A obsessão do mafioso

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Capítulo 5 Perseguindo um anjo ( nicolas)

Senti uma vontade quase insuportável de puxá‑la para os meus braços, de apertá‑la contra mim com toda a força, como se assim pudesse afastar qualquer medo, qualquer frio .

— Era você mesmo que eu queria encontrar ! digo, com a voz mais suave que consigo,

Ela se vira no mesmo instante, os olhos arregalados de surpresa, e o brilho que neles vejo faz meu coração dar um salto. De perto, ela é ainda mais bela do que eu conseguia imaginar: a pele clara, os cachos dourados que parecem brilhar sob a luz da rua, todo o seu ser transmite uma pureza que contrasta brutalmente com o mundo sujo em que vivo.

Apresento‑me devagar, explico que sou o homem que ela salvou no beco, que devo a ela a minha vida. Mas ela nada diz: permanece imóvel, apenas me fitando, e vejo uma angústia profunda cruzar o seu olhar. Quisera eu ter o poder de ler‑lhe a mente, de saber o que tanto a aflige .

Então faz algo totalmente inesperado: vira‑se e sai correndo como se mil demônios estivessem na sua cola. Corro atrás, chamo‑a para que pare, mas ela é rápida, desvia entre as pessoas e se enfia depressa num táxi que passa por ali. Fico parado no meio da calçada, vendo o veículo afastar‑se até desaparecer na curva, engolido pela noite. Volto ao meu carro, bato a mão no volante com frustração e dirigindo de volta para casa . Gargalho sozinho ainda sem acreditar que ela fugiu.

— Pirou de vez, Nicolas?

Viro‑me depressa e encontro o meu irmão Victor sentado na penumbra da sala, com um copo de uísque na mão.

— Estava me esperando, maninho? Não sabia que sentia tanta saudade assim.

— Nos seus sonhos ! responde ele, seco.

Caminho até ele, arranco o copo da sua mão e levo aos lábios.

— Tem certeza absoluta de que não tem veneno aqui dentro? pergunto, fitando‑o com ironia.

— Se eu quisesse te matar, não perderia tempo com veneno. Não é o meu estilo.

— Talvez não tivesse coragem de fazer você mesmo ! provoco. Talvez tivesse pago um vagabundo qualquer de rua para dar o tiro, não é mesmo?

Ele levanta‑se de um salto, a raiva explodindo‑lhe no rosto, e avança um passo na minha direção.

— Já te disse mil vezes: não tenho nada a ver com o seu atentado!

— Não tenho tanta certeza assim. Reze para que eu nunca encontre uma prova sequer, ou então você estará perdido.

— Entenda de uma vez por todas, Nicolas, diz ele, se eu quisesse te ver morto, não mandaria ninguém. Eu mesmo faria o serviço, com o maior prazer do mundo.

Bebo todo o uísque de uma vez, devagar, sem quebrar o contato visual. Depois levo a mão ao peito, faço uma careta de dor e balanço o corpo como se fosse cair.

— Ai… estou morrendo… não consigo respirar… finjo, quase não segurando o riso.

Uma gargalhada forte escapa‑me do peito: adoro perturbar Victor, ver como ele perde a compostura.

— Você é um completo idiota! rosna ele, saindo da sala pisando duro.

Rio ainda mais, sirvo‑me de outra dose e sigo para o quarto. Jogo‑me na cama, cruzo os braços sob a cabeça e fico ali, olhando para o teto branco, enquanto a imagem dela não sai da minha mente.

De repente, a porta abre‑se devagar. É ela: a bailarina da boate. Veste um roupão leve, está descalça, os pés pequenos tocando o chão sem fazer barulho. Sento‑me de repente, sem saber se estou acordado ou sonhando. Ela para a poucos passos de mim, sustenta o meu olhar e, sem dizer uma única palavra, deixa o roupão escorregar pelos ombros até cair no chão. Fica apenas numa lingerie vermelha, que destaca ainda mais a sua pele clara e as suas formas delicadas.

Tento levantar‑me, tento abraçá‑la, mas ela se esquiva com um movimento suave, empurra‑me de volta para o colchão e começa a dançar bem diante de mim. Os olhos azuis nunca se desviam dos meus; ela se move com uma sensualidade que me deixa tonto, e depois rasteja devagar pela cama, aproximando‑se cada vez mais até ficar por cima do meu corpo.

Acordo ofegante, o lençol encharcado de suor e o coração batendo tão forte que dói no peito. Nunca, em toda a minha vida, fiquei tão obcecado por uma mulher que sequer toquei nos fios de cabelo. Preciso resolver logo essa situação, preciso encontrá‑la de novo ou vou acabar enlouquecendo de vez.

No dia seguinte, acordo cedo, antes mesmo do sol raiar. Saio da casa escoltado pelos meus seguranças mais fiéis e sigo até um galpão afastado, fora da cidade, onde guardamos toneladas de drogas que devem seguir para a Venezuela dentro de três dias. O ar ali cheira a gasolina e poeira, homens carregam caixas e conferem listas em silêncio. Vou até o encarregado, um homem de confiança que trabalha comigo há anos.

— Tudo pronto para o transporte? Nenhuma falha pode acontecer.

— Tudo nos conformes, Diablo ! responde ele, baixando a voz ao usar o meu nome no submundo,.

— Em três dias, tudo estará devidamente acondicionado nos contêineres e embarcando.

— Me avise assim que os navios zarparem. Quero saber no mesmo instante.

— Pode deixar, chefe!

Depois visito vários outros pontos, confero negócios clandestinos, falo com líderes de outros grupos, resolvo conflitos que pareciam sem solução. Só quando a lua já está alta no céu é que consigo voltar para casa. Assim que entro, minha irmã Chloé corre na minha direção e se joga nos meus braços.

— Maninho! Onde você esteve? Não apareceu ontem, não apareceu hoje… fiquei preocupada!

— Cuidando de assuntos que não podem esperar, minha flor respondo, afagando os seus cabelos. Quando cheguei ontem, você dormia profundamente. Hoje, quando saí, ainda estava na cama.

— Mesmo assim… senti muita falta — diz ela, aninhando‑se mais forte.

Chloé é a única pessoa no mundo que merece todo o meu carinho, toda a minha proteção. Por ela seria capaz de destruir tudo e todos.

Naquela noite, enquanto a lua brilhava no céu, eu me deitei na cama e fechei os olhos. A mulher misteriosa estava lá outra vez ,dançando em minha mente, e eu me perguntava se algum dia poderia tocá-la, beijá-la. Mas o submundo do crime não permitia fraquezas.

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