A Última Cláusula do Bilionário

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Capítulo 6 A Caminhada

Ponto de vista da Amelia

— Pare!

A voz do Reeves cortou a discussão, firme e autoritária de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes.

Nós três viramos para olhar para ele.

— Com todo o respeito, Sr. Sterling, eu ainda não terminei com a Srta. Hart. — Reeves alinhou os papéis com uma precisão deliberada. — E este é o meu escritório. Vou pedir que o senhor e a Srta. Margaret nos deem licença. Qualquer assunto que tenham pode esperar até eu concluir com a minha cliente.

O maxilar do Daniel se contraiu.

— Jonathan...

— Por favor — disse Reeves, num tom que não admitia réplica. — A Srta. Hart e eu ainda temos coisas a finalizar.

Margaret abriu a boca para falar, mas Daniel tocou no cotovelo dela.

— Vamos esperar lá fora.

A porta se fechou atrás deles, e de repente eu consegui respirar de novo.

— Srta. Hart. — A voz do Reeves estava mais suave agora. — Você está bem?

Eu assenti, sem confiar na minha voz.

— Pelo que vale — ele disse, com cuidado — em vinte anos atuando em direito de família, eu nunca vi alguém abrir mão de tanto dinheiro. A maioria das pessoas chamaria isso de burrice.

— A maioria das pessoas não se casou com Daniel Sterling pensando no dinheiro dele. — Eu me levantei, já estendendo a mão para a porta. Quando puxei a porta e a abri, acrescentei: — A maioria das pessoas nem amou ele.

Eu saí antes que ele pudesse responder.


A descida no elevador pareceu eterna; cada um dos quarenta e três andares me levava mais longe da vida que eu conhecia. Meu reflexo nas paredes espelhadas parecia mais magro do que eu lembrava, olheiras escuras marcando meus olhos apesar da maquiagem que a Harper tinha aplicado com tanto cuidado naquela manhã.

O saguão se abriu diante de mim quando as portas do elevador se escancararam, todo em mármore e luxo. Eu já estava quase chegando às portas giratórias quando ouvi.

— A esposa do Sterling era só uma garçonete, né? Não é à toa que não durou.

Eu congelei no meio do passo, meu corpo reagindo antes de a minha mente acompanhar.

Duas mulheres estavam perto do balcão da recepção; as roupas de grife e o cabelo impecável denunciavam que eram secretárias ou assistentes jurídicas de alguém importante. Uma mostrava alguma coisa no celular para a outra, as duas com as cabeças inclinadas, cúmplices, rindo baixinho daquele jeito que algumas mulheres riam quando achavam que ninguém relevante podia ouvi-las.

— Eu ouvi dizer que ela casou com ele depois de derramar vinho nele num evento beneficente — disse a loira, com a voz alta o suficiente para chegar até mim. — Tipo, o quão desesperada você tem que estar pra achar isso romântico em vez de humilhante?

— Ah, por favor. — A morena revirou os olhos, os lábios vermelhos se curvando num sorriso cruel. — Tá escrito “caça-fortuna” na história toda. Deve ter achado que tinha acertado na loteria, fisgado o peixão, garantido a vida.

— Bom, a “loteria” claramente tinha outros planos. — A loira riu de novo, rolando a tela do celular. — Você viu com quem ele anda se encontrando ultimamente? Lydia Crane. Aí sim, é do nível dele. Família tradicional, sofisticada, realmente pertence àquele mundo.

Elas foram embora ainda rindo, as vozes se perdendo no burburinho do saguão, completamente sem noção de que eu estava a poucos metros dali, com as palavras delas batendo no meu peito como golpes de verdade.

Caça-fortuna. Desesperada. Do nível dele.

Minhas mãos tremiam sobre as coxas, e eu as achatei contra o tecido do vestido, me obrigando a respirar apesar da humilhação queimando como ácido na garganta. Era isso que as pessoas pensavam, o que provavelmente sempre tinham pensado por trás daqueles sorrisos educados nos jantares beneficentes dos Sterling. Que eu era uma ninguém que tinha dado sorte por trapalhice e desespero e, previsivelmente, tinha estragado tudo quando a realidade bateu à porta. Que o divórcio do Daniel Sterling era inevitável, natural — a correção de um erro que nunca deveria ter acontecido.

Que eu nunca tinha pertencido ao mundo dele, e todo mundo sabia disso, menos eu.

De repente, o saguão pareceu sufocante, apesar do pé-direito altíssimo e do ar-condicionado caríssimo. Empurrei a porta giratória e saí para a luz da tarde, puxando o ar como se eu tivesse ficado debaixo d’água, como se tivesse esquecido como se respira direito nos três minutos desde que saí do escritório do Reeves.

Do lado de fora do prédio principal, achei que estava quase livre, quando eu vi ele.

Daniel estava ao lado do seu Aston Martin preto, elegante, estacionado bem em frente ao prédio, conversando com Margaret. Ela riu de alguma coisa que ele disse, tocando o braço dele com uma intimidade já conhecida.

Nossos olhos se encontraram à distância.

Por um instante breve, dolorido, eu pensei — eu quis — que ele fosse me reconhecer. Que ele fosse dizer alguma coisa, qualquer coisa.

Mas Daniel virou o rosto de propósito, como se eu fosse uma estranha. Como se eu fosse invisível.

Como se três anos de casamento não significassem absolutamente nada.

Eu obriguei minhas pernas a se moverem, a me levarem para além deles, além do carro, além de tudo.

Meu celular vibrou contra o quadril. Uma mensagem da Harper acendeu a tela.

“Entrevista de emprego marcada pra amanhã. Uma agência pequena de marketing, vaga de entrada. Eu conheço o dono. Você consegue.”

Vaga de entrada aos vinte e sete anos. Recomeçar do zero, sem nada além do diploma do ensino médio e três anos brincando de casinha com um homem que tinha decidido que eu não valia a pena.

Eu respondi com os dedos tremendo: “Obrigada. Por tudo.”

A resposta da Harper veio na hora: “É o que família faz. Ah, e eu comprei roupa pra sua entrevista porque você deixou seu guarda-roupa inteiro naquele penthouse esteril, e a gente não vai vestir tristeza pra entrevista de emprego.”

Apesar de tudo, eu sorri. Foi pequeno e frágil, mas foi de verdade.

Eu comecei a andar sem destino, só me movendo porque ficar parada significava pensar demais no acordo que eu tinha recusado. No dinheiro que poderia ter tornado tudo mais fácil, mas que me faria me sentir infinitamente pior.

No Daniel virando o rosto pra mim como se eu não fosse nada.

A cidade corria ao meu redor com uma indiferença bonita, cheia de gente que não fazia ideia de que o meu mundo tinha acabado de implodir pela segunda vez em menos de uma semana.

Meu celular vibrou de novo. Número desconhecido, texto com formatação profissional.

“Sra. Hart, aqui é Jonathan Reeves. Revisei seus documentos assinados com o Sr. Sterling. Ele pediu que eu a informasse que a senhora está cometendo um erro ao abrir mão dos termos do acordo conforme negociado.”

Eu encarei a mensagem, lendo três vezes. Não era o Daniel entrando em contato, nem sequer uma ligação. Era o advogado dele, passando um recado como se eu fosse uma associada de negócios recebendo um aviso formal.

Ele nem se deu ao trabalho de me dizer pessoalmente que achava que eu estava sendo idiota.

Meus dedos correram pela tela: “Diga ao Sr. Sterling que eu já cometi erros suficientes. Este não é um deles.”

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