A Pesca do Príncipe - Remasterizado

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A Misericórdia do Alfa

Fiquei sentada, meio atordoada, com a cabeça baixa enquanto os dedos fortes dele massageavam óleos aromáticos na minha pele. Um a um, ele levantou meus braços; o toque era surpreendentemente clínico, mas carregado de um calor que fazia minha pele arrepiar. À medida que a sujeira da cidade ia sendo lavada, ela revelava a palidez de porcelana por baixo.

— Por que você é tão pálida? — murmurou ele, com a voz ecoando no mármore. — A cidade vive inundada de sol, e mesmo assim você parece que passou a vida num porão.

— Eu quase não saio — respondi, dando de ombros de leve, fazendo a água ondular. — Eu passava os dias cuidando da minha avó. Quando não estava com ela, eu me escondia dentro de casa — desenhando, lendo, costurando. Ficando fora de vista.

— Se escondendo dos valentões? — A voz do Príncipe ganhou um fio perigoso, um rosnado baixo vibrando no peito. — Não se preocupe, Elena. Eu vou encontrá-los. E vou garantir que eles se arrependam de cada dedo que encostaram no que pertence à Coroa.

Eu assenti devagar, cansada demais para discutir que eu não era propriedade de ninguém. Ele começou a ensaboar meu cabelo, com movimentos lentos e ritmados. Apesar do medo, um suspiro relaxado escapou dos meus lábios. Meu corpo estava pesado, exausto até os ossos por causa do trauma e da cura mágica rápida. Samba, no entanto, estava bem acordada. Ela se deleitava com a atenção, seus instintos predatórios ronronando ao toque do homem que ela já havia reivindicado como dela.

— Você está se apagando — resmungou o Príncipe, enxaguando a espuma com uma jarra de água morna. — Curar cobra um preço do espírito tanto quanto da carne. Você precisa dormir. Amanhã vai ser um dia cheio.

— Cheio? — gaguejei, piscando por entre os cílios úmidos. — O que vai acontecer?

— A Apresentação — disse ele, com a voz seca. — No dia seguinte à Seleção, fazemos um baile de gala no salão. Exibimos os novos tributos para a corte. Às vezes, se o preço for alto o bastante, as garotas são… transferidas para outras casas.

— Você é nojento! — gritei, me afastando dele com um espirro de água, tomada por uma repulsa súbita e cortante. — A gente não é gado pra ser trocado entre seus amiguinhos “finos”! A gente tem alma!

— Eu disse que vendo as minhas garotas? — O olhar de aço do Príncipe me prendeu no lugar. — Meu irmão, no entanto, é um animal diferente. Um mulherengo do pior tipo. Até o amanhecer, ele já terá provado cada garota que pegou. As que não atendem às “exigências” dele são leiloadas. E se não forem vendidas… elas não voltam pra cidade, Elena. Elas simplesmente somem.

— Ele é um monstro — sibilei, com o estômago revirando. — E você tem o mesmo sangue. Em que você é diferente?

O rosto do Príncipe se fechou, e ele passou a mão pelo maxilar com uma frustração cansada e rígida.

— Eu já terminei de discutir política com uma garota que mal consegue manter os olhos abertos. Saia. Tem uma toalha no canto. Se enrole e me espere perto do arco.

Saí da água com toda a graça que minhas pernas trêmulas permitiam, tentando me cobrir o melhor que dava. Peguei a toalha felpuda, ainda quente, e me enrolei nela como num sudário. Não consegui evitar um olhar rápido para trás quando o Príncipe se ergueu da água. Ele não fez menção de se cobrir; caminhou com a arrogância descarada de um deus, o membro pesado balançando a cada passada poderosa.

— Vou fingir que não vi você me secando com os olhos — disse ele, com um sorriso presunçoso, de lobo. — Vamos, Elena. A não ser que você pretenda dormir com uma toalha molhada.

Eu o segui de volta para o quarto, só para encontrar Davina ainda de pé ao lado da cama, o rosto uma máscara de raiva contida. O Príncipe parou na hora, o corpo se retesando como uma mola.

— O que você ainda está fazendo aqui, Davina? — ele rosnou. — Eu mandei você sair.

— O senhor disse... disse que eu era a escolhida desta noite, Alteza — ela gaguejou, os olhos desviando para mim com puro veneno. — Eu esperei pelo senhor.

— Eu mudei de ideia! — ele grunhiu. Estendeu a mão e passou um braço protetor ao redor dos meus ombros úmidos, puxando-me para o calor dele. — Quando eu disse “fora”, eu quis dizer a Torre Norte. Volte para os alojamentos das criadas. Eu não quero você.

Davina soltou um guincho estrangulado de humilhação e disparou para a porta. A batida ecoou pelo quarto como um tiro.

— Vaca lerda — o Príncipe bufou, sentando-se na beirada da cama enorme. — Elena, venha aqui. Eu vou te secar direito. Meus criados trouxeram roupas limpas; você não precisa se preocupar com a sua modéstia.

Eu dei um passo na direção dele, tremendo quando ele desenrolou a toalha. Ele recostou, lançando um olhar longo e ardente para o meu corpo. O ar frio fez meus mamilos endurecerem, e uma onda de calor atravessou minha pele. Quando eu, por instinto, tentei me cobrir, ele segurou meus pulsos, prendendo-os com cuidado ao lado do meu corpo.

— Não — ele ordenou, baixo. — Olhe para mim. Você tem um corpo lindo, Elena. Nunca mais esconda isso de mim.

Ele começou a me secar com uma delicadeza que não combinava com as palavras, as mãos passando pelas minhas costas e pernas com pressão firme e constante. Quando eu já estava seca, ele pegou uma camisola longa de algodão branco. Era simples, mas o tecido pareceu o paraíso contra minha pele sensível.

— Foi tudo o que conseguiram arranjar de última hora — ele murmurou enquanto eu a vestia. — Mas amanhã eu quero você em seda e veludo. Vou mandar trazer as costureiras para a torre.

— Mas... isso é para camareiras mais antigas — eu sussurrei, confusa. — O senhor disse que eu era uma serva. Destinada aos bordéis.

— Eu disse o que eu disse — ele resmungou, evitando meu olhar. Apontou para o sofá no canto. — Por enquanto, durma. Tem um cobertor no sofá.

Eu me ajeitei no sofá, puxando por cima de mim uma manta grossa de pele. O couro estava gelado, e o quarto virou uma galeria de sombras tremeluzentes conforme o fogo na lareira ia morrendo. Fiquei ali, os dentes batendo no silêncio, até um suspiro pesado escapar da cama enorme do outro lado do quarto.

— Elena — chamou o Príncipe, com a voz irritada, quase sofrida. — Venha para esta cama. Agora.

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