Capítulo 5 A assinatura final
POV da Amelia
O escritório de advocacia tinha cheiro de couro e dinheiro velho, um aroma que me lembrava demais o escritório do Daniel. Eu me sentei diante de Jonathan Reeves, o advogado dele, observando enquanto ele organizava os papéis sobre a mesa de mogno com a precisão de quem já tinha feito aquilo mil vezes. O terno dele provavelmente custava mais do que o meu aluguel deste mês, e a arte abstrata nas paredes gritava sucesso numa língua que eu já não falava.
Ele deslizou os documentos pela superfície polida, os dedos bem cuidados sem deixar marcas no papel caro.
— Sra. Sterling, estes documentos detalham os termos do acordo.
— Hart — corrigi baixinho, minha voz quase não atravessando a mesa. — Amelia Hart.
O sorriso dele era profissionalmente solidário, do tipo que advogados treinam no espelho.
— Claro. Srta. Hart. Como a senhora vai ver, o sr. Sterling foi extremamente generoso.
Passei os olhos pelos papéis sem realmente ler, vendo números saltarem como acusações. Seis dígitos por “transtornos”, o carro no meu nome, pensão por três anos, acesso a contas que eu nunca tinha usado. Dinheiro sujo disfarçado de generosidade, embrulhado em juridiquês para parecer razoável.
— Estou recomendando que você negocie por mais — continuou Reeves, recostando-se na cadeira de couro. — Considerando a duração do casamento e a disparidade significativa de bens, você tem direito a muito mais.
— Não. — Coloquei os papéis sobre a mesa com cuidado. — Eu não quero o dinheiro dele.
Reeves piscou duas vezes, a compostura profissional falhando por um instante.
— Srta. Hart, eu entendo que você esteja abalada, mas precisa pensar de forma prática…
— Eu sei exatamente o que eu tenho. — Encarei os olhos dele sem vacilar. — E o que eu não tenho é qualquer vontade de pegar coisas de alguém que claramente acha que eu não mereço.
Peguei a caneta e comecei a assinar, avançando pelas páginas de forma metódica. O cobertura, o carro, as contas, as ações — tudo foi embora com traços deliberados.
Na última página, eu parei.
“Direitos de beneficiária sobre ações da Sterling Holdings, participação de dois por cento, avaliada em quatro vírgula dois milhões de dólares.”
Minha letra estava na margem, de anos atrás, mais jovem e mais esperançosa. Eu tinha transferido tudo para o Daniel no nosso primeiro aniversário de casamento, achando romântico na época.
— Essas ações tecnicamente foram dadas a você — disse Reeves com cuidado. — São suas para manter, totalmente separadas do acordo. O sr. Sterling talvez nem saiba que você ainda as tem.
Quatro vírgula dois milhões de dólares. O suficiente para recomeçar de verdade, para respirar sem ficar ofegante.
Eu assinei a renúncia.
— Srta. Hart, por favor. — Reeves pareceu genuinamente alarmado. — Pelo menos tire alguns dias para pensar…
— Eu já terminei. — Levantei, pegando minha bolsa. — Tem mais alguma coisa que eu precise assinar?
Reeves suspirou.
— Muito bem. Vou dar entrada nisso imediatamente.
Eu inspirei, me preparando para falar…
Então uma batida seca na porta interrompeu.
Reeves parou e virou na direção da porta.
— Entre.
A maçaneta girou, a porta se abriu e eu congelei.
Margaret entrou, e o perfume caro dela preencheu o ambiente antes mesmo dela. Terninho de grife, cabelo impecável, aquele sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Olá, Jonathan — disse ela com suavidade, e o olhar deslizou até mim, devagar, de propósito. — Vejo que você está ocupado com a senhorita caso de caridade.
Minha coluna enrijeceu.
— Meu nome é Amelia. Não “caso de caridade”.
O sorriso de Margaret se alargou, afiado e cheio de certeza.
— É mesmo? Eu poderia jurar que era “a garçonete desesperada que derramou vinho no homem certo”.
A lembrança me acertou como um golpe — um baile beneficente, a mão do Daniel quente na minha cintura antes de ele ser puxado por conversas de negócios e por gente que vivia grudada nele, me deixando sozinha perto da sacada. Foi quando Margaret se aproximou, sem ser chamada e cruel.
— Eu sempre me perguntei o que o Daniel viu em você. Você nem está à altura dele.
— Senhora Margaret — disse Reeves, com firmeza, levantando-se e me trazendo de volta ao presente. — Eu não aceito insultos no meu escritório. No momento, estou atendendo a Srta. Hart, então, se a senhora pudesse, por favor…
— Ah, relaxa, Jonathan. — Margaret fez um gesto displicente com a mão. — Só estou dizendo fatos. Ela era garçonete, não era? Servindo champanhe em eventos em que nunca poderia entrar como convidada. — Ela se virou de vez para mim. — Você fez bem o seu papel, eu admito. Mas todo mundo sabia que não ia durar. Você sempre foi temporária.
O calor subiu para o meu rosto.
— Saia daqui.
— Como é? — As sobrancelhas de Margaret se ergueram.
— Eu disse pra sair. — Minha voz tremeu, mas eu me mantive firme. — Você não vai ficar aqui e…
— E o quê? — Margaret deu um passo à frente, a voz descendo para algo venenoso. — Te dizer a verdade? Que todo mundo naqueles bailes cochichava sobre você? Que a gente ficava se perguntando por quanto tempo o Daniel ia continuar fingindo que você pertencia àquele mundo?
— Chega. — Reeves contornou a mesa.
Mas a porta se abriu de novo.
Daniel estava no batente, a presença dele ocupando o espaço como sempre. O terno impecável, a expressão indecifrável enquanto os olhos iam de Margaret até mim.
— Daniel. — A voz de Margaret amaciou na hora, transformada. — Que timing perfeito. Eu só estava…
— O que está acontecendo aqui? — A voz dele era calma, controlada, a mesma que ele usava em reunião de diretoria.
— Sua ex-esposa está sendo irracional — disse Margaret, suave, tocando de leve no braço dele. — Eu só fiz uma observação e ela ficou histérica.
— Histérica? — A palavra explodiu de mim. — Você me chamou de caso de caridade! Você…
— Margaret. — A voz de Daniel cortou a minha, e eu esperei — esperei que ele me defendesse, que dissesse a ela que tinha passado dos limites, que mostrasse nem que fosse um fiapo do homem com quem eu me casei.
— Você devia pedir desculpas.
O alívio começou a me inundar até eu perceber que ele estava olhando para mim.
— O quê? — eu sussurrei.
— Margaret veio aqui a trabalho. — O tom dele era medido, razoável, completamente distante. — Seja lá que história vocês duas tenham, não precisa fazer cena no escritório do Jonathan.
Eu encarei Daniel, meu coração se partindo em tempo real.
— Ela me insultou. Ela me chamou de…
— Eu ouvi o que ela disse. — O maxilar dele se contraiu de leve. — Mas você está exagerando. A Margaret sempre foi direta. Não é pessoal.
— Não é pessoal? — Minha voz falhou. — Ela me chamou de caso de caridade, Daniel. Disse que eu nunca pertenci ao seu mundo, que todo mundo sabia que eu era temporária, e você está me mandando “pedir desculpas”?
O sorriso de Margaret foi sutil, mas inconfundível, a vitória dançando nos olhos dela.
Daniel suspirou, um som pesado de impaciência.
— Amelia, você está sendo dramática. A Margaret é uma velha amiga da família e uma parceira de negócios. Eu agradeceria se você pudesse ser civilizada.
A sala girou. Tudo girou.
Meu mundo. O Daniel acabou de defender outra mulher que me insultou? Depois de tudo — depois de três anos de casamento, depois de eu ter amado ele com tudo o que eu tinha — ele estava ali, naquele escritório, olhando para mim como se eu não fosse nada. Como se eu nunca tivesse sido nada.
— Dramática — repeti, entorpecida.
— Sim. — A expressão de Daniel não mudou. — Agora, se você já terminou aqui, o Jonathan e eu temos assuntos para discutir.
