A Noiva Sem Lobo do Rei Alfa Amaldiçoado

Download <A Noiva Sem Lobo do Rei Alfa A...> grátis!

BAIXAR

Capítulo 5 O vestido - O ponto de vista de Amelia

Acordei com o som da porta raspando ao se abrir, o rangido metálico áspero cravando pontas de medo na minha coluna. Queimaduras prateadas gritaram nas minhas costas quando me sentei num solavanco, me arrastando para trás até bater na parede de pedra gelada. Com o cobertor puído apertado contra o peito como um escudo, apertei os olhos para enxergar a silhueta na porta: uma mulher que eu nunca tinha visto, com os braços envolvendo o que parecia ser uma capa de roupa. A pouca luz do quarto no porão pegou em algo brilhante no pulso dela — um relógio, talvez, ou uma pulseira — e por um instante me cegou, enquanto eu tentava entender aquela invasão inesperada.

“Cuidado”, Kaela avisou dentro da minha cabeça, sua presença imediatamente alerta. “Não reabra os cortes.”

A mulher entrou no meu quarto, o nariz enrugando de leve por causa do cheiro de mofo. Ela não era da matilha — pelo menos, não era ninguém que eu reconhecesse. As roupas eram caras, a maquiagem impecável, o cabelo preso num coque liso que falava de um tempo e de um cuidado que eu nunca tive.

“Amelia Lovelace?”, ela perguntou, com uma voz firme e profissional.

Eu assenti, sem confiar na minha voz. Minha garganta ainda estava em carne viva por causa do aperto de Dominic na noite anterior.

“Estou aqui para deixar você limpa e vestida”, ela anunciou, pendurando a capa de roupa num gancho enferrujado que saía da parede — o mesmo que seria para a minha jaqueta, se eu tivesse uma de verdade. “Temos duas horas para deixar você apresentável.”

“Eu não gosto disso”, Kaela rosnou. “Por que mandariam alguém para te arrumar? Que novo tormento eles estão planejando?”

As mesmas perguntas batiam na minha cabeça enquanto eu via a mulher abrir o zíper da capa. Lá dentro havia algo azul-escuro e sedoso, que capturava a luz fraca de um jeito que nada do que eu tinha jamais capturou.

“Por quê?”, eu finalmente consegui dizer; a palavra saiu rouca. Limpei a garganta e tentei de novo. “Por que estão me arrumando?”

A mulher deu de ombros, sem sequer olhar para mim enquanto avaliava o vestido. “Eu não sei. Ordens do Alfa e da Luna. Eu só vou onde mandam e faço o que me pagam.” Então ela se virou para mim, os olhos varrendo minha figura encolhida com um distanciamento clínico. “Você precisa tomar um banho. Você consegue andar ou vou ter que te ajudar?”

O orgulho me fez endireitar, apesar da dor ardente nas costas. “Eu consigo andar.”

“Não consegue, não”, Kaela retrucou. “Você mal consegue ficar sentada direita.”

Eu a ignorei, afastando o cobertor e jogando as pernas para fora do colchão. O movimento puxou os cortes nas minhas costas, e eu mordi o lábio para não gritar. A regata em que eu tinha dormido estava grudada na pele com sangue seco.

“O que aconteceu com você?”, a mulher perguntou, o tom profissional falhando um pouco quando ela reparou no estado das minhas costas.

— Faz diferença? — rebati, com a voz reta.

Ela comprimiu os lábios e depois balançou a cabeça.

— Acho que não. Vamos, a gente vai te deixar apresentável.

No porão havia um único chuveiro coletivo para todos os empregados que moravam ali — um box encardido, com água eternamente morna e azulejos rachados. A mulher me acompanhou até lá, carregando uma sacola de coisas que eu nem tinha reparado antes. No banheirinho apertado, ela me entregou um frasco de sabonete líquido que parecia caro.

— Usa isso — ela orientou. — Vai ajudar nos cortes e disfarçar qualquer… cheiro que tenha ficado.

Peguei o frasco, confusa com aquele luxo inesperado.

— Eu não entendo o que está acontecendo.

— Nem eu, querida — disse ela, a voz amolecendo um pouco. — Mas quanto mais rápido você se limpar, mais rápido a gente descobre. Eu vou esperar lá fora. Chama se precisar de ajuda.

Sozinha no box, tirei a regata destruída, fazendo careta quando o tecido desgrudou dos ferimentos. A água me atingiu como agulhas minúsculas; cada gota era uma tortura nova em cima das minhas queimaduras de prata. Mordi o lábio até sentir gosto de sangue, me recusando a soltar qualquer som que pudesse atravessar aquelas paredes finas.

“Porra de prata”, Kaela rosnou, quando eu passei o sabonete com cuidado. “Um dia eu vou arrancar a garganta de todo mundo que já encostou isso em você.”

— Você não pode — sussurrei, enquanto a água levava minhas lágrimas silenciosas. — Você sabe que não pode.

“Eu vou”, ela insistiu. “Quando eu descobrir como mudar de forma, a primeira coisa que eu vou fazer é caçar o Dominic e—”

— Para — pedi, quase implorando. — Por favor. Eu não consigo… não hoje. Hoje eu não tenho força pra fantasia de vingança.

A água rodopiava rosada aos meus pés, conforme o sangue seco ia embora. O sabonete cheirava a algo de outro mundo — lavanda e baunilha, limpo e feminino. Eu nem lembrava a última vez que tinha usado alguma coisa que não fosse aquele sabão industrial agressivo, do tipo que deixa a pele repuxando, ardida.

Quando saí do banho, enrolada numa toalha rala, a mulher estava esperando com um kit de primeiros socorros.

— Vira de costas — ela disse, com a voz profissional de novo. — Esses cortes precisam de curativo.

Obedeci no automático, cansada demais para discutir. As mãos dela eram delicadas quando passou algum tipo de pomada nas minhas costas. Ardeu no começo e, depois, ficou agradavelmente dormente.

— Feridas de prata — ela murmurou. — Isso não cicatriza direito sem cuidado.

— Nunca cicatriza — respondi, sem emoção.

Ela não comentou. Só continuou trabalhando em silêncio. Quando terminou nas minhas costas, passou corretivo nos hematomas do meu pescoço, com um toque impessoal, mas não cruel.

— O vestido vai cobrir a maior parte — ela disse, mais para si mesma do que para mim. — E a gente dá um jeito no seu cabelo pra chamar atenção pro resto.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo