A Pesca do Príncipe - Remasterizado

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A afirmação do Alfa

O Príncipe não apenas andava; ele tomava conta do espaço. Avançou até a beira da minha cama, parando com uma brusquidão que parecia fazer o próprio ar recuar. No começo, nem olhou para mim. Em vez disso, ficou encarando fixamente a parede caiada atrás da minha cabeça, o maxilar trabalhando como se estivesse mastigando vidro.

— Quem fez isso com você? — a voz dele era grave, arrastada e sem emoção, o tipo de tom que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. — Responda com a verdade. Você entende que, como tributo, tecnicamente é propriedade da Coroa? Danificar bens reais é crime grave.

— Eu não sou propriedade — retruquei, seca. A ousadia me custou caro; uma fisgada de dor explodiu nas minhas costelas, embora eu sentisse um calor estranho, coçando por baixo da pele, enquanto Samba começava a juntar o osso de novo. — Não importa quem foi. Já foram embora. E eu não sou X-9.

A cabeça do Príncipe virou num estalo. Os olhos dele, escuros como carvão e girando com um fogo âmbar, me pregaram ao colchão. Uma onda de terror cru, de Alfa, inundou meus sentidos.

— Primeiro — ele rosnou, e o som vibrou nas tábuas do assoalho —, você vai aprender que, quando eu faço uma pergunta, você responde. Direito. Sem o escudo patético dessa sua atitude. Entendeu qual é o seu lugar, garota?

— Sim, senhor — sussurrei, minha coragem evaporando. Baixei o olhar para as minhas mãos trêmulas, me sentindo pequena e idiota sob a sombra gigantesca dele.

— Melhor — ele resmungou, embora a expressão continuasse azeda. — Agora. Seus agressores. Me diga.

— Só... gente da escola — murmurei, submissa. — Eles sempre me odiaram. Eu sou órfã. Não sou nada pra eles.

— Gente da escola? — Ele ignorou meu passado por completo; a mente já estava calculando a logística da vingança. — Já são maiores?

— Fizeram dezoito este mês. Mas não são tributos — acrescentei, com um lampejo de orgulho amargo. — Não são puros. Você não pode encostar neles.

O Príncipe se inclinou sobre o pé da cama, as mãos grandes agarrando a grade até o metal gemer. Um sorriso de predador puxou seus lábios.

— Ah, peixinho, você me subestima. Eu não preciso dos nomes deles saindo dessa sua boquinha bonita. O cheiro deles está em você — impregnado nas fibras desse vestido arruinado. Eu vou rastrear eles antes do amanhecer. Vamos ver como eles gostam de ser tratados como a escória que são.

Engoli em seco, a garganta apertada de horror. Antes que eu conseguisse desviar o olhar, a mão dele disparou. Os dedos grossos prenderam meu queixo, forçando meu rosto para cima.

No instante em que a pele dele encostou na minha, meu cérebro explodiu num show pirotécnico de calor e fome. Eu inspirei o cheiro dele — sândalo, chuva, e algo perigosamente masculino — e senti Samba uivar com uma ferocidade que quase me obrigou a mudar de forma. Eu tinha dezoito anos e nunca tinha mudado; passei anos reprimida, negando minha loba, mas ali, sob o toque dele, ela virou uma ressaca arrebentando contra um quebra-mar que já estava desmoronando.

O rosto do Príncipe se contorceu. Parecia sentir uma dor física horrível. A têmpora dele pulsava, e um rosnado baixo, sofrido, vibrou na garganta enquanto ele me encarava com uma mistura de nojo e fascínio. Ele odiava o que estava sentindo tanto quanto eu.

— Eu consigo sentir o cheiro do lobo em você — ele resmungou, apertando um pouco mais o meu braço. — Por que você não revidou? Um metamorfose comum teria despedaçado aquelas crianças.

— Porque eu não me transformei. E não pretendo me transformar — respondi, encontrando uma faísca do meu antigo fogo. — O sistema imunológico de uma loba não salvou meus pais da Peste Branca. Eu não preciso dela. Eu não a quero.

— Você vai punir a própria alma pela crueldade do destino? Burrice — ele cuspiu, os olhos varrendo meu rosto. — Eu já consigo ver ela agindo. Seus hematomas estão sumindo diante dos meus olhos. Você está jogando fora um dom pelo qual muitos matariam.

— Eu não pedi por esse “dom” — murmurei. — Se eu pudesse arrancar ela de dentro de mim, eu arrancaria.

O rosto do Príncipe se fechou, virando uma máscara de pura fúria.

— Um desperdício de vida. Talvez eu devesse acabar com isso agora mesmo. Se você odeia tanto o nosso mundo, por que eu deixaria você respirar o ar dele?

Eu congelei, o terror escorrendo pelo meu rosto. Olhei para Sor Criston e para a enfermeira, mas eles ficaram imóveis, como estátuas, de cabeça baixa. Ninguém viria me salvar do capricho do Alfa.

— Eu decidi — o Príncipe trovejou, virando-se para o guarda. — Cure-a. Depois, levem-na aos meus aposentos. Eu já tenho criadas de cama suficientes que são mais bonitas e muito mais dispostas do que essa coisa quebrada. Eu não preciso dela na minha cama... mas posso arranjar um uso para uma serva.

Ele fez uma pausa, uma luz cruel dançando nos olhos.

— E se ela falhar nisso, tenho certeza de que o Lobo das Sombras está procurando alguma coisa para caçar.

— Vo... você... você não é o Lobo das Sombras? — gaguejei, confusa.

— Não. Esse é meu irmão.

— Por favor — eu arfava, o aviso anterior da enfermeira ecoando nos meus ouvidos. — Não o Lobo das Sombras. Eu faço qualquer coisa. Só mantenha ele longe de mim.

— Qualquer coisa? — O Príncipe soltou uma risada escura, de deboche. — Ah, por favor. Olha pra você. Você fica vermelha quando eu encosto; você treme quando eu falo. Você é tão dolorosamente inocente que chega a ser quase... engraçadinha. Mas “engraçadinha” é sentença de morte neste Palácio.

Ele esfregou o queixo por fazer, me avaliando como se eu fosse um animal no curral.

— Os bordéis da cidade estão sempre atrás de rostinhos novos, mas você não aguentaria uma hora. Você nem sabe o que fazer consigo mesma, quanto mais com um homem. Talvez... eu devesse mandar você ser treinada.

— Treinada? — sussurrei, o sangue sumindo do meu rosto.

— Sim — ele zombou. — Minhas criadas de cama mais antigas vão te mostrar como as coisas funcionam. Se você der sorte — e for muito bem-comportada — talvez eu até deixe você assistir enquanto eu fodo elas até não sobrar nada. Pode te dar umas ideias.

Meu rosto queimou de uma vergonha tão intensa que achei que eu ia ficar cega. Samba rosnou no fundo da minha mente — não de medo, mas de um ciúme raivoso, territorial, que refletia o meu próprio choque.

— Anda logo — o Príncipe latiu para a enfermeira, já se virando para a porta. — Tire a sujeira dela e tragam-na pro meu quarto. Eu vou estar esperando.

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