Capítulo 3 A coisa certa
POV do Daniel
A porta do escritório continuava fechada.
Eu estava sentado atrás da minha escrivaninha de mogno, encarando o líquido âmbar no copo. O uísque desceu queimando, mas não o bastante para apagar o vazio que se instalava no meu peito.
Lógico, eu me lembrei. Isso era lógico.
Eu tinha passado a última hora rodando números no notebook, revisando projeções para a fusão da Crane Enterprises. Os resultados eram impressionantes — expansão de mercado, aumento de receita, posicionamento estratégico que cravaria a Sterling Holdings como a força dominante no mercado imobiliário corporativo. Tudo pelo que eu tinha trabalhado. Tudo o que importava.
Então por que minha cobertura parecia um mausoléu?
Tomei mais um gole e me obriguei a focar na tela. Lydia tinha enviado os termos atualizados do contrato havia uma hora. O e-mail dela era curto, profissional, com uma única linha no final: Ansiosa pela nossa parceria.
Parceria. A palavra pesou mais do que deveria.
Veio um som baixo do corredor — quase inaudível por cima da chuva. Minha mão apertou o copo. Ela ainda estava aqui? Ainda arrumando as coisas?
Não vá lá fora. Em vez disso, tomei mais um gole.
Os números na tela embaçaram. Quarenta e dois por cento de crescimento projetado. Aquisição estratégica das propriedades de Westfield. Expansão europeia em dezoito meses. Eu tinha construído esse império a partir do legado do meu pai, transformado tudo em algo maior. Algo intocável.
Amelia não entendia aquele mundo. Não conseguia entender a pressão, as batalhas constantes, a necessidade de controle.
A voz de Lydia ecoou na minha cabeça, da nossa reunião na semana passada. “Ela está te amolecendo, Daniel. Quando foi a última vez que você fechou um negócio sem ficar se questionando?”
Eu tinha querido rebater. Queria defender a Amelia. Mas as palavras morreram na minha garganta, porque Lydia estava certa.
Três anos atrás, eu teria esmagado a aquisição da Westfield sem hesitar. Agora eu me pegava levando em conta o bem-estar dos funcionários, o impacto na comunidade, a sustentabilidade a longo prazo, acima do lucro imediato. A influência de Amelia, se infiltrando nas minhas decisões como água passando por rachaduras.
“Você mudou”, Lydia continuou, os lábios vermelhos se curvando em algo entre preocupação e satisfação. “Lembre de quem você era antes dela. Lembre do que você é capaz de fazer.”
Eu lembrava. Eu lembrava de ter vinte e cinco anos e ser implacável, sem estar preso a sentimentalismo. Eu lembrava de Lydia me deixando por uma proposta melhor, me ensinando a lição mais valiosa da minha vida: amor era uma responsabilidade. Um risco.
Aí Amelia tinha sorridido para mim do outro lado de um gala beneficente, com mancha de vinho e um pedido de desculpas no rosto, e eu tinha esquecido tudo o que havia aprendido.
Erro. Tudo aquilo tinha sido um erro.
Agora eu ouvia passos — leves, hesitantes. Se movendo pelo corredor. Se afastando de mim.
Meu maxilar travou. Eu não me mexi.
O acordo com a Crane exigia foco. Lydia tinha deixado isso claro. “Eu preciso saber que você está cem por cento nisso, Daniel. Sem distrações. Sem a cabeça dividida. Você consegue me dar isso?”
Eu tinha dito que sim. Fiz minha escolha. Assinei os papéis.
Outro som — as rodinhas da mala no mármore. Ela estava indo embora.
Ótimo. Atualizei a planilha, vendo os números recalcularem. É isso que precisa acontecer.
Mas meus olhos desviaram para o canto da mesa, onde um livro jazia esquecido. Jane Eyre. A Amelia tinha lido três meses antes; tinha tentado me contar sobre ele durante o jantar. Eu estava no celular, respondendo e-mails, ouvindo pela metade.
— É sobre uma mulher que se recusa a abrir mão de si mesma por amor — ela tinha dito, baixinho. — Mesmo quando isso parte o coração dela.
Eu tinha levantado os olhos por um instante.
— Parece pouco prático.
Ela sorriu — aquele sorriso triste, pequeno, ao qual eu tinha me acostumado.
— Talvez. Ou talvez seja coragem.
Agora eu peguei o livro, com as páginas gastas. Um trecho estava sublinhado a lápis: “Eu sempre preferiria ser feliz a ser digna.”
Alguma coisa se revirou no meu peito. Larguei o livro depressa, esticando a mão para o meu uísque.
A porta da frente abriu. Depois fechou.
O silêncio que veio em seguida era absoluto.
Eu me levantei de repente, a cadeira arranhando o assoalho de madeira. Fui até a janela. A chuva escorria pelo vidro, borrando as luzes da cidade lá embaixo. Em algum lugar ali, a Amelia estava entrando num carro. Indo embora. Recomeçando.
Sem mim.
Era isso que você queria, eu disse a mim mesmo. Controle. Clareza. Sem complicações.
Meu celular vibrou em cima da mesa.
Eu me virei, encarando a tela. Uma mensagem da Lydia: “Você fez a coisa certa. Te vejo amanhã.”
Peguei o celular, o polegar pairando sobre o teclado. A coisa certa. Sim. Claro.
Mas a outra mão ainda apertava o copo de uísque com tanta força que os nós dos meus dedos tinham ficado brancos.
Eu respondi: “Até amanhã.”
A mensagem foi enviada. A tela apagou.
E, no reflexo, eu vi um homem que mal reconheci — sozinho numa cobertura vazia, cercado por tudo o que tinha construído e por nada do que importava.
Virei o uísque num gole longo.
A chuva continuou caindo.
O celular vibrou de novo.
Mas, dessa vez, não era mensagem. Era uma notificação — um lembrete de calendário que eu tinha esquecido de apagar: reserva do jantar de aniversário da Amelia, 19h.
Isso era amanhã.
Fiquei olhando para a tela, o peito apertando de repente. Amanhã. Os vinte e oito anos dela. O aniversário que eu tinha prometido fazer ser especial depois de ter perdido os dois últimos.
O celular escorregou da minha mão, batendo na mesa com um estalo.
E, no silêncio da cobertura, eu não ouvi nada além do som da minha própria respiração, da chuva lá fora e do fantasma da voz dela sussurrando: “Eu te amei.”
Meu celular acendeu mais uma vez — outra mensagem da Lydia: “Não esquece. Reunião no café às 8. Temos muito a comemorar.”
Eu olhei para as duas mensagens na tela. Depois para o livro na minha mesa. Depois para o corredor vazio além da porta.
E, pela primeira vez em três anos, eu me perguntei se não tinha acabado de cometer o maior erro da minha vida.
