Capítulo 7 Colisão
POV do Lucian
Virei devagar, de propósito, e falei num tom casual, quase entediado:
— Você não deveria estar com a sua noiva escolhendo presentes de noivado? Isso não parece um comportamento apropriado para o herdeiro do bando de Shadowmoor.
O maxilar de Julian se contraiu, e o olhar dele tentou passar por cima do meu ombro para ver quem eu estava protegendo. Eu me desloquei um pouco, mantendo Briar fora de vista.
Julian deu um passo mais perto, e eu senti os dedos de Briar roçarem na minha cintura — um gesto nervoso que provocou um choque inesperado em mim. Segurei o pulso dela e o pressionei contra o meu lado, mantendo-o ali.
— Para de me tocar aí — eu disse, colocando sugestão suficiente na voz para soar íntimo. — Se você quer alguma coisa, a gente conversa quando voltar.
Os olhos de Julian brilharam em dourado por um instante, antes de ele forçá-los a voltar ao azul. Ele avançou, invadindo meu espaço com aquele tipo de postura agressiva.
— Você deveria pensar com muito cuidado antes de fazer de mim um inimigo.
Ergui uma sobrancelha, deixando um sorriso lento curvar minha boca.
— Eu e minha companhia estávamos tendo um momento privado. O que isso tem a ver com você?
Antes que Julian pudesse responder, uma voz estridente ecoou pelo corredor, e Chloe Davenport veio correndo na nossa direção, com os olhos avermelhados.
— Julian! Era pra gente estar escolhendo nossos presentes de noivado juntos, e você tá aqui fora fazendo exatamente o quê? Se você continuar me ignorando, eu vou ligar pro seu pai e contar que você não leva essa aliança a sério!
Observei, com um divertimento distante, a expressão de Julian mudar de fúria para um cálculo frio. Julian inspirou fundo, visivelmente empurrando o lobo de volta pra dentro, e, quando ele olhou além de mim de novo, seus olhos tinham retornado ao habitual azul gelado.
— Não encosta em mim — ele disse para Chloe, com a voz plana e fria, enquanto arrancava o braço da mão dela, que tentava alcançá-lo. Em seguida, ele se virou e foi embora sem dizer mais nada.
Chloe ficou ali por um momento, o rosto se desfazendo, antes de se virar e ir apressada atrás dele.
Esperei até os dois virarem a esquina, então soltei o pulso de Briar e dei um passo para trás.
— Eles foram embora.
Ela imediatamente ergueu as mãos e as enfiou por dentro da minha jaqueta, com as palmas pressionando meu abdômen e minhas laterais numa exploração deliberada que fez Fenrir se animar, interessado, dentro da minha cabeça. Ela levantou o olhar pra mim com aqueles olhos cor de mel desafiadores e ergueu o queixo.
— Você disse pra eu não te tocar antes. Então agora eu tô te tocando de propósito. A gente tá quites.
Eu encarei ela por um instante, processando a audácia dessa mulher que tinha passado os últimos cinco minutos encolhida atrás de mim… e então eu ri.
— Você é rancorosa, hein? Uma coisinha vingativa.
Briar puxou as mãos de volta, e eu me recostei na parede, observando-a.
— Então. Você veio a um leilão da alta sociedade só pra se esconder de alguém?
Ela hesitou, claramente pesando o quanto me contar.
— Mais ou menos isso.
— Obrigada por me ajudar — ela disse, baixinho.
Eu me desencostei da parede e me aproximei até conseguir ver o jeito que o pulso dela saltava na garganta.
— Vance, “obrigado” não é uma coisa que você simplesmente diz. Isso exige ação.
O rosto dela ficou vermelho, e ela gaguejou:
— Então eu… eu pago um jantar pra você! Um dia desses! Pra agradecer direito!
Eu abri um sorriso, curtindo o constrangimento dela.
— Vou cobrar.
Ela soltou um som frustrado e girou no calcanhar, saindo pelo corredor com os ombros retos e a cabeça erguida, claramente irritada por eu ter ficado com a última palavra.
Meu celular vibrou no bolso, e eu o puxei pra ver o nome de Dominic Sterling na tela. Meu bom humor evaporou na hora. Eu caminhei até a escada de serviço, mais afastada, e atendi.
— Lucian. — A voz de Dominic era fria e autoritária. — Você não compareceu à festa de noivado do Julian ontem à noite.
— Eu estava ocupado — eu disse, seco.
O tom de Dominic ficou ainda mais gelado.
— Você ainda está perdendo tempo naquele barzinho? Que tipo de futuro é esse? Estou te dando um mês pra fechar aquele lugar e voltar pra administrar a empresa da família com o Julian.
Um sorriso de deboche puxou meus lábios.
— A “empresa da família” a que você se refere… metade dela foi tomada à força da família da mãe do Julian. Como é que você chama isso de “empresa da família”?
Dominic explodiu:
— Você—
Eu cortei ele. — Eu não cedi nos meus piores momentos, muito menos agora. Em vez disso, você devia gastar sua energia cuidando do seu “herdeiro perfeito”, o Julian.
A voz do Dominic ficou cortante, gelada. — Ótimo. Então vou ver o que você consegue fazer sem o meu apoio.
A ligação terminou de supetão quando ele desligou na minha cara.
Meu celular vibrou de novo, desta vez com uma mensagem do Kai Stone, meu COO na Apex Bio-Solutions. A mensagem era curta e direta: [Cúpula de biotecnologia. Convite da Sterling Pharmaceuticals. Vai?]
Respondi rápido: [Claro. Você representa a liderança da empresa. Cuida disso.]
A resposta do Kai veio quase na hora: [De novo? A Apex está enorme agora. O pessoal vive achando que eu sou o chefe de verdade.]
Sorri de leve enquanto digitava: [Essa é a ideia. Você é o nosso representante na linha de frente.]
[...Tá. Já estou acostumado mesmo.]
POV do Julian
Eu estava no salão principal do leilão, com as mãos cerradas atrás das costas, observando a Chloe apontar para uma vitrine com joias de safira.
— Julian, o que você acha desse conjunto? — ela perguntou, indicando uma combinação de colar e brincos.
— O que você quiser — eu disse, seco.
O sorriso da Chloe vacilou e ela se aproximou, baixando a voz. — Julian, seu pulso. Tem marcas aparecendo por baixo da manga. Isso é… alguma coisa de casa?
Olhei para baixo e vi que ela estava certa. A borda de um vergão vermelho-escuro aparecia onde o punho tinha subido. Puxei a manga para baixo e lancei meu olhar mais frio para a Chloe. — Não faça perguntas que não são da sua conta.
— Eu só pensei que—
— Você não pode ajudar — eu a cortei, áspero. — E não encosta em mim.
A Chloe recolheu a mão como se eu tivesse queimado ela, os olhos se enchendo de lágrimas. Ela abriu a boca, mas eu já tinha encerrado aquela conversa.
— Julian — ela sussurrou, com a voz falhando. — Você… você tem sentimentos pela Briar Vance?
O som do nome da Briar fez alguma coisa apertar dentro do meu peito, e eu senti meu lobo avançar. Eu o forcei a recuar e estreitei os olhos para a Chloe. — Isso não é algo com que você precise se preocupar.
— Nós estamos noivos! — a voz da Chloe subiu um pouco antes de ela se controlar e abaixar de novo. — Eu vou ser sua esposa, Julian. Eu mereço saber—
— Isso é uma aliança política — eu disse, gelado. — Você não é minha esposa. Você é um contrato. Não se engane achando o contrário e não tente se enfiar em partes da minha vida que não têm nada a ver com você.
O rosto da Chloe se desfez; ela virou de lado, os ombros tremendo enquanto tentava segurar o choro. Cobriu a boca com a mão e saiu correndo em direção ao banheiro.
Eu me virei e deixei o salão do leilão, indo para o estacionamento, onde o James estava me esperando com o carro. Caminhei rápido em direção à saída.
Eu já estava quase chegando na entrada do estacionamento quando vi. Uma equipe de limpeza empurrava um contêiner grande de lixo passando pela porta de serviço. Algo azul chamou minha atenção, e eu parei.
Seda azul-escura. Exatamente o tom do vestido que eu tinha mandado para a Briar naquela manhã, o mesmo que eu tinha passado uma hora escolhendo porque queria que ela ficasse perfeita.
E ela tinha jogado fora como se fosse lixo.
Minha visão se fechou, e eu senti minhas unhas cravarem nas palmas das mãos com força suficiente para tirar sangue. O lobo dentro de mim rosnou e avançou, mudando meus olhos do azul para o dourado. Imagens explodiram na minha mente: a Briar se escondendo atrás do Lucian Kincaid no corredor, o braço do Kincaid em volta da cintura dela, a voz dele dizendo pra eu não tocar nela ali.
Cheguei ao carro e entrei no banco de trás. Meu rosto parecia uma nuvem de tempestade, escuro e pesado de fúria.
O James hesitou, depois pigarreou. — Alfa… o Alfa Dominic ligou mais cedo, no começo da noite.
Puxei a gravata, irritado, e rosnei: — Fala.
O James engoliu em seco. — Ele disse… que quer que o senhor fique na Casa da Alcateia a partir de agora. E a Srta. Vance… o senhor não deve mais visitar ela.
A temperatura dentro do carro despencou. Os nós dos dedos do James ficaram brancos no volante, e suor brotou na testa dele. Eu fiquei perfeitamente imóvel, deixando o silêncio se esticar até ficar insuportável.
Por fim, eu falei, com a voz fria como gelo: — Entendi.
Então continuei com minhas instruções. — Entre em contato com os organizadores da cúpula de biotecnologia. Pegue a lista de participantes e mande para a Briar na manhã do dia de abertura do evento.
