A Obsessão do Traficante

Download <A Obsessão do Traficante> grátis!

BAIXAR

Capítulo 4 O INÍCIO DA FÚRIA

O ar dentro da minha sala era uma mistura asfixiante de fumaça barata, o cheiro metálico da arma em cima da mesa e o suor que brotava da minha pele. Eu estava no meu trono, sentindo o mundo girar devagar por conta da droga que eu insistia em mandar pra dentro, a única coisa que silenciava a porra dos gritos do passado na minha cabeça. A porta foi arrombada sem aviso, e o Terror e o DK entraram como se fossem donos da casa. Aquilo me subiu o sangue de um jeito que a veia do meu pescoço saltou.

— Hoje vocês decidiram me tirar a calma, caralho! Bando de arrombado do carai! — berrei, levantando da cadeira de couro, com a visão embaçada, mas o foco voltado pra destruição. O efeito da droga deixava meus sentidos no limite, qualquer barulho era um gatilho.

— Tu tá chapado em plena luz do dia, Lobo. Essas porra vão te matar, tá ligado? — o DK soltou aquela frase de quem quer dar sermão. Dei um tapa no ar, descartando a ideia. Eu não precisava de conselho de ninguém.

— Tô suave, porra! É a única merda que me deixa em paz e faz eu esquecer aquela vagabunda que acabou com a minha vida, entendeu? — Minha voz saiu um rosnado. Eu precisava daquele entorpecente pra não sair degolando todo mundo.

O Terror deu um passo à frente, meio receoso, o olhar inquieto.

— Pode crer, patrão. A gente foi lá na goma do coroa que tá devendo a nota pra firma, se pá.

— Dá o papo logo, caralho. Cadê a grana que ele me deve? — exigi, a mão batendo na mesa com força bruta, fazendo os copos de uísque saltarem e o vidro trincar.

— É que o bagulho é doido, Lobo. A gente não chegou a falar com o coroa, mas demos de cara com a filha dele. Que mina, cara! Bagulho doido, uma deusa de tão linda que a mina é. Nunca vi nada igual no morro.

— Tá de caó com a minha cara, né? Foram lá pra ver mina e esqueceram de cobrar o desgraçado? Seus viado do carai! — A raiva tomou conta. Eu esperava o dinheiro, não um relatório de beleza. A traição me ensinou que beleza é só capa pra mentira.

— Sem neurose, patrão! A gente foi cobrar, só que a mina disse que o velho tava passando mal. Com certeza o desgraçado tava chapado de cachaça e a gente não quis ser grosso com a mina.

Eu me levantei, a postura agressiva, o instinto de predador falando mais alto. Peguei um baseado que estava no cinzeiro e acendi, tragando fundo enquanto caminhava até ficar a centímetros da cara do Terror.

— Tô nem aí se a porra estava passando mal, caralho! Quando eu pegar esse coroa safado, ele está fudido na minha mão, tá ligado? — Meus olhos fixaram nos dele, transmitindo toda a ameaça do meu mundo. — De grosso aqui é só o meu pau! Vou chegar lá, meter um tiro na cara desse velho desgraçado e da puta da filha que me deve. Morou?

Dei as costas, pegando minha jaqueta.

— Vou meter o pé, tem baile hoje à noite. Quero carne nova. As putas daqui já me deram no saco. Quero minha grana na minha mão até amanhã, se não, eu vou lá e passo os dois no vapo. Pega a visão, porra!

(Narração por Elisa)

O sol do morro batia forte, criando uma claridade insuportável que feria meus olhos enquanto eu tentava me concentrar no caminho de volta para casa. As sacolas, pesadas com o pouco de alimento que conseguimos comprar, cortavam as palmas das minhas mãos, deixando marcas vermelhas. Eu sentia uma inquietação constante no peito, uma preocupação aguda com o estado de saúde do meu pai que parecia não me abandonar um segundo sequer. Minha mente vagava, analisando as possibilidades e as escassas formas de ajudar a quitar as dívidas de nossa residência, quando o barulho ensurdecedor de uma motocicleta cortou o silêncio da rua, aproximando-se com uma velocidade desmedida.

O freio cantou no asfalto com uma ferocidade aterrorizante, um som metálico e estridente que fez meu coração saltar pela boca. O impacto emocional foi tão grande que perdi a firmeza das pernas; as sacolas escorregaram dos meus dedos, espalhando os poucos mantimentos que tínhamos pelo chão poeirento. O desespero de ver o que tínhamos de mais valioso se perder na terra me deixou atordoada, como se a realidade tivesse perdido sua nitidez.

— Oh, por favor, peço desculpas. Eu estava bastante distraída — murmurei, com a voz serena, tentando manter a compostura apesar do choque. A poeira subia ao redor de nós, e eu sentia o medo pulsar nas minhas têmporas.

Um homem desceu da motocicleta. Ele exalava um ar de perigo absoluto, uma fúria que parecia emanar de cada movimento seu. Seus olhos, gélidos e intimidadores, pesaram sobre mim, como se me avaliassem e me achassem indigna de existir ali.

— Você não olha por onde anda, não, caralho? Eu podia ter te atropelado, sua estúpida! — ele gritou, com uma agressividade que me fez recuar instintivamente, meu corpo tremendo diante de tanta brutalidade.

Ele avançou e segurou meu braço. A pressão dos dedos dele contra minha pele foi súbita e aguda, fazendo-me soltar um pequeno gemido de dor. O toque dele queimava, não pela temperatura, mas pela maldade que ali residia.

— Por favor, me desculpe. Eu estava apenas distraída, moço — respondi, lutando contra as lágrimas que insistiam em surgir, embora eu soubesse que mostrar fraqueza diante de um homem tão cruel era um erro. A perversidade contida em cada gesto dele era algo que eu não conseguia processar ou entender.

— Na próxima vez, eu vou passar por cima de você, garota! — ele esbravejou. O desprezo em seu olhar era absoluto, uma negação de qualquer humanidade. Ele me soltou com tal força que quase perdi o equilíbrio, meus pés vacilando na terra seca, e antes que eu pudesse formular mais alguma palavra de clemência, ele acelerou sua máquina, deixando para trás apenas a fumaça tóxica e o eco do terror que se instalava em meu peito.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo