Capítulo 6 6
“Merda”, eu resmungo, evitando o rosto do Aleks com todas as forças antes de me levantar e atender a ligação. Puxo o suéter para baixo para me cobrir, como se ela pudesse me ver. “Oi, mãe.”
“Oi, querida! A Mia me disse que seu voo atrasou. Que horror!”
“Oi, é… pois é”, eu gaguejo. Eu sinto o olhar do Aleks queimando na nuca, mas faço questão de ignorar. “Um horror.”
Ela estala a língua. “Você vai voltar pra casa?”
“Não, demora demais pra ir e voltar. Vou ficar por aqui mesmo.”
E fazer coisas bem indecentes com um desconhecido lindo numa sala VIP.
“Ah, não. Que tédio”, ela suspira.
Eu olho de canto para o Aleks. Ele está sentado no sofá com os braços esticados sobre o encosto, totalmente à vontade. Nem se deu ao trabalho de abotoar a camisa. A ereção dele está escancarada, mas, pelo jeito calmo e controlado com que ele fica ali, ninguém diria.
“… Querida?”
“Desculpa, mãe”, eu digo rápido. “Eu vou me manter… ocupada. Te vejo amanhã.”
“Amanhã?!” ela pergunta, alarmada.
“Ah, não, é… hoje. Eu quis dizer hoje”, eu digo, me sentindo completamente atrapalhada. “Hoje.”
“Você tem certeza de que tá tudo bem, meu bem? Você tá tão nervosa.”
“Claro, mãe. É só que… é que, hã… tá cheio. Tô na fila pra pegar um bolo”, eu digo, avistando a bandeja com fatias de bolo e macarons na mesa, que a gente ignorou completamente.
“Ah, que delícia. Um docinho. Que bom que você tá aproveitando, querida.”
“Tô tentando. Te vejo já já, tá?”
“Tá. Boa viagem. Te amo.”
“Também te amo.” Eu desligo.
Minha pele, que estava quente, de repente fica fria, e eu arrepio. Bem na hora em que eu achei que podia ser outra pessoa por uma hora, o mundo real tinha que invadir e me lembrar quem eu sou de verdade. Cartunistas tímidas que se escondem no quarto não entram praquele clube de transar no avião. Só que a gente nem tá num avião, mas enfim, vale quase.
O olhar do Aleks continua quente e insistente. Sabendo que não dá pra adiar mais, enfio o celular no bolso e me viro para ele.
“Então eu sou o docinho?”, ele pergunta, com uma inocência estudada.
“Eu… desculpa, o quê?”
Ele sorri. É fácil — suave e convencido e tão perfeito pra caralho que me dá vontade de gritar de tão injusto alguém ter tudo. “Eu sou o ‘docinho’ que você tá na fila pra pegar?”
Eu nunca quis tanto que o chão se abrisse. Ou entrar em combustão espontânea. Também servia.
Como nenhuma dessas opções vai acontecer, eu dou uma risadinha desesperada, de vergonha alheia. “Hã… acho que eu devia lavar as mãos. Você tá certo: elas estão grudando.”
“O banheiro é bem atrás de você.”
“Obrigada.”
Eu me viro e caminho num ritmo bem calmo, bem controlado, nada histérico, direto para a porta alta bege atrás de mim.
Assim que entro, vou direto para a pia e seguro as laterais frias de porcelana. “Meu Deus do céu, Liv!”, eu sibilo para mim mesma. “Se controla, porra!”
Eu levanto os olhos para o meu reflexo no espelho. Minhas bochechas estão tão coradas que parece até que eu passei blush.
“Não é como se você fosse ver ele de novo”, eu sussurro para mim mesma no espelho. “Ele é só um desconhecido bonito querendo matar o tempo e você… bem, você é a garota que joga no seguro.”
Viver é para os corajosos. Ouço as palavras como se o meu pai estivesse bem aqui comigo, dizendo isso na minha cara.
Abro a torneira e lavo as mãos direito. Depois jogo um pouco da água fria no rosto. Quando me seco, me sinto um pouco mais calma.
“Vamos, Liv. Você consegue.”
Respiro mais uma vez e volto para a sala. Aleks ainda está sentado na mesma posição no sofá, a ereção ainda firme.
Mantenho o olhar acima da cintura, por mais difícil que seja — sem trocadilho — enquanto contorno a mesa e me sento ao lado dele no sofá. Só que eu escolho um lugar meio estranho. Longe demais, como se eu estivesse com medo de chegar perto.
Quem sabe? Talvez eu esteja.
“Desculpa por isso”, murmuro quando ele não quebra o silêncio. “Foi a minha mãe. Minha irmã contou pra ela que o voo atrasou e ela só queria saber se eu estava bem.”
“Você tem uma família unida?”
“Muito”, confirmo. “Me mudar pra Nova York foi a decisão mais difícil que eu já tomei na vida.”
Ele inclina a cabeça de lado, me encarando. É difícil manter contato visual quando tudo nesse homem está me excitando de um jeito que eu nem sabia que era possível.
“Por que você fez isso?”
“Eu… eu acho que eu estava tentando ser corajosa”, admito.
“Por que você fala isso como se não tivesse conseguido?”
Ergo as sobrancelhas. Ele é perspicaz. O que me deixa ainda mais desconfortável com o fato de eu estar sentada ao lado dele, encharcando a calcinha.
“Porque eu gastei toda a minha coragem só pra me mudar”, confesso. “Depois que cheguei aqui, eu nunca saí do meu apartamento. Fiquei em casa e me parabenizei por pelo menos estar aqui. Mas a única razão de eu ter vindo é que eu consegui um emprego. Sem isso, com certeza eu nunca teria vindo.”
Ele faz que sim com a cabeça, sem julgar, mas também sem me dar mole. “Entendi. E como a sua família lidou com a mudança?”
“Me apoiaram, claro, mas sentem minha falta. Bom, minha mãe e minha irmã sentem, pelo menos. Não sei quanto ao Rob.”
“Rob?”
“Meu irmão”, explico. “O que tem a boca suja. A gente é bem próximo, mas ele guarda os sentimentos a sete chaves. Ele é durão.” Sinto um pouco como se a minha descrição do Rob estivesse saindo toda errada. Não está exatamente pintando ele de um jeito legal — não que o Aleks se importe, provavelmente, já que os dois nunca, jamais, em hipótese alguma, vão se encontrar. “O que eu quero dizer é que ele é do FBI. Ele precisa ser de um certo jeito por causa do trabalho. Sabe?”
“Dá pra ver o quanto você ama eles”, ele diz. “E o quanto eles amam você.”
Eu sorrio, grata. “É… bom, a gente tem uma boa cota de disfunção por baixo da superfície, acredita.”
“E que família não tem?”
Eu rio, me sentindo imediatamente à vontade. É estranho como é fácil conversar com ele. Será que dá pra ter uma química absurda e uma conversa boa com o mesmo homem?
Eu já achei que sim uma vez. Quando eu era criança. Mas lá pelos dezoito, eu joguei fora os óculos cor-de-rosa. O mundo não é nem de longe tão gentil assim.
