Capítulo 5 Quão ricos são seus pais?
A motocicleta subiu pela estrada de serra cheia de curvas e, enfim, parou diante de uma mansão magnífica.
Os portões de ferro preto, trabalhados, deslizaram devagar para os dois lados, revelando uma alameda comprida, calçada com pedras brancas. De cada lado, jardins geométricos aparados com perfeição; e, ao fundo, a casa principal parecia um castelo clássico recortado pelo pôr do sol.
Audrey tirou o capacete e ficou encarando tudo à sua frente, atônita.
A família pobre que a Claire tinha descrito — com paredes nuas, irmãos solteirões e um irmão mais novo gravemente doente — morava ali?
O tamanho daquele lugar, o paisagismo, até a fonte dourada na entrada… tudo valia uma fortuna.
A mansão de orgulho da família Carter, em comparação, parecia um quartinho de empregados sem importância.
Michael estacionou a moto, passou as pernas longas para o lado e levantou o queixo para ela, com um traço de orgulho na voz. — E aí, o que você acha? Nossa casa é bem decente, né?
Audrey não respondeu; seus olhos apenas percorreram o entorno com calma.
Para Michael, o silêncio dela significava choque, e ele abriu um sorriso ainda maior.
Nesse instante, a pesada porta de madeira da mansão foi empurrada por dentro, e uma mulher de casaco claro saiu apressada.
Ela tinha uma silhueta elegante e um rosto bem cuidado marcado pela ansiedade. Os cabelos escuros estavam presos de qualquer jeito para trás, deixando à mostra a testa lisa e os traços delicados.
Aquele rosto — Audrey o tinha visto em incontáveis capas de revistas internacionais. Era a atriz premiada Lucienne Collins.
— Michael! — a voz furiosa de Lucienne chegou antes dela. — Eu pedi para você ir de carro buscar sua irmã — quem foi que mandou você levar aquela porcaria de moto? E se sua irmã se machucasse!
Ela atravessou a distância em poucos passos e, sem nem olhar para Michael, segurou as mãos de Audrey e a examinou de cima a baixo. A expressão dela mudou na mesma hora, da raiva para uma dor esmagadora.
— Você deve ser a Audie, não é? Minha Audie… — a voz de Lucienne embargou; os olhos dela se encheram depressa de lágrimas, enquanto as pontas dos dedos acariciavam de leve a bochecha de Audrey. — Deixa a mamãe olhar você. Você está tão magrinha… quanto você deve ter sofrido todos esses anos…
Lágrimas mornas caíram de repente no dorso da mão de Audrey, tão quentes que fizeram seus dedos tremerem um pouco.
Aquele calor desconhecido a envolveu, e ela não soube o que fazer.
Por vinte anos, ela tinha se acostumado ao desprezo de Claire e à indiferença de Caleb. Aquele amor puro, incondicional, fez o corpo dela enrijecer, sem saber como reagir.
Passos firmes vieram de trás de Lucienne, e um homem de meia-idade, igualmente elegante e bonito, se aproximou.
Ele lembrava Michael em alguns traços, mas sua postura era muito mais contida. Era Julian Collins, o chefe do Grupo Collins.
Ele passou o braço com carinho pelos ombros da esposa e, quando seu olhar pousou em Audrey, estava igualmente cheio de culpa e afeto. — Tudo bem. A menina acabou de chegar em casa. Vamos entrar — não vamos ficar na porta. Lá dentro a gente conversa.
Julian se virou para Audrey, tentando deixar a voz o mais suave possível. — Audie, eu sou seu pai. Seja bem-vinda de volta.
Ele estendeu a mão para tocar o ombro dela, mas, como se tivesse medo de assustá-la, a mão ficou suspensa no ar por um instante antes de pousar, de leve, no topo da cabeça de Audrey — um gesto ao mesmo tempo cuidadoso e hesitante.
O grupo entrou na sala de estar, onde o luxo discreto da decoração e as obras de arte por toda parte refletiam o gosto dos donos.
Lucienne puxou Audrey para se sentar no sofá macio, ainda chorando. — A culpa é toda nossa. A gente levou tantos anos para encontrar você. Você sofreu tanto.
Julian pegou o celular e fez uma ligação, com um tom mais sério. — Doutor, preciso que o senhor e sua equipe venham agora. Sim, façam o exame físico mais completo possível na minha filha. Verifiquem se ela desenvolveu algum problema de saúde ao longo desses anos.
Audrey se assustou e disse por instinto: — Eu estou perfeitamente bem, não precisa…
— Precisa, sim! — Lucienne a interrompeu, apertando a mão dela com força, os olhos cheios de medo. — Temos que verificar. Com gente como a família Carter, quem garante que não maltrataram você com comida, roupa, condições de vida? Se tiver alguma doença escondida que a gente não saiba, seria horrível.
Diante da expressão nervosa e preocupada dos dois, Audrey não teve coragem de recusar.
Logo depois, uma equipe médica com vinte doutores chegou e, sem perder tempo, montou um monte de aparelhos de alta precisão na sala de estar para examinar Audrey.
Enquanto esperava, Audrey viu o casal andar de um lado para o outro, aflito, e não resistiu:
— Por que vocês dois não se sentam?
— Audie, você ficou todo esse tempo vivendo naquela casa caindo aos pedaços, sem dinheiro. A mamãe não consegue parar de se preocupar.
O olho de Audrey tremeu. A moral daquele povo podia até ser discutível, mas eles moravam numa mansão e andavam de carro esportivo — de pobres não tinham nada.
Afinal, quão ricos eram os pais dela?
Enquanto aguardavam os resultados, o casal Collins parecia mais nervoso do que a própria Audrey.
Nesse momento, o médico se pronunciou:
— Sr. Collins, Sra. Collins, podem ficar tranquilos. A jovem está muito saudável, e todos os indicadores estão excelentes.
Só então Lucienne e Julian soltaram um longo suspiro, e sorrisos apareceram em seus rostos.
Depois de acompanhar os médicos até a porta, Lucienne puxou Audrey com ansiedade.
— Vem, Audie. A mamãe vai te mostrar o seu quarto.
Audrey ficou até meio atordoada com tanto entusiasmo.
A cabeça dela ainda estava embaralhada. A família Collins não era para ser pobre?
Que tipo de “pobreza” era aquela?
Passando por um corredor com quadros famosos pendurados, Lucienne empurrou uma porta branca no fim do segundo andar.
O quarto era um mundo de rosa e renda.
Uma cama enorme de princesa estava coberta por camadas de cortinas de voal; as paredes, por um papel de parede de conto de fadas; e uma parede inteira de vitrines de vidro exibia várias Barbies de edição limitada. O tapete era felpudo, macio como nuvens sob os pés.
Delicado, onírico, como uma casa de boneca perfeita.
— A gente decorou pensando em como você era quando era criança — disse Lucienne, com uma ansiedade nervosa na voz. — Não sei se você vai gostar. Se não gostar, amanhã a gente muda tudo.
Audrey não sabia se ria ou se chorava. Ela já era velha demais para aquilo.
Então era assim que eles imaginavam que a filha perdida deveria ser — inocente, romântica, precisando ser mimada como uma princesa.
Audrey encarou um vestido, os olhos tremeluzindo. Aquilo não era algo que ela tinha desenhado quando tinha treze anos? Naquele ano, tinha sido leiloado por sessenta mil dólares.
Vendo Audrey fixar o olhar no vestido, Lucienne sorriu, toda feliz.
— Você gostou desse? É da famosa estilista Jenny. Acho que ficaria perfeito em você.
Audrey ficou sem palavras.
Ver um desenho juvenil dela pendurado no armário era… um pouco constrangedor.
— Obrigada, mãe. Eu gostei muito.
— Que bom que você gostou! — Lucienne radiante, quase brilhava de alegria.
Michael, que vinha atrás delas sem conseguir achar uma brecha para falar, finalmente explodiu, dramático:
— Mãe, pai, vocês não sabem como a Audrey foi incrível hoje!
— Eu vi minha irmã chutar aquele cara e derrubar ele de joelhos. Um chute só…
Antes que Michael terminasse, Audrey deu um chute na bunda dele. Ele se calou na mesma hora.
Audrey lançou para ele um olhar gelado.
Ele não era para guardar segredo?
Julian e Lucienne se entreolharam, confusos.
— Chutar alguém de joelhos? Audrey, alguém te arrumou problema? — Julian franziu a testa.
Michael ia falar, mas Audrey o cortou com calma:
— Não foi nada sério. Trouxeram uma pintura a óleo antiga que todo mundo disse que não tinha conserto. Eu só restaurei.
O tom dela era casual, como se fosse a coisa mais comum do mundo.
Michael resmungou, baixinho:
— Aquilo não foi “só restaurar”… nem os especialistas tiveram coragem de encostar.
Audrey olhou para ele.
Michael ficou quieto na hora.
Julian parou por um instante.
— Restauração de pintura a óleo?
Audrey assentiu.
— Eu fui aprendendo um pouco ao longo dos anos.
Um pouco.
Michael quase revirou os olhos.
Um pouco, e ela restaurou na hora uma obra que valia centenas de milhões?
Um pouco, e calou uma sala cheia de “mestres” autoproclamados?
Um pouco, e ainda chutou um encrenqueiro até ele cair de joelhos?
Julian olhou para a filha com uma expressão complicada.
Pouco mais de vinte anos, e nem os especialistas do ramo ousavam discutir com ela.
Aquilo não era “um pouco”.
Ela já estava no topo da área.
Lucienne segurou a mão de Audrey, com os olhos arregalados.
— Aquela pintura… era muito cara?
Michael não se aguentou e soltou:
— Cara? O cliente disse que, depois de restaurada, vale pelo menos nove dígitos.
A sala de estar ficou em silêncio.
Lucienne: “…”
Julian: “…”
Audrey foi arregaçando as mangas devagar, a voz ainda tranquila.
— Tá tudo bem.
— Habilidade nunca é um peso.
