3 - Que os jogos comecem
LIRA
A carruagem sacolejou e parou.
Apertei a palma da mão contra o estômago, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim. Quatro dias de estradas esburacadas e noites sem dormir. Quatro dias ensaiando mentiras e decorando detalhes de uma vida que não era minha. Quatro dias fingindo ser outra pessoa.
A preparação de verdade tinha levado mais tempo.
Encontrar roupas no guarda-roupa de Lady Lira que servissem para uma apresentação fora difícil. A maioria dos vestidos estava ultrapassada, desbotada por anos de desuso. Meu irmão juntou cada última moeda para me comprar algumas peças a mais — um manto aqui, um par de luvas ali — e para alugar a carruagem que me trouxe até aqui.
Olhei para o meu vestido.
Verde-escuro. Simples. Nada parecido com os vestidos cintilantes que as outras garotas estariam usando.
Não importa, eu disse a mim mesma. Você não veio para impressioná-las. Você veio para destruí-las.
A porta da carruagem se abriu.
Um lacaio ofereceu a mão.
Eu a aceitei.
E desci para a cova dos leões.
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O pátio era puro caos.
Carruagens se alinhavam pela entrada de paralelepípedos, dezenas delas, cada uma mais elaborada que a anterior. Cavalos batiam as patas e bufavam, o hálito se tornando névoa no ar frio da manhã. Criados passavam apressados com baús e braços cheios de seda, gritando instruções em uma dúzia de sotaques diferentes.
E em todo lugar, em todo lugar, havia garotas.
Damas nobres com vestidos de todas as cores imagináveis, os cabelos presos e perfumados, o rosto pintado com sorrisos cuidadosos e ensaiados. Moviam-se em grupos, cochichando por trás de mãos enluvadas, avaliando umas às outras com olhos que não deixavam nada passar.
Eu era a última.
Minha carruagem tinha sido a mais barata, a menor, a menos impressionante. Eu sentia os olhares das outras garotas deslizando por mim, me descartando antes mesmo de registrarem meu rosto.
Entrei no fim da fila, cuidando para manter a cabeça erguida e a expressão neutra. Ao meu redor, as outras garotas brilhavam como joias.
Lady Vivienne Trevanne foi a primeira a descer, o cabelo escuro caindo como seda, o vestido carmesim bordado a ouro. Os Trevanne eram conhecidos pela força. Que você tenha a força dos Trevanne, o povo dizia.
Ela parecia capaz de partir um homem ao meio com as próprias mãos.
Depois veio Lady Saphira Caelum, prata e azul, o vestido cintilando como luz de estrelas, os pés mal parecendo tocar o chão. Os Caelum tinham telecinese. Diziam que ela uma vez levitou durante um duelo.
Lady Elora Dorne chegou em seguida. Mais suave que as outras. Mais quieta. Seu vestido era amarelo-claro, simples e discreto; o cabelo castanho, preso para trás num penteado quase severo. Mas Elora era mais rica do que todas nós juntas. Os Dorne tinham um dom: vida a partir do solo. As fazendas deles alimentavam mais da metade do reino.
E então…
Lady Calista Harthwell saiu de sua carruagem.
A multidão pareceu aquietar-se.
Ela era bonita — não havia outra palavra. Cabelo como ouro fiado, olhos como geada de inverno, lábios curvados num sorriso que nunca chegava de verdade ao olhar. O vestido era branco, impecável, bordado com fios de prata. Parecia um vestido de noiva.
Ela pisou nos paralelepípedos como se já fossem dela. O olhar varreu o pátio, as outras garotas, os criados, os guardas — e eu a vi calculando.
Eu nunca tinha conhecido Calista Harthwell antes.
Mas eu já sabia: ela era perigosa.
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“Entrem, senhoritas! Entrem, entrem!”
Uma instrutora real estava no alto da escadaria, uma mulher na casa dos cinquenta, de cabelos grisalhos e rosto afilado, com olhos que não deixavam nada passar. Ela bateu palmas uma vez, seco como estalo de chicote.
“Por favor, formem uma fila reta. Vamos recolher primeiro suas cartas lacradas e, depois, vocês poderão entrar no grande salão para a cerimônia de boas-vindas.”
A fila se formou rápido.
Eu tomei meu lugar bem no fim.
Meu coração martelava.
Se a carta não estiver certa, se o lacre estiver errado, se a caligrafia estiver diferente, se qualquer coisa me denunciar…
Eles não iam apenas me expulsar.
Iam me executar.
Fingir ser uma nobre era traição.
Traição significava morte.
Você sabia disso, eu disse a mim mesma. Você sabia o risco. Mesmo assim escolheu.
A fila andava depressa. Uma garota após a outra avançava, entregava a carta e era mandada para dentro. A instrutora mal olhava para a maioria — uma checada rápida no lacre, um aceno, um gesto em direção às portas.
Mas quanto mais eu me aproximava da frente, mais o nó no meu estômago apertava.
Minhas mãos tremiam.
Eu as entrelacei atrás das costas, cravando os dedos nas palmas até a dor me ancorar.
Respira.
Só respira.
Por fim…
Chegou a minha vez.
Eu dei um passo à frente.
O olhar da instrutora varreu meu corpo, uma vez, duas, avaliando. Forcei-me a ficar imóvel sob ele, a manter a expressão suave e receptiva, do jeito que eu imaginava que a verdadeira Lady Lira talvez parecesse.
Nervosa e animada. Um pouco sobrecarregada.
Nada além disso.
— Sua carta, minha lady — disse a instrutora.
Eu a entreguei.
Meus dedos não tremeram.
Boa garota, eu disse a mim mesma. Aguenta firme.
A instrutora pegou a carta. Examinou primeiro o selo, passando o polegar em círculo pela cera carmesim, procurando imperfeições, sinais de violação.
Então rompeu o lacre.
E começou a ler.
Prendi a respiração.
Os segundos se alongaram. Cada um parecia uma hora.
Ela leu devagar. Com cuidado. A testa se franziu de leve, e os lábios se moveram enquanto acompanhava as palavras.
Ela não tinha demorado tanto com nenhuma das outras cartas.
Por que ela está demorando tanto?
Era a caligrafia? A escolha de palavras? A assinatura?
Callum tinha cometido algum erro?
Eu tinha?
O pânico sussurrou no fundo da minha mente.
Desista.
Você foi pega.
Corra antes que te arrastem para as masmorras.
Mas eu não me mexi.
Não conseguia me mexer.
Meus pés estavam fincados nos paralelepípedos.
A instrutora terminou de ler. Dobrou a carta devagar. E ergueu o olhar para mim.
A testa ainda estava franzida. Seus olhos estavam atentos, mais atentos do que um momento antes.
— Lady Lira do Vale? — perguntou.
Uma confusão passou pelo rosto dela.
Eu congelei.
Ela sabe.
Ela sabe.
Ela…
— Bem-vinda à Seleção — disse a instrutora.
Ela gesticulou na direção das portas.
Passei por ela.
Minhas pernas não tremeram.
Mas por dentro, bem lá no fundo, onde ninguém podia ver…
Eu estava me despedaçando.
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O grande salão era ainda mais sufocante do que o pátio. Tinham nos dado um broche de rosa para nos diferenciar de todos os outros nobres.
Lustres de cristal e ouro pendiam do teto abobadado, espalhando luz pelo piso de mármore. Tapeçarias que retratavam a história da linhagem Valemont cobriam as paredes — dragões e reis, batalhas e tratados, séculos de poder destilados em fios tecidos.
As outras garotas já tinham se reunido perto da frente, formando grupinhos de seda, joias e fofocas sussurradas. Eu fiquei no fundo, sozinha, tentando me fazer menor.
Baixe a cabeça, eu disse a mim mesma. Não chame atenção. Não…
As portas na extremidade oposta do salão se abriram.
A voz de um arauto ecoou:
— Apresentando Sua Alteza Real, o Príncipe Herdeiro Cassian Valemont, Herdeiro do Trono do Dragão.
A sala ficou em silêncio.
E então eu o vi.
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Ele andava como se o mundo lhe pertencesse.
Não com arrogância, não do jeito que Calista atravessara o pátio, reivindicando tudo o que os olhos tocavam. Diferente. Ele andava como se o mundo tivesse sido colocado aos seus pés, querendo ele ou não, e ele simplesmente… aceitara.
O Príncipe Herdeiro Cassian.
O homem cujo pai destruíra minha família.
O homem que eu tinha jurado destruir.
Ele era mais alto do que eu esperava. Ombros largos, cabelo escuro caindo sobre a testa em ondas descuidadas, como se tivesse passado os dedos por ali vezes demais. O maxilar era marcado, sombreado pelo menor vestígio de barba por fazer; os lábios, cheios e sedutores. Os olhos… eram lindos.
Seus olhos eram da cor de safira.
Um azul de brilho espantoso, vívido e intenso, que parecia brilhar na penumbra do salão. Eles percorreram o ambiente, os grupinhos de garotas, os cortesãos curvados, os criados espremidos junto às paredes — e eu senti quando pousaram em mim.
Por uma batida do coração, duas, e depois três.
O olhar dele sustentou o meu.
Eu deveria ter desviado. Deveria ter baixado os olhos, feito uma reverência, fingido ser a nobre dócil e grata que eu estava fingindo ser.
Mas eu não consegui.
Porque olhar para ele, olhar de verdade — isso fez alguma coisa se retorcer no meu peito. Ódio, talvez. Ou algo pior.
É este o homem, pensei. O filho do homem que matou meu pai.
O herdeiro do trono que destruiu minha família.
Ele era meu inimigo.
Mas também era…
Lindo. A palavra veio à tona antes que eu pudesse impedi-la. Não bonito. Não delicado. Lindo do jeito que uma tempestade é linda. Imprevisível. Capaz de destruir tudo no seu caminho.
O casaco era preto, ajustado, bordado com fios prateados que captavam a luz das tochas. A gola era alta, quase severa, e emoldurava o rosto como uma pintura. A mão dele… Eu reparei nas mãos: grandes, dedos longos, nós dos dedos marcados por cicatrizes.
Mãos de lutador, pensei. Ele já matou gente com essas mãos.
Talvez até gente como meu pai.
O olhar dele seguiu adiante.
Passou por mim como se eu não fosse nada.
E eu senti… raiva.
Como ele ousa olhar para mim como se eu não fosse nada?
Como ele ousa…
