A Pesca do Príncipe - Remasterizado

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A Sombra do Pico

A lua pairava como um osso lascado no céu de obsidiana quando, enfim, o cume se rendeu e entregou seus segredos. Lá embaixo, na cidade, o Palácio era um mito ameaçador; mas, de pé diante de seus portões, ele era um titã de pedra. Muros altos, caiados de branco, estavam cobertos por heras pendentes, dando à fortaleza gigantesca um ar enganoso de elegância romântica, quase de casarão de interior.

O cortejo diminuiu o ritmo ao nos aproximarmos dos portões dourados — ornamentados, pesados e silenciosos. Eles se abriram como mandíbulas de um predador, nos convidando para um mundo de riquezas proibidas. Quando minha jaula chacoalhou ao atravessar, os portões bateram com força, fechando-se com um estrondo metálico definitivo. O som ecoou no meu peito; era o som de uma porta trancando a minha vida, a minha avó e a minha liberdade.

O ar de meados de junho era ralo e traiçoeiro naquela altitude, mordendo minha pele exposta com um frio de inverno. Quando as carruagens finalmente deram um solavanco e pararam no pátio central, o silêncio foi imediatamente substituído por um turbilhão de atividade frenética. Guardas e criados derramaram-se pelas portas laterais de madeira, e suas vozes formavam uma sinfonia dissonante de ordens e passos apressados.

Ignorando o fogo nas minhas costelas, arrastei-me para o canto da jaula. Um movimento chamou minha atenção. O Príncipe Dourado descia de sua carruagem, com gestos fluidos e majestosos. Nossos olhares se prenderam, e aquele mesmo calor impossível da praça se acendeu nas minhas veias, fazendo minha respiração falhar. Ele quebrou o contato na mesma hora, virando-se para o homem que o seguira para fora.

O segundo homem era sombra diante da luz do primeiro. Tinha o cabelo preto, na altura dos ombros, selvagem, emoldurado por uma barba grossa e desgrenhada e por sobrancelhas que se encontravam num cenho permanentemente fechado. A armadura dele não era dourada; era feita de escamas negras como breu, que brilhavam como pele de serpente. Tatuagens tribais serpenteavam pelos bíceps inchados quando ele flexionou, um sorriso cruel grudado no rosto.

— Nada mal a colheita deste ano, irmão — ele arrastou, com uma voz áspera, quase uma carícia. — Estou ansioso pra ir passando por todas. Embora eu duvide que muitas cheguem a ver a primavera. — Seus olhos cor de carvão deslizaram até a minha jaula, cintilando com uma fome nauseante. — E a quebrada? Eu fico com ela, se você não quiser esse resto. Qualquer buraco serve, né? Eu faço rápido — ela não vai ver o sol nascer amanhã.

Um terror gelado me inundou. Eu ouvia meu coração martelando contra as costelas, um pássaro preso implorando por fuga.

— Você vai ficar longe daquela — rosnou o Príncipe Dourado, a voz vibrando com autoridade de Alfa. Ele cravou um dedo no peito do irmão. — E vai deixar as minhas escolhas em paz. Isso é uma ordem. Lembre-se de quem usa a coroa agora que o Pai se foi.

— Sim, irmão — o Príncipe Negro abriu um sorriso, os dentes brancos contrastando com a barba. — Mas não se esqueça do testamento da nossa avó. Você escolheu tão poucas este ano... Eu vou estar pronto e esperando pra receber o que, no fim, vai ser meu.

O Príncipe Dourado não discutiu. Virou nos calcanhares e marchou na direção da minha jaula, com uma fúria que fazia o ar vibrar. Agarrou as barras de ferro, os nós dos dedos brancos, e me encarou lá dentro. Um suspiro longo escapou dele, uma mistura de frustração e de alguma coisa que eu não soube nomear. Então ele se voltou para um guarda ali perto, disparando uma ordem que não deixava espaço para hesitação.

— Leve-a para a ala hospitalar. Agora. Quero um relatório completo dos ferimentos dela, e Ser Criston — se você deixar qualquer um encostar um dedo nela, eu arranco a sua cabeça.

— Sim, Alteza! — O guarda prestou continência e começou a destrancar a jaula.

Eu vi o Príncipe se afastar, a armadura dourada pegando a luz das tochas enquanto ele desaparecia no meio da multidão. Uma dor estranha e aguda floresceu no meu peito — uma sensação de perda tão profunda que parecia que meu coração estava se estilhaçando.

— Vamos, querida. Eu não vou te machucar — Ser Criston acalmou. Ele entrou na jaula e me ergueu com uma gentileza surpreendente. — Você está segura agora. Aqui nem todo mundo é monstro, apesar do que você ouviu. O Alfa vai descobrir quem fez isso.

Eu consegui soltar um “obrigada” fraco, rouco, encostando a cabeça no peito dele. Pela primeira vez na minha vida, alguém tinha me chamado de outra coisa que não fosse aberração.

Enquanto ele me carregava pelos corredores grandiosos, iluminados por velas, o horror da Seleção finalmente caiu sobre mim. Eu vi guardas escoltando garotas — tributos enfeitadas, produzidas — para dentro de vários quartos. O ar estava pesado com o som de soluços e com os gritos agudos, apavorantes, de quem entendia o próprio destino. Um a um, as portas se fechavam com um clique, e os gritos se apagavam até virar um silêncio assombrado. Foi então que eu percebi que meus ferimentos eram uma bênção grotesca; eles tinham me comprado tempo.

Ser Criston chutou as portas duplas da enfermaria, abrindo-as de uma vez. Era um cômodo branco, estéril, impregnado do cheiro de ervas e de ferro. Ele me colocou numa cama e assoviou chamando uma enfermeira.

— O que aconteceu? — a enfermeira sussurrou, os olhos se arregalando ao ver meu vestido rasgado e meu rosto machucado. — Nem faz uma hora. O Lobo das Sombras é mesmo tão insaciável assim?

Lobo das Sombras? Meu pulso acelerou. Era ele quem matava as garotas?

— Não foi ele — Ser Criston disse depressa. — Ela foi atacada na cidade. O Alfa mandou curarem ela antes de decidir o destino dela.

A enfermeira me olhou com pena.

— O Alfa não gosta dos brinquedinhos dele quebrados. Ele costuma descartar o que não pode usar. Vamos torcer para ele estar num bom humor.

Antes que eu conseguisse processar a palavra descartar, um estrondo sacudiu o cômodo. As portas da enfermaria bateram nas paredes com tanta força que o chão de pedra tremeu. O Príncipe Alfa estava no batente, os olhos ardendo com uma luz dourada aterrorizante enquanto ele varria as camas com o olhar.

— Cadê ela, porra?!

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