Admirável Mundo Novo

Download <Admirável Mundo Novo> grátis!

BAIXAR

Capítulo 2

O corpo inteiro dela doía.

À medida que recobrava a consciência, ela passou as memórias em revista. No trabalho dela, já estava acostumada a situações bem menos favoráveis. O corpo não tinha energia nem para levantar um dedo, mas ela precisava abrir os olhos e ver em que lugar duro e gelado estava deitada. Não lembrava de ter conseguido chegar à cama na noite anterior, nem de ter colocado o MSD.

Juntando toda a força que tinha, ela abriu os olhos, mas apertou as pálpebras por causa do clarão do ambiente. Quando a vista se acostumou à luz, percebeu que o “quarto” era mais uma cela vazia, com uma porta de metal na parede oposta e uma lâmpada pendurada no meio do teto.

Ela tentou se levantar enquanto se examinava e percebeu que estava usando as mesmas roupas de antes de chegar ali. Aquilo a fez pensar: como foi parar ali? Parecia real demais para ser um sonho, e não tinha nada a ver com os pesadelos escuros de sempre. Ela levou alguns minutos para reorganizar os pensamentos e checou os bolsos. A arma, o distintivo e a carteira tinham sumido, junto com as chaves do carro.

— Não dá pra fazer muita coisa com uma viatura ou com uma arma. É mais fácil de rastrear — murmurou, frustrada, enquanto avaliava o lugar. Ela não via nada que pudesse ser, nem de longe, uma câmera. Não havia janela que permitisse um vidro espelhado para observar a sala.

Respirando fundo, decidiu sair e encarar o que quer que estivesse do outro lado. Ela sabia se virar, mesmo em desvantagem numérica. Ser a melhor da turma no treinamento tinha suas vantagens.

Ela não admitiu, nem por um segundo, a ideia de que o que tinha acontecido com o feixe de luz fosse algo além da própria imaginação. A única explicação lógica a que chegou era que os homens que havia encontrado tinham dopado ela de algum jeito e a levado até ali. Mas, pelo tipo de homem que eles pareciam ser, por que ela estava intacta e só tinha perdido as coisas?

Voltando a se concentrar em sair dali primeiro e cobrar respostas depois, ela girou a maçaneta e escancarou a porta destrancada. O que viu em seguida a deixou ainda mais confusa. A cela dava acesso a outro cômodo que parecia mais uma instalação subterrânea em obras do que qualquer outra coisa — embora lugares assim fossem ótimos esconderijos para atividade criminosa.

O que a desconcertou não foi a ausência de trancas ou dos sequestradores, e sim o que estava exposto na segunda sala. A parede estava tomada por armas e equipamentos que Anara só tinha visto durante o treinamento e nas mãos de forças especiais. Ela olhou ao redor, desconfiada.

Ela se virou, absorvendo o ambiente inteiro mais uma vez, enquanto pensava no próximo passo.

Sem querer ser pega enquanto tentava fugir, ela decidiu que já tinha perdido tempo demais. Pegou um punhado de facas de arremesso e uma adaga. Pegou a arma do policial e percebeu que era a dela — e estava com todas as balas. “Que tipo de idiotas do caralho sequestram uma policial e ainda deixam a arma dela exposta na parede?” pensou, e enfiou a pistola no cinto antes de pegar mais duas armas de fogo que desse para carregar. Por último, pegou um soco-inglês no canto da mesa e colocou também. Agora, ela se sentia pronta para abrir caminho na força até encontrar um veículo ou um telefone.

Ela abriu a segunda porta e se surpreendeu ao ver que também estava destrancada. “Bando de irresponsáveis”, pensou, confiante nas próprias chances — mas travou no lugar ao ver o que a esperava do outro lado.

A porta dava direto numa selva fechada. O que a deixou desconfiada na mesma hora foi o silêncio assustador. Nada de grilos, nada de pássaros, nem mesmo vento.

“O que p—?!” Ela ficou sem palavras.

Nada mais fazia sentido.

Ela pegou uma mochila que tinha uma corda, um kit de costura bem simples, uma garrafa de água vazia e alguns produtos de higiene. Vasculhou o cômodo com os olhos, como a policial dentro dela mandava: juntar evidências.

Ela mal tinha dado alguns passos quando a porta atrás dela se fechou com um estrondo. Ela se virou num giro, a tempo de ouvir um zumbido elétrico vindo de dentro do quarto em que tinha acabado de estar. Notou que havia uma luz vermelha piscando em cima da porta que ela tinha usado para entrar na selva. De repente, a luz ficou verde e ela ouviu algo como travas sendo acionadas.

Ela esperou alguns instantes e, com cuidado, estendeu a mão até a maçaneta — e percebeu que não tinha volta. A porta estava trancada.

Aquilo a deixou imediatamente em alerta máximo. Talvez ela não estivesse tão sozinha quanto tinha imaginado. Estavam claramente observando ela. Naquele momento, ela agradeceu por ter pegado as armas. Olhou ao redor, procurando qualquer sinal dos sequestradores ou de perigo.

Ela puxou o ar fundo para se acalmar e encarou a selva; pânico não ia levar a lugar nenhum.

Um plano começou a se formar na cabeça dela. Ela precisava chegar à civilização o quanto antes e entregar as evidências à polícia local, antes de desmaiar de desidratação ou fome.

Ela se afastou um pouco das salas e montou uma bússola solar usando um galho que encontrou no chão. Em quinze minutos, tinha encontrado o norte e, então, a caminhada começou.

**Nota da autora:

O que você teria feito no lugar da Anara? Por quanto tempo você teria esperado na primeira sala? Você teria confiado na comida? Você arriscaria trocar de roupa?

Compartilhe suas ideias nos comentários <3**

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo