verdade.

Hazel Monroe não parecia alguém feito para aquela cidade.

Havia suavidade demais nela.

Não ingenuidade exatamente.

Mas algo quase intacto.

Nova York destruía pessoas assim.

— Primeira vez aqui? — perguntou.

Ela assentiu devagar.

— Primeira vez saindo da Califórnia, na verdade.

Aquilo o surpreendeu.

— Sério?

— Minha vida não é tão glamourosa quanto a sua.

Ethan soltou um suspiro baixo.

— Você não faz ideia de como minha vida realmente é.

O silêncio caiu entre eles logo depois.

Hazel abaixou os olhos para a taça nas mãos.

— Desculpa. Eu só… estou cansada.

Ele entendia aquilo.

Mais do que gostaria.

O relógio na parede marcava quase meia-noite.

A cidade brilhava lá fora como se fosse impossível dormir naquele lugar.

Hazel caminhou lentamente até uma das janelas enormes da sala e observou Manhattan em silêncio por vários segundos.

Então perguntou baixinho:

— Você já se acostuma com isso?

— Com o quê?

— Com a sensação de que a cidade está viva o tempo inteiro.

Ethan acompanhou o olhar dela para as ruas iluminadas dezenas de andares abaixo.

Táxis.

Sirene distante.

Luzes infinitas.

Movimento constante.

Solidão compartilhada entre milhões de pessoas.

— Não — respondeu honestamente. — Você só aprende a sobreviver nela.

Hazel ficou quieta.

Algo na expressão dela mudou levemente ao ouvir aquilo.

Como se entendesse exatamente o que ele queria dizer.

Ethan percebeu então o envelope parcialmente amassado saindo da mochila dela.

O mesmo envelope antigo que ela segurava no corredor.

— O que veio fazer em Nova York, Hazel?

Ela demorou um pouco para responder.

Quando virou o rosto na direção dele outra vez, havia vulnerabilidade ali.

Crua.

Perigosa.

— Minha mãe morreu há três semanas — disse baixinho. — E antes disso eu achava que sabia tudo sobre ela.

O apartamento inteiro pareceu silenciar ainda mais.

Ethan não respondeu.

Nunca soubera lidar com dor alheia.

Na verdade, mal sabia lidar com a própria.

Hazel respirou fundo antes de continuar:

— Ela deixou uma carta. Um endereço. Fotografias daqui. Acho que… acho que ela escondeu uma parte inteira da vida dela em Nova York.

A palavra escondeu não soou exagerada.

Soou exata.

Ela puxou lentamente a fotografia antiga da mochila e a observou por um instante antes de entregar para ele.

Ethan pegou a imagem distraidamente.

Mas então congelou.

Seu olhar escureceu imediatamente.

Porque reconheceu o homem ao lado da mãe dela no segundo em que viu o rosto.

O ar pareceu desaparecer da sala.

Hazel percebeu a mudança instantaneamente.

— O quê?

Ethan continuou olhando a fotografia.

Inacreditável.

Impossível.

Seu coração bateu mais forte pela primeira vez em semanas.

Porque o homem sorrindo ao lado da mãe de Hazel era alguém que ele conhecia muito bem.

Muito bem.

Arthur Calloway.

Seu pai.

E, de repente, a noite inteira deixou de parecer um erro de locação.

Passou a parecer uma porta antiga rangendo em algum lugar do passado.

Uma porta que talvez ninguém naquela sala estivesse pronto para abrir.

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