Capítulo 4 Capítulo 4
Ele sorriu. Apenas um traço discreto no canto da boca, mas que fez seu rosto esculpido parecer mais perigoso. Intrigado. Fascinado.
— Vamos conversar mais sobre isso depois. — Disse, com a voz mais baixa do que o necessário.
Susan assentiu. Mas seu coração acelerou, como se já soubesse que aquele depois não seria apenas uma conversa profissional.
A reunião seguiu, mas para Dmitry, nada mais fazia sentido. Tudo era ruído. Tudo era espera.
Aquela mulher havia entrado em sua vida com uma presença que desafiava razão, status, e até a maldita maldição que carregava no sangue.
E agora, o Lycan dentro dele não queria apenas observá-la.
Queria marcá-la.
E ele, por mais que tentasse negar, queria também.
Quando recebeu a notícia de que havia sido contratada, Susan deu pulos de alegria no corredor do pequeno apartamento que dividia com as amigas. Mas agora, diante dele, a euforia cedia espaço a algo mais incômodo. Um receio sutil, difícil de nomear, mas impossível de ignorar. Ela estava chamando atenção. Mais do que pretendia. E isso não era exatamente bom. Não diante de um Lycan, considerando o que ela era.
A sala de reuniões foi se esvaziando aos poucos. O arrastar de cadeiras e o farfalhar de papéis enchiam o ambiente de sons breves, quase apressados. Dmitry permanecia sentado à cabeceira da mesa de vidro, postura impecável, o olhar fixo. Os dedos longos deslizavam, sem pressa, pelo apoio da poltrona de couro. Seus olhos azuis, tão frios quanto a cidade além das janelas, seguiam os gestos de Susan com atenção indevida.
Ela recolhia o bloco de anotações, ajustava os óculos com um gesto distraído e prendia uma mecha rebelde de cabelo atrás da orelha. A luz da sala realçava os reflexos acobreados dos fios, o contraste com a pele clara e as sardas delicadas. Mas não era só isso.
Era algo mais. Algo que o incomodava por ser... Familiar.
— Senhorita Grigorieva, fique mais um momento. — Sua voz ecoou firme. Não havia gentileza, mas tampouco soou rude.
Susan parou, surpresa, a mão ainda sobre o caderno. Endireitou a postura, sem esconder a hesitação que cruzou por seus olhos.
— Claro, senhor Rurik.
Alguns funcionários se entreolharam antes de sair, como se soubessem que havia algo estranho ali. Quando a porta enfim se fechou e o silêncio caiu sobre a sala, Dmitry levantou-se com calma. Suas mãos foram aos bolsos da calça escura enquanto caminhava até a ampla janela.
As luzes de Moscou piscavam lá fora, indiferentes à inquietação que crescia dentro dele.
Ele a sentia.
O cheiro dela.
A pulsação acelerada.
A tensão contida em cada músculo.
Susan permaneceu de pé, próxima à cadeira onde estivera, segurando o bloco contra o corpo como se aquilo fosse um escudo. A tentativa de manter a postura profissional era evidente. Admirável. Quase comovente.
— Sobre a campanha. — Dmitry começou, sem se virar. Sua voz estava controlada, neutra. — Você trouxe observações interessantes hoje. Gostaria de ouvir mais... Entender sua visão com clareza.
"Mentiroso." A voz do Lycan soou baixa, irônica, arrastando-se em sua mente como fumaça. "Você só quer ver se ela sente. Se a conexão é real. Admita, você quer que ela reaja."
Ele ignorou. Ou tentou.
Virou-se devagar, e seu olhar encontrou o dela.
Susan não recuou. Havia algo medo, sim, mas também determinação.
— Acredito que a Rurik Motors possui uma identidade forte baseada em tradição e excelência, senhor Rurik. — Ela começou, com mais firmeza do que ele esperava. — Mas vejo espaço para explorar a emoção por trás disso. A experiência de dirigir um carro da Rurik... A liberdade, o poder. Não é só sobre o produto. É sobre como ele faz a pessoa se sentir.
"Ela vê mais do que aparência. Mais do que status." O Lycan sussurrou. "Ela entende."
Dmitry se aproximou devagar. Apenas um passo. Pequeno o suficiente para não parecer uma ameaça. Lento o bastante para observar o impacto. E viu: os dedos dela apertaram o bloco com mais força, o peito subiu em uma respiração contida, e seus olhos vacilaram por um instante antes de voltar a encará-lo.
— Emoção, então. — Ele repetiu. A palavra pareceu estranha em sua boca. — E como sugere que transmitamos isso?
— Campanhas narrativas. — Ela respondeu, com um leve brilho no olhar. — Histórias que mostrem pessoas reais vivendo momentos inesquecíveis com os carros. Não apenas imagens bonitas e frases de impacto. Mas conexões. Experiências. Verdade.
Dmitry a observou em silêncio por alguns segundos. E, pela primeira vez em anos, sentiu o controle escorregar. Não por completo, mas o suficiente para incomodar.
Ela não se curvava. Não tremia. E mesmo que estivesse nervosa, não o olhava como um monstro ou como um homem a ser bajulado.
"Ela é diferente." O Lycan murmurou, quase como reverência. "Ela é nossa."
A respiração de Dmitry pesou. Ele inspirou fundo, buscando estabilidade. Não. Não podia ser. Não tão cedo. Não com ela.
— Essa proposta será avaliada. — Disse, enfim. A voz firme, de volta ao tom profissional. Mas havia uma sombra nos olhos. Um ponto cego crescendo no centro da razão.
Susan franziu o cenho, talvez percebendo a mudança repentina.
— Senhor Rurik...?
Ele piscou, desviando o olhar por um instante.
— Dmitry. — Corrigiu, sem pensar.
Ela arregalou um pouco os olhos.
— Perdão?
— Quando estivermos discutindo ideias... me chame pelo nome. — Ele a fitou de novo. — Sem necessidade de formalidades aqui dentro.
Susan hesitou.
— Tudo bem... Dmitry.
Houve um silêncio tenso após aquilo. A forma como seu nome saiu dos lábios dela... Era errada. Perigosa. Porque agora, não era só o cheiro, nem só o som da voz ou a firmeza nos argumentos.
Era ela. E o instinto começava a gritar, mesmo que ele se recusasse a escutar.
“Isso vai ser um problema, alfa.”
O Lycan murmurou em sua mente, a voz baixa, arrastada, como um aviso sussurrado por entre os dentes.
Dmitry não respondeu. Moveu o pulso discretamente, consultando o relógio como quem tentava lembrar-se de que o tempo ainda obedecia a regras. Era uma desculpa. Uma tentativa sutil de puxar o próprio foco de volta à superfície.
