1 - O Dragão é escolhido
PRÓLOGO: O Vínculo
Quatrocentos anos atrás.
A Montanha Oca.
VEYRAXIS.
As correntes eram feitas de obsidiana e tristeza.
Eu me lembro de como elas pareciam ao toque, frias contra minhas escamas, mais pesadas do que qualquer montanha, forjadas de uma magia que não tinha o direito de existir. Os humanos chamavam aquilo de aço de fogo de dragão. Eles acreditavam que era a única coisa forte o bastante para nos segurar.
Idiotas.
A única coisa forte o bastante para nos manter no chão era o amor. E eles já tinham envenenado isso fazia tempo.
— Baixem ela!
A voz era de um rei. Eu nunca me dei ao trabalho de aprender o nome dele, mas ele era da infame família Valemont. A linhagem que tenta controlar a nossa espécie há séculos. Depois do primeiro século, todos eles se confundiam: a mesma ganância, o mesmo medo, a mesma fome desesperada por um poder que nunca seriam capazes de possuir de verdade.
Minhas asas estavam amarradas. Minhas garras, acorrentadas. Meu fogo — meu fogo belo e terrível — sufocado sob camadas de encantamento que eu sentia pressionarem meus pulmões, como um afogamento.
Mas eu não estava morta.
Esse foi o erro deles.
Eles deviam ter me matado.
A caverna se estendia abaixo de mim, interminável e escura. A Montanha Oca, como eles a chamavam. Uma prisão construída dentro dos ossos da terra, selada com feitiços, sangue e os gritos dos meus filhos.
Eu os vi morrer.
Um por um.
Primeiro os filhotes, pequenos, brancos como luar e cheios de poder. Os humanos tinham medo deles. Medo do que eles se tornariam, porque vinham da minha linhagem. Então os mataram antes que pudessem crescer.
Depois os mais velhos. Os que voaram ao meu lado por séculos. Os que confiaram em mim para protegê-los.
Eu ainda conseguia ouvir a voz da minha filha mais velha, ecoando dentro do meu crânio:
Mãe. Mãe, me ajuda. Mãe...
Silêncio.
No fim, sempre silêncio.
— Prendam as correntes!
Eu não lutei.
Isso os surpreendeu. Eles esperavam fúria, fogo, vingança. Esperavam que eu queimasse aquela montanha inteira ao nosso redor, que os levasse comigo para a escuridão.
Mas eu tinha aprendido algo na minha longa vida.
Vingança não era um fogo.
Era uma semente.
E sementes precisam de tempo para crescer.
A última corrente estalou no lugar. O rei deu um passo à frente, o rosto pálido sob a coroa, as mãos tremendo apesar da autoridade.
Ele tinha medo de mim.
Ótimo.
— Veyraxis — disse ele, e a voz ecoou nas paredes de pedra. — Pelo poder investido em mim pelo Conselho dos Dragões e pelo sangue dos antigos reis, eu a condeno ao aprisionamento eterno sob a Montanha Oca. Você não vai voar. Você não vai falar. Você não vai queimar.
Eu ergui a cabeça.
As correntes se retesaram. A magia queimou.
Mesmo assim, eu ergui a cabeça.
E encarei aquele homem.
Não com raiva.
Não com luto.
Com promessa. Uma promessa que eu cumpriria.
— Você vai morrer — eu disse, em voz baixa. — Seus filhos vão morrer. Os filhos dos seus filhos vão morrer. E quando a sua linhagem tiver enfraquecido, e o seu reino tiver virado ruína, e os seus preciosos dragões tiverem esquecido por que fizeram um juramento aos humanos em primeiro lugar...
Eu sorri.
— Eu vou voltar.
O rosto do rei ficou branco.
— Selam a câmara! — ele gritou. — Selam agora!
As pedras se ergueram ao meu redor.
A escuridão me engoliu por inteiro.
E eu esperei.
Quatrocentos anos depois.
O Palácio de Valemont.
PRÍNCIPE HERDEIRO CASSIAN.
A sala do trono estava quente demais.
Sempre estava quente demais.
Eu estava parado aos pés do estrado, com os braços cruzados e o maxilar travado, enquanto a voz do meu pai seguia num tom monótono, falando de dever e legado e do futuro sangrento do reino.
Ao meu lado, meu irmão, o príncipe Evander, permanecia como uma estátua: postura perfeita, autocontrole perfeito, herdeiro perfeito. Ele ficava assim desde que éramos crianças. Eu sempre odiei isso.
— Nossas fontes confirmam que Norwyn está contra nós — disse o rei, a barba grisalha eriçando a cada palavra. — As passagens do norte não são mais seguras. Se a guerra vier...
— Se a guerra vier — interrompi —, nós temos nossos dragões. Eles não.
— Dragões não bastam. Nós não temos nem de longe tantos quanto já tivemos. Principalmente dragões vinculados — meu pai corrigiu, seco. — Taheer está vinculado a você, Cassian. Não ao exército. Não ao reino. A você. E, se você se recusar a montar...
— Eu não me recuso a montar.
— Mas se recusa a fazer qualquer outra coisa.
Silêncio.
Minha mãe estava sentada no trono ao lado dele, as mãos repousadas no colo, a expressão indecifrável. Ela foi indecifrável a minha vida inteira.
— A Seleção da Rainha dos Dragões começa em três semanas — disse a rainha, com suavidade. — Você vai comparecer. Você vai participar. Você vai encontrar uma esposa digna o bastante para se vincular a um dragão. E, ao fim de treze semanas, você estará casado.
Eu ri.
Ri de verdade.
— Treze semanas? Vocês querem que eu escolha uma esposa em treze semanas?
— Nós queremos que você pare de beber e de se enfiar em puteiro pela capital — respondeu minha mãe, sem erguer a voz acima de um murmúrio. — A seleção é uma formalidade. Você sabe tão bem quanto nós que as escolhas já foram feitas. Você já conhece as moças das casas nobres mais prestigiadas, que deveriam ser a sua opção.
— Eu não concordei com nada.
— Você não precisa concordar — rosnou meu pai. — Você é o príncipe herdeiro. Você faz o que se espera de você.
— O que se espera. — Eu senti o gosto da palavra como veneno. — E o que eu espero? E o que eu quero?
— Você não quer nada — disse Evander, baixo.
Eu me virei para encará-lo.
Os olhos azuis dele encontraram os meus, calmos, firmes, indecifráveis de um jeito que me lembrava demais a nossa mãe.
— Você passou os últimos anos fugindo — ele continuou. — Do palácio. Dos seus deveres. Da coroa. De tudo.
— Não é...
— É, sim — Evander cortou. — E você sabe disso. A Seleção da Rainha dos Dragões é uma chance de seguir em frente. De construir alguma coisa. De parar de se esconder.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Eu não estou me escondendo.
— Então prove. — Meu pai se levantou do trono. — Vá à seleção. Escolha uma esposa. Assuma seu lugar como o herdeiro que você sempre foi destinado a ser.
A sala pareceu menor do que um instante antes.
As paredes se fechavam.
A luz das tochas tremeluziu.
E, em algum lugar, no fundo das montanhas, eu podia sentir Taheer se mexendo, antigo e paciente e à espera.
À espera de eu me tornar o homem que eu deveria ser.
— E se eu não quiser isso? — perguntei. Baixo. Sincero.
A expressão do meu pai não mudou.
— Então você deveria ter pensado nisso antes de se vincular a Taheer, o dragão mais poderoso do reino.
