Capítulo 2 Eu sou seu irmão
Todo mundo ficou paralisado. Eles viraram na direção do barulho e viram um homem alto, postado como um escudo na frente de Audrey.
Audrey ficou imóvel. O homem à sua frente parecia ter uns vinte e cinco ou vinte e seis anos, com mais de um metro e oitenta, vestindo uma camisa escura simples e uma calça no mesmo tom. O colarinho estava desabotoado de um jeito casual, deixando à mostra a clavícula.
O rosto perigosamente bonito dele era impossível de ignorar, com traços tão marcantes que pareciam esculpidos em pedra. Um meio sorriso brincava no canto da boca, e a presença inteira dele exalava uma aura que gritava: “não mexe comigo”.
“Quem é você? Como se atreve a criar confusão na minha Carter Corporation! Segurança! Chamem a segurança e prendam esse homem!” Claire finalmente saiu do transe, o rosto vermelho de raiva enquanto berrava, histérica.
O homem soltou, dispensou Claire como se ela não fosse nada e voltou toda a atenção para Audrey.
A jovem tinha feições delicadas e um ar naturalmente frio, distante. Em especial aqueles olhos azul-claros, como vidro fosco, eram idênticos aos da mãe dela quando jovem.
“Audrey?” Ele ergueu uma sobrancelha, e o tom dele suavizou na hora.
Audrey assentiu, confusa.
As roupas dele pareciam simples, mas ela percebeu que eram de primeira linha, peças italianas de luxo feitas sob medida. Só aquela camisa custava mais de cem mil dólares.
Quando ele mexeu a mão, Audrey viu um desenho discreto no punho — a marca de um relojoeiro suíço que só trabalhava com famílias de dinheiro antigo.
Não tinham dito a ela que o pai biológico era inválido, a mãe desempregada e que a família era miserável? Aquilo não fazia sentido nenhum.
Enquanto ela ainda tentava juntar as peças, ele continuou: “Eu sou Michael Collins, seu terceiro irmão. A mãe me mandou te buscar.”
Antes que Audrey respondesse, os olhos de Emily vacilaram, e ela passou o olhar por Michael de cima a baixo.
Sem logotipo de marca, parecendo completamente comum. Era bonito, sim, mas devia ser só um pobre bonito.
“Irmã… esse é o seu… irmão daquele lado?” O tom dela parecia preocupado, mas um desprezo sutil escorria por baixo das palavras.
Michael percebeu, mas nem olhou para Emily. Ele pegou a mão de Audrey para ir embora.
“Vamos, bora pra casa. Esse lugar fede. Mais um segundo aqui e eu passo mal!”
Nesse instante, quatro ou cinco seguranças correram pelo vão da escada, cassetetes de borracha nas mãos.
Claire se animou, apontou para Michael e gritou, estridente: “É ele! Invadiu e agrediu pessoas — prendam ele!”
Os seguranças os cercaram rapidamente. Michael nem se virou. Ele agarrou o pulso de um deles e o arremessou, fazendo o primeiro segurança voar uns dois metros para trás.
Os outros avançaram juntos. Ele chutou um na lateral do joelho e, em seguida, torceu o pulso de outro para trás até ficar num ângulo impossível.
Em menos de dez segundos, os cinco seguranças estavam no chão, gemendo de dor.
O corredor ficou num silêncio mortal.
Michael caminhou até Audrey e ergueu uma sobrancelha para ela. “E aí? Maneiro, né? Tipo o Bruce Lee?”
Então ele se virou para Claire; os olhos ficaram gelados na mesma hora, embora aquele meio sorriso ainda estivesse nos lábios.
“Senhora Carter, se eu batesse em mulher, a senhora estaria jogada no chão com eles agora.”
O rosto de Claire empalideceu, os lábios tremendo, assustada demais para dizer qualquer coisa.
Emily correu para o lado de Claire, chorando, e olhou para Audrey com acusação por entre as lágrimas. “Audrey! Como você pode deixar seu irmão machucar as pessoas assim? Olha o que você fez com a mamãe!”
“Isso é um absurdo! Chama a polícia! Eu vou chamar a polícia!” O rosto de Caleb escureceu de ódio quando ele puxou o celular.
Audrey olhou para o irmão recém-descoberto, com uma expressão meio sem saída. Ela apertou a mão dele e disse: “Vamos embora. Não vale a pena perder tempo com gente que não importa.”
A mão dela estava fria, os dedos finos, mas o aperto era firme.
Michael deixou que ela o puxasse enquanto caminhavam pelo corredor silencioso como um túmulo e entravam no elevador.
Pouco antes de as portas se fecharem, Caleb enfim reagiu. “Audrey! Se você sair por aquela porta hoje, nem pense em voltar! A família Carter não vai mais reconhecer você!”
Audrey apertou o botão de fechar.
“Não se preocupe”, a voz dela saiu nítida, carregando um frio de gelar os ossos. “Sou eu que estou rejeitando o lixo da família Carter.”
Eles chegaram ao saguão do térreo, e Audrey imediatamente viu a moto preta estacionada na entrada.
A carenagem tinha linhas limpas, sem enfeites chamativos, e ainda havia marcas de lama nos pneus.
Quem não entendia de moto talvez nem reparasse.
Mas Audrey reconheceu na hora — era uma das apenas vinte motos vendidas no mundo, cada uma uma obra de arte única.
Só aquela moto custava o preço de uma casa em uma área nobre de Washington.
“Essa é a sua moto?” ela se virou para perguntar a Michael.
A família Collins não era para ser pobre, de uma cidadezinha do interior? Como o irmão dela usava roupas de luxo e andava numa moto tão cara?
Michael lhe estendeu um capacete como resposta. “Sobe. Vamos pra casa.”
Audrey colocou o capacete e montou na garupa. A voz fria dela soou abafada pelo equipamento. “Antes eu preciso passar em um lugar.”
“Onde?”
“Você vai saber quando a gente chegar.”
Vendo que a irmã não queria falar mais, Michael não insistiu. Ele montou e ligou o motor.
A moto arrancou, afastando-se do prédio da Carter Corporation. Vinte minutos depois, parou numa entrada lateral da Galeria Nacional de Arte.
Michael tirou o capacete e encarou o prédio imponente, com uma expressão estranha. “O que você está fazendo aqui?”
“Dando oi a um velho amigo.” Audrey desceu e devolveu o capacete a ele. “Talvez eu não tenha outra chance.”
Ela entrou pela porta lateral com uma facilidade de quem já estava acostumada, atravessando um corredor de funcionários.
Michael foi atrás, o olhar passando pelas valiosas reproduções de pinturas nas paredes antes de se fixar na figura esguia à frente, cada vez mais curioso.
Diante da porta do escritório do curador, Audrey ergueu a mão e bateu.
“Pode entrar.”
Ao abrir a porta, encontraram um senhor de cabelos grisalhos e óculos de armação dourada, examinando documentos.
Ele levantou os olhos, viu Audrey, e o rosto se iluminou. Largou os papéis na mesma hora e se levantou. “Mestre Audrey? O que a traz aqui?”
“Diretor Johnson.” Audrey entrou, com um tom educado. “Vim avisar que provavelmente não vou conseguir continuar participando do trabalho de restauração de pinturas a óleo antigas.”
O sorriso do diretor Johnson congelou, e ele franziu a testa. “Por quê? Se você não está satisfeita com a remuneração, a gente pode negociar.”
Ele contornou a mesa, num tom um pouco apressado. “Mestre Audrey, você sabe que existem pouquíssimas pessoas no país capazes de lidar com pinturas a óleo holandesas do século XVII. Você é a melhor entre elas. Se estiver disposta a assumir, diga o que você quiser.”
Parado à porta, Michael arqueou a sobrancelha quase imperceptivelmente.
Restauração de pinturas a óleo antigas? Pinturas holandesas do século XVII?
A irmã dele supostamente era diretora de design na Carter Corporation — ela também tinha essa habilidade?
“Não é isso.” Audrey balançou a cabeça, calma. “Eu provavelmente vou sair de Washington, e não vai ser prático vir aqui com frequência.”
A família Collins ficava numa cidade a centenas de quilômetros de Washington — voltar não seria tão simples.
O rosto do diretor Johnson mostrou pesar. Ele ia dizer mais alguma coisa quando alguém bateu com urgência na porta do escritório.
Um jovem funcionário entrou de supetão, ofegante. “Diretor, o senhor Harrington chegou! Ele trouxe um quadro, disse que é um tesouro nacional, e pediu especificamente que a Mestre Audrey restaurasse. Ele já está na sala de restauração.”
