Capítulo 2 Um dia - O ponto de vista de Amelia
Ele passou por cima do corpo encolhido da Ruby e veio na minha direção, sem pressa.
— E agora você acha que sabe o que os outros estão pensando? Um talento fascinante pra alguém sem lobo.
Eu recuei até a pia encostar na minha lombar. Não tinha mais pra onde ir.
— Às vezes eu lavo suas camisas — eu disse, desesperada. — Eu sei tirar mancha de café. Se você deixar, eu posso...
A mão dele fechou na minha garganta, cortando minhas palavras e quase todo o meu ar. Ele me ergueu um pouco, me obrigando a ficar na ponta dos pés.
— Quer saber o que eu penso? — ele disse, com o rosto a poucos centímetros do meu. — Eu acho que a sem lobo precisa de mais uma lição sobre hierarquia da matilha.
Kaela uivava dentro da minha cabeça, um som de pura raiva e frustração que ninguém mais podia ouvir. “Reage! Arranca os olhos dele, porra!”
Mas nós duas sabíamos que eu não podia. Mesmo que eu tivesse força, reagir só ia piorar.
Dominic largou a minha garganta bem quando começaram a dançar pontinhos na minha visão. Eu engasguei, puxando um gole de ar que doeu, mas antes que eu me recuperasse, o punho dele acertou meu estômago. A dor veio na hora, intensa, me dobrando ao meio. Minha costela quebrada gritou em protesto.
Com os olhos lacrimejando, eu vi Ruby tentando se arrastar pra longe. Bom. Se ele estava focado em mim, talvez ela escapasse do pior da raiva dele.
— Você acha que pode falar comigo desse jeito? — Dominic agarrou um punhado do meu cabelo, puxando minha cabeça pra trás. — Você acha que alguém liga pro que acontece com você?
Ele nem esperou uma resposta, me arrastando pelo cabelo em direção à porta da cozinha. A dor era cegante, mas eu me atrapalhei pra colocar os pés embaixo de mim, tentando diminuir a pressão no couro cabeludo. Ele me puxou pro corredor, passando por dois membros da matilha que olharam na nossa direção e depois, de propósito, desviaram o olhar. Ninguém ia interferir. Nunca interferia.
— O Alfa te mantém por caridade — Dominic disse, num tom quase casual, enquanto me puxava até a escada que descia pros níveis inferiores. — Mas até caridade tem limite.
Eu tropecei na escada e caí com força de joelhos. Ele não parou; só continuou me arrastando pra baixo, meus joelhos e canelas batendo em cada degrau. Quando chegamos lá embaixo, eu chorava em silêncio, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e pingando no chão de pedra gelado.
O corredor do porão tinha pouca luz e era úmido; o ar ficava mais frio conforme a gente se aproximava do meu quarto, no fim. Dominic finalmente soltou meu cabelo, só pra agarrar meu braço e me jogar contra a parede ao lado da minha porta.
— Você acha que é melhor do que o resto da gente porque um dia foi o bichinho de estimação deles? — Ele se inclinou bem perto, o hálito quente batendo no meu rosto. — Você não é nada. Menos que nada.
“Um dia ele vai morrer gritando”, Kaela prometeu, sombria. “Eu vou garantir isso.”
A chave arranhou na fechadura — ele tinha uma chave-mestra, claro — e então ele me empurrou pra dentro do meu quarto. Eu cambaleei e caí no colchão fino que servia de cama, levantando uma nuvem de poeira.
Dominic entrou atrás, fechando a porta. Na luz fraca que entrava pelo poço da janelinha, o rosto dele era só ângulos duros e sombras.
— Tira a camisa — ele ordenou.
O pânico atravessou meu corpo.
— Por favor...
O pé dele acertou minha lateral, bem onde a costela quebrada estava mais frágil. A dor foi tão absurda que, por um instante, tudo ficou branco e silencioso. Quando eu voltei a mim, eu estava encolhida em posição fetal, tentando proteger o lado machucado.
—Eu mandei tirar. Ou eu tiro por você, e aí você vai ficar sem camisa nenhuma.
Com os dedos tremendo, desabotoei a flanela surrada que eu vinha usando havia três dias. Era grande demais, herdada de alguém, com as mangas dobradas várias vezes. Deslizei o tecido pelos ombros, ficando só com uma regata fina que mal escondia as cicatrizes que cruzavam minhas costas e meus braços.
Dominic enfiou a mão no bolso e tirou uma faquinha. A lâmina pegou a luz fraca, e eu vi o brilho prateado inconfundível que fazia dela algo mortal para lobisomens.
—Não —Kaela sussurrou, a raiva cedendo lugar ao medo. —De novo não.
—Vira —ele disse, com frieza.
Fiz o que ele mandou, oferecendo minhas costas marcadas. O primeiro corte foi superficial, mas ardeu como fogo —prata sempre ardia. Mordi o lábio para não gritar, sentindo gosto de sangue.
—É isso que acontece com servos que esquecem o próprio lugar —ele disse, fazendo outro corte que cruzou o primeiro. —É isso que acontece com os sem-lobo que acham que têm o direito de falar.
A cada corte, a queimação ficava pior. Feridas de prata não cicatrizavam direito em lobisomens —nem em fracassados como eu. Aquilo viraria cicatrizes novas para se juntar às antigas, um registro de lições escritas na minha carne.
Não sei quanto tempo durou. O tempo se esticou e se deformou ao redor da dor até que nada existisse além dela. Em algum momento, percebi que eu estava de bruços no meu colchão, com a palha de dentro espetando através do tecido e entrando na minha pele. Minhas costas estavam molhadas de sangue, e a regata grudava nas feridas.
A porta fechou. A chave girou. Ele tinha ido embora.
—Amelia? —A voz de Kaela estava estranhamente suave. —Você me ouve?
—Ouço —sussurrei em voz alta, exausta demais para manter a conversa só dentro da minha cabeça.
—Sua idiota corajosa —Houve um engasgo na voz mental dela que talvez fosse um soluço, se lobos pudessem chorar. —Por que você fez isso?
Virei um pouco a cabeça, fazendo careta com o repuxão nos músculos das costas.
—Você teria feito o mesmo.
—Mas eu não posso. Esse é o maldito problema. —A raiva dela voltou, mas não era contra mim. —Eu tô presa aqui dentro enquanto você sangra aí fora. Que tipo de lobo eu sou?
—O único que eu tenho —murmurei, fechando os olhos contra as lágrimas que ameaçavam voltar.
O frio do chão de pedra ia entrando nos meus ossos, mas eu não conseguia juntar energia para me arrastar direito até a cama. As queimaduras de prata pulsavam no ritmo do meu coração, e cada batida mandava ondas novas de dor pelas minhas costas.
—A gente precisa limpar esses cortes —Kaela disse depois de um tempo. —Se infeccionar...
—Eu sei. —Mas eu não me mexi. Ainda não. —Só me dá um minuto.
No silêncio que veio depois, ouvi os sons familiares da minha prisão —água pingando em algum lugar no canto, o zumbido distante da casa da matilha lá em cima, o corre-corre ocasional de um rato atrás das paredes. Lar, doce lar.
—Um dia a gente vai sair daqui —Kaela prometeu, como já tinha prometido mil vezes. —Um dia eu vou conseguir me transformar, e a gente vai mostrar pra eles do que é capaz.
Eu não respondi. Algumas mentiras doíam demais para encarar, até entre nós. Em vez disso, fiquei imóvel, esperando a força para me remendar de novo, mais uma vez, como eu sempre fazia. Porque que outra escolha eu tinha?
