Capítulo 3 Intrusos - O ponto de vista de Marcus
As sirenes rasgaram meu sono como garras dilacerando carne. Sentei num salto, o uivo perfurando meu crânio com aquele ritmo conhecido e temido — três rajadas curtas seguidas de uma longa — violação de fronteira. Não era simulado. Meus pés tocaram o chão gelado antes mesmo de eu me dar conta de que estava me movendo, meu lobo, Rennick, já pressionando por baixo da minha pele, sedento por sangue. Renegados. Tinha que ser renegados. Eles vinham rondando o nosso território havia semanas, ficando mais ousados a cada dia que passava. Olhei para o espaço vazio ao meu lado, onde Elena estava dormindo; os lençóis ainda estavam quentes. Ela deve ter ouvido primeiro.
— Lado norte — Rennick rosnou dentro da minha mente. — Eu sinto.
Arranquei a porta do quarto e disparei pelo corredor, sem me preocupar com roupa nenhuma além da calça de dormir que eu já estava usando. O ar frio da montanha bateu no meu peito nu quando eu explodi para fora da casa da alcateia e fui parar nos degraus da frente, onde vários guerreiros já tinham se reunido, os rostos tensos com aquela preocupação embolada de sono.
— Alfa! — gritou a Beta Karin, o corpo dela já meio transformado, pelo preto brotando ao longo dos braços. — Os sensores da fronteira norte dispararam há três minutos. Vários intrusos.
Assenti uma vez e me lancei do degrau mais alto, a transformação me pegando no meio do salto. A conhecida onda de poder atravessou meu corpo enquanto os ossos estalavam e se refaziam, os músculos se alongavam e engrossavam. Quando minhas patas tocaram o chão congelado, Rennick já tinha assumido o nosso corpo compartilhado: um lobo enorme, cinza-esbranquiçado, com olhos âmbar capazes de enxergar através da escuridão antes do amanhecer.
Joguei a cabeça para trás e uivei — o chamado do Alfa para as armas, um som que alcançaria cada lobo do território. A resposta veio na hora: dezenas de uivos em retorno, alguns perto, outros distantes, todos reconhecendo a ordem de lutar.
“A fronteira do Vale do Sul”, enviei pelos elos da alcateia, meus pensamentos alcançando cada guerreiro. “Formem equipes de cinco.”
Guerreiros saíram em fluxo das casas da alcateia e dos chalés, muitos já em forma de lobo, outros se transformando enquanto corriam. Disparei rumo ao norte na velocidade máxima, sentindo a minha alcateia encaixar atrás de mim numa formação treinada. A gente vinha ensaiando esse cenário sem parar no último mês, desde que os primeiros sinais de atividade de renegados tinham sido vistos perto das nossas fronteiras.
— Vinte e oito assinaturas de calor cruzando a crista — informou a Delta, nossa batedora mais experiente, com os pensamentos afiados de adrenalina. — Eles estão vindo rápido, Alfa. Nem estão escondendo a aproximação.
Aquilo era estranho. Renegados normalmente preferiam furtividade, caçando os atrasados ou lobos isolados. Um ataque direto significava desespero… ou confiança em ter mais gente.
— Eles trouxeram reforços — observou Rennick, sombrio. — Isso não é um bando de saque. É uma invasão.
O terreno ficou mais íngreme conforme subíamos em direção à crista que marcava a nossa fronteira norte. Além dali ficava a Terra de Ninguém do Vale do Sul — uma área disputada que, ao longo dos anos, tinha virado um berçário de lobos sem alcateia. O cheiro nos atingiu antes de alcançarmos o topo: o fedor rançoso de corpos sem banho e o gosto metálico de sangue velho no ar. Renegados carregavam o cheiro da própria decadência, seus lobos instáveis sem os laços da alcateia para mantê-los firmes.
Fui o primeiro a alcançar a crista, e a cena lá embaixo fez o pelo da minha nuca eriçar. Não eram vinte e oito renegados. Era mais perto de quarenta — um mar de pelagem sarnenta e olhos brilhando se movendo pela mata de pinheiros abaixo. Entre eles havia lobos tão magros que as costelas apareciam sob pelagens falhadas, e outros com ombros travados de músculo e cicatrizes de batalha — os perigosos, renegados que tinham sobrevivido por anos apenas na base da própria crueldade.
— Mantenham posição — ordenei aos guerreiros que se juntavam atrás de mim. — Esperem o meu sinal.
Precisávamos cronometrar isso com precisão. Se avançássemos cedo demais, eles se espalhariam pela mata, onde poderiam nos abater um a um. Tarde demais, e eles se infiltrariam ainda mais no nosso território, com chance de chegar às áreas residenciais. Examinei minha força rapidamente — cinquenta e sete guerreiros presentes, com mais alguns ainda a caminho. Não era o ideal, mas teria que servir.
O líder dos renegados, um lobo marrom enorme com uma orelha rasgada, parou na base da elevação, as narinas se abrindo quando captou nosso cheiro. A cabeça dele se ergueu num estalo, os olhos amarelos travando nos meus. Por um instante, nós nos encaramos à distância, predador contra predador. Então o focinho dele se repuxou num rosnado, expondo presas amareladas.
— Agora — ordenei, e me lancei morro abaixo.
O ar se encheu de rosnados e do estrondo de patas quando meus guerreiros vieram atrás, uma onda coordenada de fúria descendo sobre a matilha de renegados. O primeiro impacto foi de estremecer os ossos — eu me choquei contra o líder em velocidade máxima, e meu peso maior o arremessou para trás. Os dentes dele estalaram a centímetros da minha garganta enquanto rolávamos por entre agulhas de pinheiro e neve, garras rasgando os flancos um do outro.
Ao nosso redor, a batalha explodiu em caos. Meus guerreiros lutavam com a disciplina de quem tem vínculo de matilha, avançando em ataques coordenados contra renegados mais numerosos, porém desorganizados. Mas o que eles não tinham de estratégia, compensavam com selvageria. Lutavam como lobos sem nada a perder — porque não tinham mesmo.
Sangue espirrou sobre a neve quando um jovem guerreiro chamado Elias caiu, a garganta dilacerada por um renegado que tinha passado pela nossa linha de frente. Eu me desvencilhei do meu oponente tempo suficiente para investir contra o atacante, cravando as mandíbulas na coluna dele e quebrando-a com uma torção seca da cabeça. O renegado tombou, mas já era tarde demais para Elias. Os olhos dele já começavam a perder o brilho, a vida escorrendo para a neve manchada de vermelho.
— Foco, Marcus — rosnou Rennick. — A gente não consegue salvar todo mundo.
O líder renegado voltou a circular, o pelo do ombro empastado de sangue onde meus dentes tinham se fixado. Atrás dele, mais três renegados se moveram em conjunto — coordenação incomum para quem não tem matilha. Eles estavam tentando me separar do grupo principal.
“Beta Karin”, chamei pelo vínculo da matilha. “O flanco leste está afinando.”
“Já vou”, veio a resposta imediata, e eu senti — mais do que vi — ela redirecionar uma equipe para reforçar o ponto vulnerável.
A luta se estendeu, o ar frio da montanha pesado de rosnados e ganidos de dor. Nós tínhamos a vantagem do treinamento, mas eles tinham número e um desprezo inconsequente pela própria segurança, o que os tornava perigosos. Para cada renegado que caía, parecia que outro tomava o lugar.
Um uivo de dor cortou a barulheira — uma das minhas guerreiras mais experientes estava no chão, o flanco aberto até o osso. Perto dali, dois lobos mais jovens estavam encurralados contra um afloramento rochoso, estalando os dentes com desespero para cinco renegados que avançavam.
— Beta Dominic — chamei. — Equipe do sul, para as rochas. Agora.
Nenhuma resposta.
— Dominic! — tentei de novo, ao mesmo tempo em que eu dilacerava um renegado que tinha chegado perto demais.
— Ele caiu — veio a resposta tensa de Karin. — Não morreu, mas está fora da luta.
Merda. Eu precisava acabar com aquilo antes que perdêssemos mais lobos. Os renegados começavam a vacilar — tinham perdido quase metade —, mas nós também não estávamos em situação boa o bastante. Eu avistei o líder de novo, agora coordenando uma retirada em direção à linha das árvores. Eles queriam prolongar a briga, nos desgastar.
Eu me preparei e investi direto nele, ignorando os lobos menores no meu caminho. Um lampejo de surpresa passou pelos olhos amarelos dele quando eu encurtei a distância, mas ele se manteve firme. Nossa colisão fez o chão tremer, dentes e garras buscando carne vulnerável.
Meus dentes acharam a garganta dele e se fecharam. Ele se debateu com violência, garras rasgando minhas laterais, mas eu não soltei, aumentando a pressão até sentir a traqueia dele esmagar entre minhas mandíbulas. A resistência dele enfraqueceu e, então, cessou de vez. Eu recuei, deixando o corpo dele desabar no chão.
