Capítulo 4 Mantenha sua palavra
Aquele comentário atingiu John como um tapa na cara, fazendo o sangue subir à cabeça. Num instante, a racionalidade dele foi completamente consumida pela fúria.
Ele agarrou a caneta de limpeza e avançou em direção à bancada, com a voz cortante de despeito enquanto gritava: “Hoje eu vou te mostrar como é que trabalha um mestre de verdade!”
Ele se inclinou, tentando imitar a postura que Audrey tinha usado antes, mas as pontas dos dedos tremendo entregaram o pânico por dentro.
O coração de Hank e do diretor Johnson veio à boca. Eles queriam impedir, mas tinham medo de atrapalhar ainda mais a concentração dele. Nesse exato momento, a mão de John tremeu, e uma gota de solvente da caneta de limpeza escorreu, caindo bem no rosto da figura do quadro.
Um som quase inaudível — e a tinta centenária daquela área foi corroída na hora. A cor, antes rica e profunda, desbotou rápido, virando um amarelo doentio e manchado, como uma cicatriz feia marcada no rosto daquele tesouro nacional.
A sala de restauração ficou num silêncio mortal.
Suor frio brotou imediatamente na testa de John; ele ficou pálido como papel. “Meu Deus do céu!”
Ele tinha estragado um Rembrandt de verdade!
Esse pensamento apagou a mente dele. As pernas amoleceram, e ele mal conseguiu se manter em pé.
“Você!” Hank tremia de raiva, com o dedo apontado sacudindo, o rosto passando do vermelho para um roxo escuro, lividez pura. “Você... o que foi que você fez!”
O diretor Johnson também parecia arrasado. Aquilo era uma perda incalculável.
John, de repente, voltou a si. A primeira reação não foi admitir o erro, e sim fuzilar Audrey com o olhar. “Foi ela! Ela me provocou de propósito, por isso eu errei. Sr. Harrington, isso tudo é um plano dela!”
O diretor Johnson ficou completamente decepcionado com John. O semblante dele fechou. “John, se você não tem habilidade suficiente, admita. Como você pode jogar a culpa numa moça? Se você não ficasse provocando, a mestra Audrey nunca teria deixado você encostar!”
“Eu...” John ficou sem palavras.
“Só sabe colocar a culpa da sua incompetência nos outros?” Audrey olhou para ele friamente, com desprezo nos olhos. “Eu achei que você só não tinha técnica, mas não esperava que também não tivesse caráter. Que covarde.”
Depois de dizer isso, ela ignorou John, cujo rosto não parava de mudar de cor, calçou as luvas de novo e voltou para a bancada.
Michael se apoiava no batente da porta, observando com interesse, um sorriso malandro ainda nos lábios.
A irmã dele era outra coisa.
Audrey pegou um conta-gotas mais fino e aspirou outro líquido transparente. Os movimentos dela eram rápidos e firmes, sem nenhuma hesitação. Sob o olhar tenso de todos, ela pingou com precisão o solvente especial na área danificada.
Um milagre aconteceu.
Aquela mancha amarela, feia e doentia, foi neutralizada e se dissolveu a uma velocidade visível. Por baixo da camada de tinta corroída, uma cor de base mais profunda voltou a aparecer.
Ainda havia dano, mas, comparado à destruição fatal de instantes antes, era outra história.
Hank e o diretor Johnson soltaram suspiros de alívio, olhando para Audrey, boquiabertos. Aquilo não era só restauração — era trazer o morto de volta à vida!
John ficou ainda mais atônito, queixo caindo.
Na visão dele, um erro daquele tamanho era irreversível, mas ela... ela tinha resolvido com tanta facilidade?
Audrey não parou. Depois de corrigir o erro, ela passou com naturalidade para a etapa seguinte da restauração.
Limpeza, correção de cor, envernizamento.
As mãos dela se moviam com uma precisão quase mágica. Cada gesto fluía sem interrupção, como uma máquina bem ajustada.
O quadro antigo, apagado e sem vida, foi aos poucos voltando a respirar sob as mãos dela, recuperando o brilho.
Uma hora depois, quando ela pousou as ferramentas e tirou as luvas, a pintura estava completamente transformada, como se tivesse atravessado centenas de anos para retomar a glória original.
Hank avançou, empolgado, olhando para a pintura restaurada quase com reverência; os olhos dele chegaram a marejar. “Meu Deus! É assim que isso tinha que estar! Mestra Audrey, você realmente faz jus ao título de ‘Mestra’!”
John ficou completamente atônito. Ele sabia que, naquele dia, tinha encontrado uma verdadeira mestra.
Enquanto ninguém prestava atenção nele, foi se esgueirando em direção à porta, querendo apenas sair dali o mais rápido possível.
“Tentando ir embora?”
Uma voz fria ecoou. O corpo de John enrijeceu.
Audrey tinha, de algum jeito, se colocado no caminho dele, encarando-o com uma expressão indiferente, e disse devagar: “Eu me lembro de alguém dizendo que ia se ajoelhar pra mim.”
O rosto de John ficou vermelho na hora. Ele tentou retrucar: “Eu… eu falei aquilo no calor do momento! Não exagera!”
“Ah, é?” Audrey soltou um riso de deboche. “Então os ‘mestres’ da restauração falam besteira à toa?” Antes que ele pudesse reagir, ela ergueu o pé e acertou, com precisão, a parte de trás do joelho dele.
O joelho de John cedeu, e ele caiu com força no piso de mármore frio e duro.
“Você!” Completamente humilhado, ele ia se levantar à força quando uma mão fina, mas absurdamente forte, pressionou a nuca dele. Uma força irresistível empurrou a cabeça de John para baixo, com violência.
O corpo inteiro de John bateu no chão, de vez.
“Cumpra sua palavra.” A voz de Audrey era plana, mas carregava uma pressão gelada. “É o que você me deve.”
“Isso… isso é agressão! Eu vou te processar!” John doía tanto que as lágrimas já estavam quase saindo, mas ele ainda insistia.
“Chega!” Hank finalmente não aguentou mais. O semblante dele escureceu quando repreendeu: “John, você realmente me abriu os olhos! A partir de hoje, todos os museus e coleções particulares sob a família Harrington vão encerrar qualquer cooperação com você!” Ele se virou para os dois seguranças de terno preto na porta. “Arrastem ele pra fora. Não quero ver esse sujeito nunca mais.”
Os seguranças avançaram imediatamente, cada um segurando um lado de John — que ainda gritava — e o arrastaram para fora sem a menor cerimônia.
A sala de restauração finalmente ficou em silêncio.
Hank se virou para Audrey, e a raiva no rosto dele se transformou na hora em gratidão calorosa e pedido de desculpas. “Mestra Audrey, peço desculpas pelo que você teve que presenciar. Graças a você, este tesouro foi salvo hoje.” Ele fez uma pausa e, num tom sincero, fez o convite: “Tenho um pedido. Você teria interesse em se tornar a especialista-chefe em restauração, nomeada especialmente pela nossa família? Eu garanto que a remuneração será satisfatória.”
Era um ramo de oliveira com o qual incontáveis especialistas em restauração sonhavam: acesso a coleções de primeira linha sem fim e um status prestigioso no meio.
Mas Audrey apenas balançou a cabeça, com calma. “Obrigada pela gentileza, senhor Harrington, mas não vai ser necessário. Eu vou sair daqui em breve.”
Ela não queria continuar se envolvendo com gente e situações tão horríveis.
Hank se assustou, o rosto cheio de arrependimento, mas, vendo a firmeza dela, não insistiu. “É uma pena de verdade. Se surgir uma oportunidade no futuro, espero que possamos trabalhar juntos de novo, Mestra.”
Audrey assentiu, sem dizer mais nada.
Quando eles saíram da galeria, o anoitecer já se aproximava.
Michael entregou o capacete para Audrey, com um sorriso de diversão e admiração sem disfarçar. “Nada mal, Audrey… não, eu tenho que te chamar de Mestra Audrey. Hoje eu vi de perto. Minha irmã é braba demais!”
Audrey sorriu, e então lembrou de uma coisa e o alertou: “Eu não gosto muito de chamar atenção, então sobre esse negócio de especialista em restauração…”
Ela olhou para Michael, que fez uma expressão de “entendi”. “Sem problema, pode confiar em mim. Vou ficar quieto!”
Enquanto falava, ele montou na moto e deu um tapinha no banco de trás. “Sobe aí, eu te levo pra casa. A mãe e seus irmãos devem estar esperando, preocupados.”
As palavras “pra casa” fizeram o coração de Audrey palpitar de leve.
Ela colocou o capacete e subiu com naturalidade na garupa; a voz fria dela carregava um calor que nem ela tinha percebido.
“Tá bom.”
