A seleção Bloodmoon
Soltei um suspiro irregular de frustração, arrastando a escova pelo cabelo pela milésima vez — ou pelo menos era o que parecia. Um olhar rápido para o relógio cuco de madeira confirmou o meu medo: quase seis e meia da tarde.
A hora tinha chegado. Hoje à noite, toda virgem de dezoito anos da cidade se reuniria sob a torre do relógio para a Seleção. Para a Família Imperial e seus ministros de alta patente — aqueles que nos desprezavam do palácio no alto da montanha — era uma tradição anual. Para mim? Era uma limpeza.
Todo ano, as “mais puras” e “mais bonitas” eram colhidas. Dependendo da utilidade, viravam criadas, camareiras de cama ou, se fossem realmente azaradas, “membros da Matilha”. No Império da Lua de Sangue, ser membro da Matilha significava ficar atada à linhagem imperial — os lobisomens mais letais que existiam. A maioria das garotas não sobrevivia ao ano. Criadas desobedientes simplesmente sumiam; camareiras de cama eram descartadas como flores murchas assim que os Príncipes se entediavam.
O Palácio não se importava. Na primavera seguinte, sempre havia uma leva nova.
Meu olhar foi para o guarda-roupa. Pendurado lá estava um vestido preto de renda, com um bordado dourado intricado — o uniforme obrigatório da cerimônia deste ano. Na praça da cidade, uma cópia ficava exposta, um símbolo de “honra” que eu via como mortalha. Ser escolhida era uma sentença de morte; ser rejeitada era uma marca de vergonha para o resto da vida. No nosso mundo, se você não fosse escolhida, todo mundo assumia que você já não era mais “pura”.
Eu já era pária muito antes da Seleção. Órfã havia dezessete anos por causa da Peste Branca, eu cresci na sombra da morte dos meus pais. As outras crianças eram cruéis, cochichavam que meus pais tinham pegado a peste de propósito só para fugir do fardo de uma filha feia e fraca.
Olhei para o espelho e vi a garota que eles adoravam odiar: pequena, com pele de porcelana e olhos verdes que brilhavam como garrafas de vidro no sol. Meus lábios eram de um rosa pálido, meu nariz era pequeno e reto. Não importava como eu penteasse meu cabelo castanho-chocolate: os valentões sempre achavam um motivo para atacar.
Uma batida forte sacudiu minha porta. Minha avó entrou arrastando os pés, o cabelo grisalho preso no coque apertado de sempre, o corpo curvado envolto num vestido roxo até o chão. O corpo já estava falhando, mas a mente continuava afiada como uma lâmina serrilhada.
— Vamos, minha peixinha — ela insistiu, a voz falhando de pressa. — Está quase dando sete! Você nem se vestiu ainda!
— Eu não consigo fazer isso, vó — protestei, com a voz tremendo. — Se eu for rejeitada, a vergonha…
— Para com essa besteira — ela cortou, num tom firme, mas sem dureza, segurando minhas mãos. — Aquelas crianças não enxergam a beleza que eu enxergo. E se você não for escolhida? Ótimo. Eu mantenho a minha El aqui do meu lado. Agora, anda! Se os guardas te marcarem como desertora, eles nem vão perder tempo com seleção… vão é arrancar a sua cabeça.
Consegui esboçar um sorriso fraco e enfiei o vestido. Ele vestiu como uma segunda pele. O decote em V profundo e a barra que roçava o meio da minha coxa me faziam parecer uma coisa que eu não era: nobre.
— Não chora, vó — sussurrei, puxando o choro de volta enquanto a abraçava. — Eu volto antes das dez. Palavra.
Dei um beijo na testa dela e saí para o ar cortante da noite. As ruas de paralelepípedo estavam estranhas e silenciosas; a população inteira já tinha migrado para a praça, atraída pela música solene e estrondosa da cerimônia.
Acelerei pelas sombras, o coração martelando contra as costelas. Mas, quando eu me aproximei do arco de pedra que levava à praça, a luz foi bloqueada. Quatro ou cinco figuras escuras saíram da boca de um beco, fechando meu caminho.
— Ora, ora — cantarolou uma voz fina, debochada. Rainie. — Se não é a órfã indo ser rejeitada. Você acha mesmo que a Família Imperial quer lixo?
— Sai da frente, Rainie — eu implorei. — Se eu me atrasar, os guardas…
— A putinha está com medo — Everett rosnou, parando ao lado da namorada. Ele era o motivo de a Rainie estar isenta da Seleção; ele tinha “reivindicado” ela aos dezesseis. No nosso mundo, chamavam eles de Renegados Domados — os que jogavam a própria virtude fora cedo para evitar o alcance do Palácio. — Pra que deixar os Príncipes perderem tempo matando ela? A gente pode fazer isso aqui.
Rainie abaixou o capuz, e o cabelo laranja-fogo dela brilhou sob a luz da lua. Ela sorriu de canto, os olhos azuis cintilando de maldade.
— Você tem razão, amor. Vamos fazer um favor pra todo mundo.
Antes que eu conseguisse gritar, o círculo se fechou. O mundo se dissolveu num borrão de sombras e dor. A última coisa que eu senti foi o impacto estilhaçante dos paralelepípedos gelados e duros contra a minha têmpora — e então a escuridão me engoliu por completo.
