A Última Cláusula do Bilionário

Download <A Última Cláusula do Bilionári...> grátis!

BAIXAR

Capítulo 4 A chave para lugar nenhum

POV da Amelia

Eu estava parada na calçada, do lado de fora de um prédio que parecia se sustentar à base de tinta e oração.

A chave do kitnet parecia estranha na minha mão — metal gelado, bordas afiadas, pertencendo a uma vida que eu não reconhecia como minha. A chuva de mais cedo ainda formava poças no asfalto rachado, refletindo os letreiros de neon do mercadinho da esquina ao lado.

Era isso. Meu novo começo. Eu não conseguia me obrigar a entrar.

Uma buzina estourou atrás de mim. Eu me sobressaltei, apertando mais o puxador da mala. As pessoas passavam depressa — casais rindo, gente de terno no celular, adolescentes de fone — todos pertencendo à cidade de um jeito que, de repente, eu não pertencia.

Três anos na cobertura do Daniel tinham me feito esquecer como era o normal.

Meu celular vibrou quando o nome da Harper apareceu na tela.

— Nem pense em voltar praquele desgraçado — a Harper disse antes mesmo de eu falar. — Eu tô a três quarteirões daí, com comida pra viagem suficiente pra alimentar um batalhão e um vinho que é caro demais pro meu salário. Interfona pra eu subir.

— Eu ainda não entrei — admiti, com a voz pequena.

— Ai, meu bem. — O tom da Harper mudou de feroz pra gentil num piscar de olhos. — Eu tô indo. Não sai daí.

A ligação caiu. Eu encarei o celular, depois a entrada do prédio, depois a mala com tudo o que eu tinha no mundo. Como foi que eu vim parar aqui?

A resposta veio em flashes — a morte repentina do meu pai quando eu tinha dezenove, a falência que veio depois, a depressão da minha mãe, quatro anos em modo sobrevivência até o Daniel aparecer como um milagre. Eu estava me afogando, e ele tinha sido um bote salva-vidas. Só que botes salva-vidas não deviam te empurrar de volta pra água quando você finalmente retomava o fôlego.

Um táxi freou cantando no meio-fio. A Harper praticamente despencou pra fora, com os braços cheios de sacolas, o cabelo curtinho meio bagunçado, equipamento de câmera batendo no quadril.

— Tá, nova regra — a Harper anunciou, marchando direto até mim. — A gente não fica do lado de fora chorando. A gente entra, come as nossas mágoas e planeja vingança. Ou bebe. Provavelmente os dois.

— Eu não tô chorando. — Mas minhas bochechas estavam molhadas, e nós duas sabíamos.

A expressão da Harper amoleceu. Ela largou as sacolas e me puxou pra um abraço forte, com um cheiro familiar.

— Ele é um idiota — a Harper sussurrou no meu cabelo. — Um idiota burro, emocionalmente travado, que não te merece.

— Então por que dói tanto? — Minha voz falhou.

— Porque você amou ele. De verdade, de coração. E isso não é fraqueza, Mia. Nunca foi fraqueza.

A Harper se afastou, pegando a mala com uma mão e meu pulso com a outra.

— Vamos. Deixa eu ver esse lugar. Vai que tem personalidade. “Personalidade” é código pra “chique de cena de crime”, mas a gente trabalha com o que tem.

O apartamento era pior do que eu lembrava.

Um único cômodo que, de algum jeito, servia de quarto, sala e cozinha. Um banheiro do tamanho de um armário. Uma janela que dava direto em outra janela a três metros de distância. As paredes eram bege daquele jeito que sugeria que um dia foram brancas, décadas atrás.

— Tá — a Harper disse, animada demais, colocando as sacolas no balcão minúsculo. — É definitivamente... aconchegante. Bem... minimalista. Tipo, extremamente minimalista. A gente até podia ser mais minimalista, mas aí seria do lado de fora.

Apesar de tudo, eu quase sorri.

A Harper começou a desembrulhar as embalagens: comida tailandesa, chinesa, italiana — como se ela não soubesse que culinária consertava um coração partido e tivesse trazido todas. Depois vieram as garrafas de vinho, taças de verdade, absurdamente chiques naquele espaço.

— Senta — a Harper ordenou, apontando pro futon que eu suspeitava que também virava a cama. — Come. Fala. Ou não fala. Mas come.

Sentei enquanto o futon rangia de um jeito ameaçador.

Harper me entregou uma taça de vinho — tinto, encorpado, provavelmente mais caro do que uma semana de compras no mercado. “A novos começos e aos babacas que ficaram pra trás.”

Encostei a taça na dela automaticamente, mas não bebi.

“Ele disse que eu estava atrapalhando a vida dele”, falei baixo, encarando o vinho. “Que o casamento foi um erro. Que ele nem tinha certeza se algum dia me amou.”

“E você acreditou nele?”

“Eu assinei os papéis, não assinei?”

A mandíbula da Harper se contraiu. “Isso não quer dizer que você acreditou. Quer dizer que você amou ele o bastante pra deixar ele ir. Tem diferença.”

Eu finalmente levantei o olhar. “Tem mesmo?”

Ficamos em silêncio, comendo pad thai morno direto das embalagens, porque o apartamento ainda não tinha pratos de verdade. O absurdo não passou despercebido por nenhuma de nós — três anos atrás, eu estava planejando cardápios com chefs particulares. Agora eu comia delivery num futon sustentado na base da esperança.

“E agora?” Harper perguntou, depois de um tempo.

“Eu não sei.” Deixei a embalagem de lado, sem apetite. “Arrumar um emprego, eu acho. Descobrir como voltar a ser eu. Eu nem sei mais quem é essa pessoa.”

“É a mulher que entrava escondida na biblioteca do campus depois do horário pra desenhar na seção de arquitetura. Que me fazia rir até chorar com reality show horroroso. Que tinha opiniões, sonhos e uma vida inteira antes de Daniel Sterling decidir que era importante demais pra ter uma conexão humana de verdade.”

Minha garganta apertou. “Essa mulher parece outra pessoa.”

“Então a gente encontra ela de novo.” Harper estendeu a mão e apertou a minha. “Um dia de cada vez. Começando por sobreviver hoje.”

As horas se misturaram — vinho, comida, Harper narrando sem parar cada perfil horrível de aplicativo de namoro que ela tinha visto. Em algum momento, tentamos montar o futon pra virar cama, o que levou quarenta minutos e quase duas lesões.

“Isso com certeza era mais fácil na faculdade”, Harper resmungou, brigando com uma junta teimosa da estrutura.

“Tudo era mais fácil naquela época.”

À meia-noite, Harper tinha desmaiado na cama recém-montada, roncando baixinho. Eu fiquei na janela, olhando para a cidade, que de repente parecia grande demais e pequena demais ao mesmo tempo.

Meu celular estava no parapeito. Eu disse a mim mesma que não estava esperando ele acender com o nome dele. Disse a mim mesma que não me importava se ele estava acordado, se perguntando se eu tinha chegado em algum lugar seguro. Eu disse a mim mesma um monte de mentiras naquela noite.

Às três da manhã, o celular finalmente vibrou. Meu coração deu um salto, patético e desesperado. Peguei o aparelho, o pulso disparado.

“Documentos financeiros em anexo. Revisar e confirmar recebimento. — Sterling Legal.”

Não era ele. Era o advogado dele.

Os documentos detalhavam o acordo — generoso, calculado, mas frio. Cada bem dividido, cada pertence contabilizado, cada fio do nosso casamento reduzido a itens de planilha e assinaturas. Rolei páginas e mais páginas que colocavam três anos de amor em cifras e partilhas de patrimônio.

No fim, uma observação: “O cliente solicita confirmação do novo endereço para futuras correspondências.” Cliente. Não meu marido. Não Daniel. Nem sequer o nome dele.

Deixei o celular de lado, com as mãos tremendo. Encostei a testa no vidro frio da janela, vendo minha respiração embaçar a superfície.

Em algum lugar do outro lado da cidade, num apartamento de cobertura que antes era casa, Daniel provavelmente já estava dormindo. Ou trabalhando. Ou fazendo o que quer que gente sem coração fizesse depois de destruir alguém que tinha amado.

As luzes da cidade ficaram borradas através das minhas lágrimas, e eu — Amelia Hart, que tinha perdido meu pai, meus sonhos e agora meu casamento — enfim me permiti desabar de um jeito que eu tinha tido medo demais de permitir antes.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo