As Mentiras Que Herdamos

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Capítulo 3 A Cidade Que Lembrava

Hazel nunca tinha estado em um aeroporto grande o suficiente para fazê-la se sentir pequena.

Mas o de San Francisco conseguiu.

Talvez porque tudo ali parecesse se mover rápido demais — pessoas atravessando corredores com malas elegantes, vozes ecoando pelos alto-falantes, crianças chorando, executivos digitando freneticamente nos celulares — enquanto ela permanecia parada no meio daquilo tudo segurando uma única mala azul-marinho e questionando silenciosamente se tinha acabado de cometer o maior erro da própria vida.

O painel anunciava o embarque para New York City em vinte minutos.

Ainda dava tempo de desistir.

A ideia ficou rondando sua cabeça desde o instante em que fechara a porta da casa em Crescent naquela manhã. Ela podia simplesmente voltar. Recuperar o dinheiro da passagem. Fingir que nunca encontrou a carta da mãe. Fingir que aquela fotografia não existia. Fingir que a chave prateada não parecia pesar mais do que qualquer objeto deveria pesar.

Voltar para a livraria.

Voltar para a rotina.

Voltar para a vida pequena e silenciosa que conhecia tão bem.

Hazel apertou os dedos em volta da alça da mala.

A verdade era que aquilo deveria confortá-la.

Mas não confortava.

Porque depois de encontrar aquela fotografia, depois de ver o sorriso da mãe diante das ruas iluminadas de Manhattan, algo dentro dela tinha mudado de lugar.

Como se passasse a vida inteira respirando superficialmente e, de repente, alguém abrisse uma janela.

Ela caminhou lentamente até uma das enormes janelas do terminal e observou os aviões pousando sob o céu cinza-claro da Califórnia.

Oceano de um lado.

Mundo inteiro do outro.

Por um instante, o cheiro de sal vindo de algum lugar impossível atravessou sua memória.

Não o sal de Crescent.

Outro.

Mais frio.

Mais feroz.

Um vento forte.

Uma porta velha rangendo.

A mão da mãe segurando a sua.

Hazel piscou.

A lembrança desapareceu.

Seu celular vibrou no bolso.

Tia Margaret.

Hazel encarou a tela por alguns segundos antes de atender.

— Você ainda pode voltar para casa — foi a primeira coisa que ouviu.

Ela soltou um pequeno riso cansado.

Claro que podia.

Todo mundo sempre podia voltar.

Esse era o problema.

— Bom dia pra você também.

— Hazel, eu estou falando sério.

A voz da tia soava preocupada demais.

Como se Nova York fosse uma guerra.

Talvez fosse.

— Sua mãe nunca gostou daquela cidade.

Hazel ficou em silêncio por um instante, observando uma criança correr pelo corredor do aeroporto.

— Acho que talvez ela tenha gostado até demais.

A tia demorou alguns segundos para responder.

Aquilo chamou atenção dela imediatamente.

— O que isso quer dizer?

— Nada.

Mentira.

Hazel percebeu pela primeira vez que existiam partes da vida da mãe que ninguém jamais lhe contara.

E talvez ninguém quisesse contar.

— Escuta — disse Margaret mais suavemente —, eu sei que você acha que precisa fazer isso agora porque está sofrendo, mas pessoas tomam decisões impulsivas quando estão de luto.

Hazel encostou lentamente a cabeça no vidro da janela.

Ela entendia a preocupação.

Entendia mesmo.

Mas ninguém parecia compreender uma coisa importante: aquela viagem não era sobre impulso.

Era sobre sufocamento.

Ela estava sufocando em Crescent.

Na casa.

Nas lembranças.

Na vida que nunca mudava.

— Eu só preciso ir — respondeu baixinho.

Do outro lado da linha, a tia suspirou.

— Você é igual à sua mãe.

A frase ficou suspensa entre elas.

Pesada.

Perigosa.

Hazel franziu levemente a testa.

— Você fala isso como se fosse algo ruim.

Margaret não respondeu imediatamente.

E aquilo bastou.

— Só toma cuidado em Nova York — disse por fim. — Aquela cidade faz as pessoas esquecerem quem são.

— Ou lembrarem — Hazel respondeu antes de conseguir impedir.

O silêncio da tia veio longo demais.

— Hazel...

— Eu preciso embarcar.

— Sua mãe não deixou aquele endereço por acaso.

Hazel ficou imóvel.

— Você sabe alguma coisa?

Margaret respirou do outro lado da linha.

— Sei que Olivia passou a vida tentando proteger você de coisas que nunca explicou direito para ninguém.

— Isso não é resposta.

— Não.

A voz da tia ficou mais baixa.

— Mas é a única que posso te dar.

Hazel encerrou a ligação poucos minutos depois, mas as palavras continuaram ecoando na cabeça dela enquanto caminhava lentamente até o portão de embarque.

Aquela cidade faz as pessoas esquecerem quem são.

Talvez.

Ou talvez algumas pessoas fossem para Nova York justamente para descobrir.

O voo parecia longo demais.

Hazel tentou dormir duas vezes e falhou nas duas. Tentou ler um livro e percebeu que estava encarando a mesma página havia vinte minutos. Tentou ouvir música, mas os próprios pensamentos eram barulhentos demais.

Então acabou observando as nuvens pela janela enquanto o país inteiro desaparecia sob ela aos poucos.

Califórnia.

Nevada.

Colorado.

Estados que ela jamais visitara.

Vidas que jamais vivera.

Aquilo era estranho.

Pensar que o mundo continuava enorme enquanto sua vida permanecera tão pequena por tanto tempo.

Quando o avião finalmente começou a descer horas depois, já era noite.

E então ela viu Nova York.

As luzes.

Meu Deus.

Hazel prendeu involuntariamente a respiração ao observar Manhattan surgir pela janela como uma galáxia dourada espalhada sobre a escuridão.

Era absurda.

Grande demais.

Viva demais.

Nada em Crescent a preparara para aquilo.

O coração dela disparou lentamente.

Medo.

Excitação.

Arrependimento.

Tudo misturado.

Quando desembarcou no aeroporto, a primeira coisa que percebeu foi o ritmo das pessoas. Ninguém andava; todos pareciam correr. Vozes ecoavam por todos os lados, malas batiam contra o chão, táxis amarelos passavam em velocidade do lado de fora enquanto sirenes cortavam o ar distante.

Nova York parecia não dormir nem por um segundo.

Hazel puxou o casaco contra o corpo ao sair do terminal.

O frio atingiu seu rosto imediatamente.

Ela soltou uma respiração trêmula.

Então pegou o celular e abriu novamente o endereço deixado pela mãe.

Madison Avenue.

Manhattan.

Seu estômago revirou levemente.

Ela chamou um táxi.

Durante o trajeto, ficou observando a cidade pela janela como alguém tentando entender um idioma novo. Telas gigantes iluminando ruas inteiras, pessoas elegantes atravessando avenidas, bares lotados mesmo tarde da noite, fumaça subindo pelos bueiros.

Tudo parecia cinematográfico.

E solitário ao mesmo tempo.

O motorista falava alguma coisa sobre trânsito, mas Hazel mal escutava.

Porque então o táxi virou uma esquina.

E ela viu o prédio.

Alto.

Luxuoso.

Muito mais sofisticado do que esperava.

Hazel franziu a testa.

Definitivamente aquilo não parecia pertencer à vida da mãe.

Mas talvez esse fosse o ponto.

Talvez muita coisa na vida de Olivia Monroe não combinasse com a versão que Hazel conhecera.

Ela pagou o motorista e desceu lentamente do carro, segurando a mala enquanto observava a entrada iluminada do edifício.

Talvez houvesse algum engano.

Talvez o endereço estivesse errado.

Mas antes que pudesse pensar demais, o porteiro abriu a porta para ela.

— Senhorita Monroe?

Hazel piscou surpresa.

— Sim…

— Estávamos esperando você.

O coração dela acelerou.

Esperando?

Ela entrou lentamente no prédio tentando ignorar o fato de que tudo ali cheirava a dinheiro — mármore impecável, lustres enormes, silêncio elegante.

O elevador parecia caro demais até para respirar dentro.

Quando finalmente chegou ao andar indicado, Hazel sentiu o nervosismo apertar seu peito de verdade pela primeira vez.

Ela ajustou a mochila no ombro.

Respirou fundo.

E bateu na porta.

Segundos depois, passos ecoaram do outro lado.

A fechadura girou.

Ethan Calloway abriu a porta ainda afrouxando a gravata, claramente irritado por estar sendo interrompido.

Os dois ficaram imóveis por um segundo.

Hazel piscou.

Porque o homem diante dela era absurdamente bonito de um jeito quase ofensivo — alto, ombros largos, cabelo escuro levemente bagunçado, expressão cansada e olhos frios que pareciam analisar tudo rápido demais.

Mas o que realmente chamou atenção dela foi a expressão dele mudando lentamente de irritação para completa confusão.

— Quem é você? — Ethan perguntou.

Hazel franziu a testa imediatamente.

— Hazel Monroe.

Silêncio.

Então ele olhou para a mala.

Depois para ela outra vez.

E soltou, incrédulo:

— Você está morando aqui?

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