A Torre Norte
Encarei a enfermeira, com as lágrimas embaralhando minha visão num borrão de branco e cinza. Ela sorriu com tristeza, tirando do avental um frasquinho roxo, pequeno.
— Por favor — sussurrei, meus dedos se fechando nos pulsos dela. — Você não pode me mandar pra ele. Ele é um monstro. Eu tenho uma avó... ela é tudo o que eu tenho. Por favor, não deixa ele fazer isso.
— Isso não está nas minhas mãos, criança — ela respondeu, a voz suave, mas firme, enquanto soltava meus dedos um a um. — Desobedecer custa a cabeça neste palácio. Meu único conselho? Não provoque o Alfa. Se renda aos caprichos dele, não faça perguntas, e talvez você sobreviva à noite.
— Eu não vou ser mandada pra um bordel — rosnei por entre as lágrimas. — Eu vou lutar. Vou armar um escândalo que eles nunca vão esquecer.
O olhar da enfermeira ficou clínico e duro.
— Não tem ninguém pra ouvir você gritar aqui dentro, peixinho. Uma atitude dessas só vai garantir que você não veja o amanhecer. Agora, silêncio. Beba.
— O que é isso? Mais veneno? — fuzilei o frasco com os olhos. — A dor já está passando. Minha loba dá conta.
— É um estimulante de medula óssea — ela soltou uma risadinha, desenroscando a tampa. — Sua loba deu conta da carne, mas suas costelas ainda são estilhaços. Isso vai juntar tudo de novo.
Virei o líquido de uma vez. Estava gelado, com gosto de hortelã forte, mas, assim que chegou ao meu estômago, se abriu como um inferno rugindo. Por dentro, parecia que o calor estava me marcando a ferro. A enfermeira assentiu, satisfeita, antes de se virar para o guarda.
— A poção está fazendo efeito. Ser Criston, escolte-a até a Torre Norte. E que a Mãe Lua zele por você, menina.
A dor sumiu enquanto eu caminhava, meu corpo estranhamente leve. Ser Criston me conduziu por escadarias em espiral de pedra polida até chegarmos a uma ponte alta, em arco, ligando duas alas da fortaleza. Lá embaixo, os jardins reais eram uma obra-prima de bancos de granito e roseiras que, à luz da lua, pareciam respingos de tinta derramada.
— O Alfa mora aqui, na Torre Norte — explicou Criston, percebendo minha hesitação. — O Príncipe das Sombras fica ao Sul. O resto é para o conselho e para os tribunais. Você provavelmente nunca vai sair desta torre.
Ele bateu duas vezes num conjunto de portas douradas, enormes. Elas se abriram com um gemido, revelando uma área de estar tão fria quanto opulenta. Vitrais davam para um lago prateado pelo luar, e pesadas cortinas cor de carmim emolduravam o salão como cortinas de teatro. Uma fogueira rugia numa lareira de mármore, lançando sombras longas e dançantes sobre um tapete de peles que parecia, suspeitamente, o resto de um rival derrotado.
Uma porta rangeu, e uma garota loira e esguia saiu, com um sorrisinho de canto nos lábios.
— Eu sou a Davina — ela cantarolou, apoiando a mão com elegância na cintura. — A mais nova criada de cama de Sua Alteza. Foi ele que me escolheu pessoalmente, sabia? Não faço ideia do que ele poderia querer com você, mas ele está esperando. E um Príncipe detesta ficar esperando.
Eu segui a “vaca metida” até o quarto. O ar me faltou. O ambiente era dominado por uma cama enorme de dossel, coberta por seda branca. Deitado ali, meio vestido e emanando um poder assustadoramente casual, estava o Príncipe Alfa.
Desviei o olhar na mesma hora, sentindo o calor conhecido subir pelo meu pescoço. Por dentro, Samba era um vendaval, uivando com um desejo desesperado e primitivo que deixou minhas pernas bambas.
— Davina, traga ela aqui — ordenou o Príncipe, a voz arrastada, preguiçosa e perigosa. Ele não olhou para mim; os olhos estavam presos na loira. — E pare de fazer essa cara feia, garota, ou eu te mando de volta para o alojamento dos serviçais.
Davina agarrou minha mão e me puxou até a beira da cama. Eu encarei as tábuas do assoalho, o coração martelando num ritmo frenético.
— Você se curou. Ótimo — declarou ele, balançando as pernas grossas como troncos para fora da cama. Ele se levantou, imenso, se impondo sobre nós duas. — Eu preciso de um banho. Davina, encha a banheira. Você vai me ajudar.
Davina abriu um sorriso radiante e correu para o banheiro ao lado. Eu fiquei paralisada, consciente demais do fedor de sangue seco e da sujeira da rua grudados na minha pele. De repente, o Príncipe estava atrás de mim. Eu senti o calor do corpo dele antes mesmo de ele me tocar. Ele se inclinou, enfiando o nariz na curva do meu pescoço. Puxou o ar com força — e então recuou como se minha pele tivesse virado ferro em brasa.
— Você fede — rosnou ele, a voz carregada de um nojo estranho. — Não admira que tenham te deixado na lama. Você devia ter vergonha de se chamar de mulher.
Ele foi embora em passadas duras, batendo a porta do banheiro com tanta força que fez as molduras na parede tremerem. Eu desabei no chão, o peso do dia finalmente me quebrando. Solucei com o rosto nas mãos, a injustiça de tudo queimando mais do que a poção. Eu não costumava ser um amontoado de lama e sangue; eu tinha sido espancada, sequestrada e enjaulada, e agora estava sendo ridicularizada pelas marcas disso.
De repente, um rugido ecoou do banheiro.
— SAI! EU NÃO TE QUERO! NÃO ENCOSTA EM MIM!
A porta se escancarou. Davina tropeçou para fora, com o rosto pálido como cera e as roupas desalinhadas. Ela tremia, com lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto olhava para mim em puro terror.
— Ele me expulsou — gaguejou ela, num sussurro quebrado. — Ele... ele só quer você.
