Capítulo 3 Uma decisão ultrajante
POV da Briar
Nossos olhares se prenderam por três segundos. Eu desviei primeiro e virei a segunda dose de tequila.
O álcool estava começando a fazer efeito. Meus pensamentos ficaram lentos, mas uma ideia se cristalizou com uma clareza cada vez maior —
Julian estava noivo da Chloe. A Chloe nunca ia parar de me atormentar. E, mais cedo ou mais tarde, o Julian podia decidir “me libertar” do jeito mais definitivo possível.
Que absurdo. Mas, entre o álcool e o desespero, aquele pensamento virou minha única boia de salvação.
Se esse era o meu futuro, por que não enlouquecer uma vez só?
Peguei a terceira dose, me levantei com as pernas bambas e fui até o banco ao lado do estranho, sentando ali.
— Oi. — Minha voz saiu rouca, por causa do álcool e do choro.
O homem virou o rosto, erguendo uma sobrancelha de leve. De perto, ele era ainda mais bonito — maxilar marcado, nariz reto e aqueles olhos cinza-esverdeados hipnotizantes, dos quais eu não conseguia desviar.
— Oi. — A voz dele era baixa e cheia, como a corda mais grave de um violoncelo.
Coloquei o copo na bancada e me inclinei, apoiando os cotovelos no bar. O decote baixo do vestido verde-esmeralda ficou ainda mais evidente nesse ângulo, deixando minhas clavículas e a curva do meu pescoço totalmente à mostra. Vi o olhar dele parar na minha clavícula por meio segundo antes de se afastar rápido.
— Você está sozinho? — perguntei, com os olhos um pouco desfocados enquanto encarava ele.
— Por enquanto. — O tom dele continuou neutro. — E você?
— Eu só… — Soltei uma risada de repente, amarga e meio desvairada. — Eu acabei de fugir de um desastre.
O homem ergueu o copo. O gelo tilintou quando ele girou a bebida devagar, o polegar desenhando a umidade por fora. Ele não bebeu na hora.
— Parece que você precisa de algo mais forte.
— O que você recomenda? — Minha voz carregava um flerte óbvio.
Ele fez um sinal para o bartender.
— Dois Corpse Reviver Number Two.
Então ele olhou de volta para mim, a boca se curvando num sorriso ambíguo.
— Também chamam de “trazer os mortos de volta à vida”. Parece apropriado pro seu estado atual.
O bartender logo colocou dois coquetéis azul-claros na bancada. Peguei o meu e bebi de uma vez, a queimação cítrica e amarga explodindo na minha língua. Deixei o copo vazio e me inclinei ainda mais, quase encostando nele.
— Quer saber a parte mais irônica?
— O quê?
— Eu acabei de fugir da festa de noivado de um homem. — Meus dedos começaram a desenhar padrões sem sentido no tampo do bar. — Ele não vai casar comigo, mas exigiu que eu me arrumasse e fosse, só pra eu assistir a noiva dele me humilhar.
Algo sombrio cintilou nos olhos dele. A mão dele apertou o copo com mais força.
— Ele parece um desgraçado.
— Mais do que um desgraçado. — Eu ri de novo, com um desespero bêbado cortando o som. — Ele é um monstro. Mas sabe qual é a pior parte? — Cheguei mais perto até restarem menos de dez centímetros entre nós, perto o bastante para sentir o cheiro de cedro e uísque na pele dele. — Eu nem consigo odiar ele. Porque eu não tenho escolha.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Aí falou, a voz descendo ainda mais.
— Hoje à noite, você tem.
Eu ergui os olhos para ele. A luz fraca do bar desenhava sombras no rosto dele, deixando seus traços ainda mais marcantes e perigosos. De repente, eu entendi: aquele homem era outro tipo de ameaça — não a brutalidade fria do Julian, e sim algo em que eu queria me afogar, me aproximar mesmo sabendo que ia me machucar.
— Que escolha? — me ouvi perguntar, a voz quase um sussurro.
Ele se inclinou, fechando a distância até eu sentir a respiração dele, quente, com gosto de álcool e de alguma coisa puramente masculina que fez minha loba, Selene, ficar estranhamente quieta. Ela nunca se calava perto de Alfas desconhecidos.
— Escolher esquecer aquele desgraçado hoje à noite. — A voz dele pareceu uma confissão particular perto do meu ouvido, baixa e sedutora. — Escolher fazer alguma coisa que você quer fazer, em vez de alguma coisa que mandaram você fazer.
Meu coração começou a disparar sem controle. Eu sabia que devia levantar e ir embora — aquele estranho, aquelas palavras perigosas, aquela noite saindo do eixo rumo ao caos — tudo dentro de mim gritava aviso.
Mas eu já não me importava.
Estendi a mão e deixei a ponta dos dedos deslizar pelas costas da mão dele, onde descansava no balcão. A pele dele era quente; a palma, levemente calejada de um jeito que as mãos bem cuidadas do Julian nunca foram — áspera num ponto que mandou uma descarga subir pelo meu braço.
“E se…” Minha voz saiu rouca por causa do álcool e de alguma coisa mais perigosa. “E se eu dissesse que quero esquecer tudo sobre esta noite? Você consegue me ajudar com isso?”
Os olhos dele brilharam com algo dourado na escuridão — o sinal de que os instintos de lobo estavam despertando. Ele virou a mão e prendeu meus dedos, o polegar passando devagar sobre os meus nós num gesto ao mesmo tempo contido e carregado de um desejo mal controlado.
“Esquecer tem um preço.” A voz dele estava tensa. “Tem certeza de que você pode pagar?”
Eu ri, um som imprudente e autodestrutivo. Me inclinei até meus lábios quase roçarem a orelha dele, meu hálito quente fazendo o corpo dele enrijecer. “Me tira daqui.”
Parei um instante e acrescentei: “Pra um hotel.”
Os olhos dele escureceram; o cinza-esverdeado das íris se acendeu de ouro quando o olhar dele se prendeu ao meu. Ele se aproximou mais, baixando a voz até ficar áspera e baixa. “Não se arrependa disso amanhã.”
Antes que eu pudesse responder, ele se levantou e me puxou para ficar de pé, a mão dele firme na minha enquanto me conduzia até a saída.
Ele me levou até um carro preto, elegante, estacionado na quadra de baixo. Abriu a porta do passageiro e esperou enquanto eu me acomodava, depois fechou com um clique suave.
Quando ele entrou do lado do motorista, o interior ficou com o cheiro dele — cedro limpo misturado com algo quente e masculino que fez minha loba se remexer, inquieta. Afundei no banco de couro, a cabeça já girando com a combinação de álcool e qualquer impulso inconsequente que tinha tomado conta de mim.
Ele deu partida e entrou com suavidade no trânsito ralo da madrugada.
O Hotel Meridian apareceu rápido demais, o saguão brilhando de luz. Depois disso, tudo ficou em pedaços — o elevador, a mão dele firme nas minhas costas, o bipe discreto de um cartão-chave.
Então estávamos lá dentro e o quarto pareceu inclinar. Eu cambaleei, o tornozelo virando naqueles saltos malditos. O braço dele me segurou antes que eu caísse, me guiando até a cama com uma gentileza inesperada.
Desabei no colchão, a seda verde-esmeralda se espalhando ao meu redor. Minha língua parecia grossa, inútil. As pálpebras ficaram pesadas demais, e o quarto sumia e voltava.
No meio da escuridão que se juntava, senti mãos cuidadosas tirando meus saltos — alívio imediato. Um cobertor caiu sobre mim, quente e macio, ajeitado com delicadeza nos meus ombros. Então uma voz, baixa e tranquila, perto do meu ouvido.
“Dorme.”
E eu dormi, caindo numa escuridão tão completa que parei de pensar, parei de doer, parei de ser qualquer coisa além de inconsciente.
Quando acordei, batidas urgentes na porta me arrancaram de volta à consciência. Encarei um teto branco desconhecido por três segundos desorientadores, até as memórias voltarem de uma vez — quarto de hotel, doses de tequila, um estranho de olhos cinza-esverdeados cujo nome eu nunca tinha aprendido.
Lutei para me sentar, a cabeça rachando com a pior ressaca que eu tivera em anos. O quarto estava escuro e silencioso, com cortinas pesadas bloqueando quase toda a luz, exceto por uma linha fina e cinza vazando pelas bordas.
Virei para o outro lado da cama.
Vazio.
Os lençóis estavam lisos, intactos, e o travesseiro não tinha marca nenhuma de onde uma cabeça pudesse ter repousado. A única prova de que a noite anterior tinha sido real era um bilhete dobrado no criado-mudo. Estendi a mão e peguei, apertando os olhos para ler a letra firme, um pouco desleixada, rabiscada em tinta preta.
[Dorme bem.]
Fiquei olhando para o bilhete enquanto emoções complexas se embolavam no meu peito — alívio por nada ter acontecido, confusão sobre o que exatamente tinha acontecido e um vazio estranho que eu não conseguia nomear.
As batidas na porta vieram de novo, mais fortes e insistentes dessa vez.
