Capítulo 2 O peso de tudo o que foi deixado para trás
POV da Amelia
Eu estava no nosso quarto — no quarto dele agora — encarando a mala aberta em cima da cama.
Três anos de casamento, e tudo o que eu tinha cabia numa única mala.
Minhas mãos se mexiam no automático, dobrando roupas de que eu nem me lembrava de ter comprado. Tons neutros, cortes discretos, nada que chamasse atenção ou desapontasse. Em que momento eu parei de usar cor? Em que momento eu parei de ser eu mesma?
No fim do corredor, a porta do escritório do Daniel continuava fechada. Eu via a luz por baixo dela e conseguia imaginar ele na mesa, já enterrado no trabalho. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu já tivesse sumido.
— Leva o que você precisar — ele tinha dito uma hora antes, a voz seca e distante através da porta. — Vou viajar pelos próximos dias. A cobertura vai ficar vazia.
Tradução: suma antes de eu voltar.
Peguei um suéter da gaveta e senti o cheiro do perfume dele impregnado no tecido. Meu peito se apertou, doendo. Por um instante, quase coloquei de volta — e aí me obriguei a parar. Não. Eu não podia ficar guardando instrumentos de tortura disfarçados de lembranças.
Uma moldura em cima do criado-mudo chamou minha atenção — o dia do nosso casamento. Eu a peguei com as mãos tremendo, encarando a mulher de branco que sorria como se tivesse ganhado na Mega-Sena. Sua idiota, eu pensei. Sua linda, burra idiota.
A lembrança me atingiu sem aviso.
— Você tem certeza disso? — Daniel tinha perguntado na noite anterior ao casamento, deitado ao meu lado num quarto de hotel, os dedos desenhando formas na palma da minha mão. — Casar comigo significa reuniões de diretoria e jantares de negócios. Noites viradas e madrugadas. Nem sempre vai ser fácil.
Eu tinha beijado ele. — Eu tenho certeza de você. O resto é só detalhe.
Ele me puxou para perto, a voz áspera com alguma coisa que soava como alívio. — Eu não mereço você.
— Então passa a vida inteira fazendo por merecer — eu sussurrei de volta, sorrindo.
Mas, em algum ponto do caminho, ele parou de tentar.
Virei a foto de frente para baixo e voltei a arrumar a mala. Um livro que eu estava lendo — abandonado três meses atrás quando Daniel chamou de “bobagem”. Os brincos que minha mãe me deu — sentimentais demais para os eventos de caridade da família Sterling. Um caderno de desenho que eu escondia no fundo do armário, com páginas e páginas de rabiscos que eu tinha medo demais de mostrar para ele.
Provas da mulher que eu costumava ser, enterrada sob o peso de ser a Sra. Sterling.
Meus dedos encostaram em algo macio no fundo da gaveta. Eu puxei. Um vestido vermelho. Seda, com as costas bem decotadas. Eu tinha usado uma vez, dois anos atrás, para surpreender Daniel num jantar. Ele levantou os olhos do celular, fez uma careta e disse que era demais. Chamativo demais. Não era apropriado para uma Sterling.
Eu tinha me trocado antes de sairmos. O vestido ficou escondido desde então.
Agora, eu o ergui, vendo o tecido pegar a luz. Era lindo. Ousado. Nada a ver com a mulher em que eu tinha me transformado. Dobrei com cuidado e coloquei dentro da mala. Talvez eu usasse de novo. Talvez eu lembrasse como era a sensação de ser vista.
O armário guardava mais fantasmas. Um tapete de yoga que eu comprei cheia de boas intenções. Um tênis de corrida que nunca pisou na rua. Um violão no canto, juntando poeira. Eu tinha dito ao Daniel que tocava na época da faculdade. Ele sorriu e disse que era “fofo”, e nunca mais me pediu para tocar para ele.
Eu deixei tudo para trás. Aquilo pertencia a sonhos que eu tinha deixado morrer.
No banheiro, juntei meus itens de higiene. O espelho refletia uma estranha — pele pálida, olhos fundos, o cabelo preso num coque apertado. Quando foi que eu comecei a parecer tão pequena? Tão invisível?
Pensei nas palavras da minha mãe antes do casamento. “Você tem tanta sorte, Amelia. O Daniel Sterling… ele vai cuidar de tudo. Vai cuidar da gente. Só faça ele feliz, meu bem. É só isso que você precisa fazer.”
Eu tinha escutado. Eu tinha acreditado que fazer ele feliz era suficiente. Que significava colocar ele em primeiro lugar. Que significava me encolher para caber no formato que ele queria.
Eu estava tão errada.
Fechei a mala com o zíper e me sentei na beirada da cama, de repente exausta. Meu celular estava ali do meu lado, mudo. Uma parte de mim — a parte patética, desesperada — queria que ele batesse na porta. Que dissesse que tinha cometido um erro. Que lutasse por nós.
Mas Daniel Sterling não cometia erros. Ele tomava decisões.
E eu era o maior arrependimento dele.
O apartamento estava quieto demais. Eu ainda ouvia a chuva caindo lá fora. Ouvia o zumbido da geladeira na cozinha. Ouvia minha própria respiração, curta e irregular. Mas do escritório, nada. Nem um passo. Nem um suspiro. Ele estava me deixando ir sem fazer um som.
Talvez isso fosse pior do que qualquer coisa que ele tivesse dito antes. A completa ausência de luta. De arrependimento. De dúvida.
Eu me levantei, segurando a alça da mala. O apartamento parecia uma caverna ao meu redor, todo de mármore e vidro e um vazio caro. Eu tinha me esforçado tanto para fazer daquilo um lar — flores frescas toda semana, as comidas favoritas dele esperando, a minha presença como um calor constante.
Nada disso tinha importado.
Caminhei pelo corredor, passando por fotos do casamento que amanhã iam sair dali, passando pela cozinha onde a gente tinha dividido exatamente três cafés da manhã juntos em três anos, passando pela sala onde eu tinha esperado incontáveis noites ele chegar.
Parei na ilha da cozinha onde eu tinha assinado minha vida horas atrás. A caneta ainda estava ali. Os papéis tinham sumido. Já arquivados, provavelmente. Daniel era eficiente assim. Ele não deixava pontas soltas.
Lembrei de outro momento naquela cozinha. Seis meses depois do nosso casamento. Eu tinha acordado cedo para fazer o café da manhã dele antes de uma apresentação importante. Panquecas, bacon, café fresquinho. Ele entrou, distraído, pegou uma maçã e foi embora. A comida ficou fria em cima da bancada.
Eu chorei por uma hora. Depois disse a mim mesma que ele só estava ocupado. Que ia melhorar. Que amor era entender.
Mais mentiras que eu contei para mim mesma.
A porta do escritório continuava fechada. Nenhum som vinha lá de dentro.
Eu parei, minha mão pairando perto da madeira. Eu podia bater. Podia tentar mais uma vez. Podia implorar.
Não. Eu tinha assinado os papéis. Eu tinha dado a ele o que ele queria. Eu não ia me humilhar mais.
Abaixei a mão e segui até a porta de entrada. O mármore ecoava a cada passo, anunciando minha partida para paredes que não se importavam.
Na soleira, eu parei. A cobertura se estendia diante de mim — reluzente, perfeita e completamente sem alma. Exatamente como o homem lá dentro.
“Eu te amei”, sussurrei para o vazio, minha voz se partindo na última palavra. “Eu te amei mais do que amei a mim mesma, e esse foi o meu erro.”
As palavras ficaram no ar, sem resposta.
Abri a porta e dei um passo para o corredor. O carpete era macio sob meus pés. Diferente do mármore duro lá dentro. Mais macio. Mais quente. Puxei a mala atrás de mim e caminhei em direção ao elevador.
Eu não olhei para trás.
