Capítulo 3 O MUNDO QUE ME ESCONDE (Narração por Elisa)
Meu nome é Elisa, e a minha vida é contada dentro das paredes descascadas dessa casa no Morro do Vidigal. Desde que me entendo por gente, sou eu e meu pai contra o resto do mundo. Ele sempre me disse que minha mãe morreu no parto, que foi uma fatalidade, mas toda vez que eu tento cavar um pouco mais, ele fecha a cara e muda de assunto. É como se o nome dela fosse um veneno que ele não quer que eu engula. Eu cresci assim, uma mina tímida, antissocial pra caralho, sem saber o que é beijar um garoto ou ter uma amizade verdadeira. A escola eu terminei, mas faculdade? Nem sonhando. Não ia deixar meu velho se matar de trabalhar pra pagar curso pra mim, sabendo que a gente vive num aperto fudido.
O problema é que o morro é uma terra sem lei, e meu pai trabalha pra esse tal de Lobo. Eu nunca vi esse desgraçado, mas só de ouvir o pessoal do mercado comentar, meu sangue gela. Dizem que o cara é o próprio cão chupando manga, um monstro que trata mulher como se fosse lixo. Já ouvi até história de ele ter dado uma surra na namorada, deixando a bicha estropiada. Deus me livre cruzar com esse homem; pra mim, ele é o capeta em forma de gente.
Eu vivo na minha. Raramente saio, só pra ir no mercado ou na padaria. Meu único refúgio é o meu quintal, onde eu cuido das minhas flores. Ali eu sinto que sou eu mesma, longe da violência e da maldade que dita as regras aqui em cima. Mas ultimamente, meu velho tá diferente. Tá chegando tarde, com bafo de cachaça e um olhar que me dá medo.
O sossego acabou agora pouco. Ouvi um barulho de estilhaço na sala, uns gritos abafados. Corri pra ver e o Pedro, meu pai, tava caído no canto, bêbado de perder a consciência. Ajudei ele a subir no sofá, o cheiro de álcool me embrulhando o estômago.
— Pai, pelo amor de Deus, de novo? O senhor prometeu! — eu disse, sentindo a voz tremer de raiva e desespero.
Ele me olhou com os olhos vermelhos, balbuciando coisas sem sentido.
— Cala a boca, menina... não enche o saco. Bebo pra esquecer o passado, porra.
— Passado? Que passado, pai? O senhor bebe por causa da mamãe, né? Eu também sinto falta dela, mas não me destruo assim!
Ele deu uma risada amarga, balançando a cabeça.
— Você é tão ingênua, Elisa... Aquela mulher não presta. Ela não merece nem o nosso pensamento, muito menos o nosso amor.
Meu mundo parou.
— Como assim? Ela morreu, pai! Por que o senhor fala dela desse jeito? O que ela fez de tão grave?
Ele se levantou num rompante, apontando o dedo pra mim, a voz carregada de ódio.
— Ela morreu e ponto final! Não quero ouvir o nome dessa piranha nessa casa, tá entendendo? Nunca vou perdoar o que ela fez, nunca!
Ele cambaleou pro quarto e eu fiquei ali, paralisada, sentindo que a minha história inteira era uma mentira. Ajudei ele a deitar e fui pra cozinha preparar um café bem forte, tentando acalmar os nervos. Foi quando o portão da frente tremeu com uma batida violenta. Parecia que queriam derrubar a casa. Meu coração disparou no peito. Fui atender e dei de cara com dois marmanjos, cara de poucos amigos, tatuagem pra todo lado e um olhar que dava medo.
— Onde tá o velho, mina? — o que tinha a cara mais fechada, o tal do Terror, disparou.
— Ele tá passando mal, acabou de deitar. O que vocês querem com ele? — minha voz saiu um fio, mas eu tentei manter a postura.
O outro, o DK, me encarou com um sorriso debochado.
— Manda o recado pro teu pai: se ele não pagar a dívida pro Lobo até hoje à noite, o chefe vai vir fazer uma visitinha pessoalmente. E pode ter certeza, a visita do Lobo não é nada agradável, tá ligada?
— Qual é o valor? — perguntei, sentindo as mãos suarem frio.
— Quatro mil reais, princesa. Se não tiver o dinheiro, o patrão vai cobrar de outro jeito. E ele não é nada compreensivo, não. À noite a gente volta.
Eles viraram as costas e desceram o beco. Eu fiquei ali, parada no batente da porta, vendo o escuro engolir aqueles dois. Quatro mil reais. A gente não tinha nem quatrocentos. Eu comecei a chorar ali mesmo, o medo tomando conta de cada poro do meu corpo. O que o meu pai foi fazer? Por que ele trouxe o perigo pra dentro de casa? E agora, o que ia ser de mim quando o monstro viesse cobrar a conta?
