Capítulo 4 Encontro inesperado ( amy)
- Não quis te ofender amiga, só acho que você merece coisa melhor do que ficar dançando para aquele bando de bebados safados!
As palavras de Dafne ainda ecoavam dentro de mim como marteladas. Eu sabia, no fundo, que ela tinha razão. Mas reconhecer isso não diminuía minha irritação. Pelo contrário, parecia que cada sílaba dela cutucava uma ferida aberta. Sem olhar para trás, abandonei o apartamento, descendo as escadas com passos apressados, quase em fuga. Dafne correu atrás, e sua voz ansiosa me alcançou no último degrau.
— Me espere, vou te levar!A viagem até a boate foi envolta em silêncio. O motor do carro rugia baixo, e o som da cidade noturna se misturava ao peso que pairava entre nós. Eu encarava a janela, vendo as luzes borradas pela velocidade,enquanto Dafne mantinha o olhar fixo na estrada. Quando estacionou em frente ao local, antes que eu pudesse abrir a porta, sua mão firme segurou meu braço.
— Já me desculpei, amiga. Não queria te chatear… eu juro!
Suspirei fundo, sentindo o coração apertado. A amizade dela era um presente raro. Eu sempre fora muito sozinha, e minha deficiência tornava ainda mais difícil conseguir amigos. Dafne tinha sido uma exceção luminosa em minha vida. Gesticulei um pedido de desculpas, tentando conter a emoção.
— Me desculpe, amiga. Estou chateada com a vida e estou descontando em você.
— Está bem, eu te entendo.Ela sorriu com ternura, aproximou-se e me beijou na bochecha, acariciando meus cabelos como quem protege algo frágil.
__ Você é maravilhosa, Amy. Nunca duvide disso.
Abracei-a apertado, sentindo o calor daquela amizade como um escudo contra o mundo. Então, respirei fundo e entrei pela porta dos fundos da boate.No camarim improvisado, troquei os jeans por um conjunto sensual. Soltei os cabelos, deixando-os caírem como uma cascata sobre os ombros. Passei batom vermelho vivo e uma maquiagem provocante. Ao me olhar no espelho, não me reconheci. Era como se, ao subir no palco, eu me transformasse em outra mulher: ousada, desejada, poderosa. Fora dele, eu era apenas uma garota ansiosa por aceitação e amor. Céus! Como queria ser amada… não como um objeto, mas como alguém digna de carinho verdadeiro.O dono do bar me anunciou com entusiasmo.Assim que subi no palco, os homens começaram a uivar:
— Angel! Angel!
Angel era meu nome artístico. Diziam que Amy não chamava atenção. A música começou e meus movimentos se tornaram pura sensualidade. Girei em torno da barra, executei acrobacias, e finalizei com o golfinho invertido. As palmas explodiram, misturadas a assobios e gritos. Curvei-me em agradecimento e fui escoltada pelos seguranças até o camarim.De volta ao jeans confortável, limpei a maquiagem com um lenço e saí pela porta dos fundos. O beco escuro me trouxe lembranças amargas. Tremi ao recordar o dia em que encontrei aquele homem baleado. Foi então que uma voz grossa ecoou atrás de mim:
— Era você mesmo que eu queria encontrar!
Virei-me, exasperada fitando um homem imponente de dois metros de de altura, pele bronzeada e sorriso arrebatador. Seus olhos profundos me prenderam como correntes invisíveis.
— Não tenha medo ,sou Montenegro, o homem que você encontrou baleado no beco!
A voz rouca e intensa não deixava dúvidas. Eu lembrava daqueles olhos. Fiquei paralisada, sem reação.
— Você não vai falar comigo? Se está em dúvida, posso provar quem sou!Tentei gesticular, mas minhas mãos tremiam. O nervosismo me dominava. Sem conseguir pensar, a única alternativa foi correr. Corri como se minha vida dependesse disso, com o coração disparado e a sensação de que o passado estava prestes a me alcançar.Mas Montenegro não ficou parado. Seus passos largos ecoaram atrás de mim, cada batida contra o chão soando como um tambor de guerra. O beco parecia se estreitar, as sombras se fechando sobre mim. Eu tropecei em uma caixa velha, quase caí, mas continuei correndo.
— Espere!
A voz dele soou, não como ameaça mas como súplica.
— Não quero te machucar!Meu corpo gritava para fugir, mas minha mente se lembrava da noite em que o encontrei. Sangue escorrendo, olhos desesperados, e eu, mesmo com medo, tentando ajudá-lo. Por que agora, diante dele saudável e imponente, eu tremia ainda mais?
Cheguei ao fim do beco, onde a rua iluminada se abria. Parei ofegante, encostando-me contra a parede. Montenegro surgiu logo atrás, mas não avançou.
Um táxi passava ali levantei a mão e o motorista imediatamente abriu a porta. Entrei, fechando-a com firmeza. O cheiro de couro e gasolina me envolveu. O motorista olhou pelo retrovisor.
— Para onde, moça?
Peguei meu caderno pequeno da bolsa e escrevi rapidamente o endereço de casa, mostrando a ele. O homem assentiu e arrancou.
Enquanto o carro se afastava, olhei pela janela. Montenegro ainda estava parado na entrada do beco, imóvel, como uma estátua. Seus olhos me seguiam até o táxi desaparecer na curva.
