Capítulo 1 Wolfless - O ponto de vista de Amelia
A pia da cozinha estava gelada contra minhas mãos em carne viva enquanto eu esfregava os restos de uma refeição que eu não tinha sido autorizada a comer. A água transbordava sobre uma pilha de pratos, levando embora molho e pedacinhos de carne — meu estômago se contraiu ao ver comida sendo desperdiçada quando, desde ontem de manhã, eu não tinha comido nada além de pão amanassado. Olhei de relance para o relógio: 23h37. A matilha tinha terminado o jantar horas atrás, mas a louça tinha ficado pra mim. Sempre pra mim.
— Você devia comer um pouco disso — rosnou Kaela na minha cabeça. — Eles não vão perceber. Eles nunca percebem.
Balancei a cabeça de leve, tomando cuidado para não deixar o movimento óbvio demais caso alguém entrasse. As câmeras nos cantos da cozinha tinham sido instaladas depois que me pegaram roubando comida uma vez. A lembrança daquela punição fez as cicatrizes nas minhas costas formigarem com uma dor fantasma.
— Não vale a pena — respondi a ela, em silêncio. — Além disso, agora já está frio.
— Melhor frio do que morrer de fome — resmungou ela, a presença na minha mente se agitando, inquieta, como um bicho enjaulado. Em muitos sentidos, era exatamente isso que ela era.
Um prato escorregou dos meus dedos, batendo com força contra a pia de metal. Eu congelei, esperando alguém arrebentar a porta e me acusar de quebrar propriedade da matilha. Quando ninguém apareceu, soltei o ar devagar e alcancei o próximo prato.
Meus dedos estavam vermelhos e rachados por causa dos produtos de limpeza fortes, e os cortinhos ardiam a cada nova peça. O sabão chique que a Luna Elena fazia questão de usar nas refeições da matilha não era pra mão nua, mas ninguém se deu ao trabalho de repor as luvas de borracha depois que elas abriram no mês passado. Eu não valia o gasto.
— Um dia eu vou arrancar a garganta deles — rosnou Kaela. — De cada um.
— Você não pode — lembrei a ela, naquela troca já tão familiar quanto o serviço em si. — E, mesmo se pudesse, você não faria isso. Você não é uma assassina.
— Ah, não sou, é? — ela retrucou. — Eu sou uma loba. Tá na minha natureza. E eles merecem.
Eu não discuti. Em alguns dias, eu quase concordava com ela. Hoje não. Hoje eu estava cansada demais, com o corpo doendo de tanto esfregar o chão do salão principal antes de encarar essa louça. A costela quebrada do lado esquerdo latejava, uma lembrança constante de uma surra de três meses atrás que nunca sarou direito.
A porta da cozinha se abriu, e eu encolhi os ombros por instinto, tentando ocupar menos espaço. Era Ruby, carregando uma bandeja de canecas de café vazias da reunião do conselho da noite. Os olhos dela encontraram os meus por um instante antes de descerem para o chão — o jeito seguro de reconhecer outra serviçal sem chamar atenção.
— Ainda nisso? — ela murmurou, baixo o bastante para não passar da cozinha.
Eu assenti, observando enquanto ela colocava a bandeja no balcão. Ruby tinha nascido para servir, mas se conduzia com uma dignidade silenciosa que eu nunca consegui dominar. As mãos dela eram tão ásperas quanto as minhas, mas ela se movia com propósito, sem desperdiçar um gesto.
— Vai começar outra reunião — disse ela, indo até a máquina de café cara que só membros da matilha com patente podiam encostar. — O Beta Dominic quer café fresco.
Meu estômago se apertou com o nome. O Beta Dominic era o braço direito do Alfa Marcus, frio e metódico na crueldade. Onde outros membros da matilha eram caóticos nos abusos, ele calculava exatamente quanta dor infligir para o máximo efeito.
— Desgraçado — cuspiu Kaela. — Um dia eu vou—
— Por favor — interrompi. — Agora não.
Ruby olhou para mim, com uma sobrancelha levemente erguida. Ela achou que eu estava viajando de novo — como todos. A garota sem loba falando sozinha. Se eles soubessem.
— Você tá bem? — ela perguntou, medindo o pó de café com uma precisão cuidadosa.
— Tô — menti. — Só cansada.
Ela assentiu, entendendo sem precisar de detalhes. — Guarda essas sobras nos potes azuis, não nos vermelhos. A Luna Elena quer separado.
Segui o olhar dela até as travessas que eu tinha separado. “Obrigada pelo aviso.”
A cafeteira chiou e borbulhou, enchendo a cozinha com um aroma forte que fez meu estômago vazio se contrair. Ruby e eu trabalhamos em silêncio por alguns minutos — eu raspando comida para dentro de potes, ela preparando uma bandeja com o café recém-passado. Era o mais perto de uma companhia agradável que a vida chegava por aqui.
A porta da cozinha se abriu de novo. Dessa vez, meu corpo inteiro ficou rígido.
O Beta Dominic estava no vão da porta, os olhos azul-gelo varrendo a cozinha. Vestia as mesmas roupas de antes: jeans escuros e uma camisa de botão cinza-chumbo que o deixava com mais cara de executivo do que de capanga de lobisomem. O cabelo escuro estava perfeitamente arrumado, exceto por aquela mecha prateada característica que, de algum jeito, o deixava ainda mais intimidante.
“O café já tá pronto?” A voz dele era calma, quase agradável — o que só fez meu coração disparar mais.
Ruby se endireitou na hora. “Sim, senhor. Acabei de terminar.”
Ela pegou a bandeja com as mãos firmes e se virou na direção dele. Mantive a cabeça baixa, concentrada nos potes que eu estava enchendo, tentando ficar invisível. Quase funcionou.
O que aconteceu depois pareceu se desenrolar em câmera lenta. Ruby deu um passo em direção a Dominic, que ainda estava parado logo dentro da porta. Ela não percebeu o quão perto ele estava até já ter começado a estender a bandeja. A proximidade, o ângulo, o leve tremor nos braços de Ruby — era um desastre esperando para acontecer.
A bandeja inclinou. O café chacoalhou e passou da borda de uma caneca, espirrando na frente da camisa de Dominic.
Ruby travou, o horror tomando conta do rosto dela. “Eu—eu sinto muito, senhor! Eu não—eu vou limpar agora mesmo!”
A sala ficou mortalmente silenciosa. Até o zumbido da geladeira pareceu sumir.
“Se afasta”, Kaela me avisou. “Agora.”
Obedeci por instinto, me encolhendo contra a bancada enquanto Dominic olhava para a camisa manchada. A expressão dele não tinha mudado, mas algo tinha mudado nos olhos — uma frieza que derrubou a temperatura do ambiente em vários graus.
“Me desculpa”, Ruby repetiu, pousando a bandeja e pegando um pano de prato. “Por favor, senhor, deixa eu—”
A mão de Dominic disparou tão rápido que eu mal vi se mover. O estalo da palma dele no rosto de Ruby ecoou como um tiro. Ela cambaleou para trás, o pano caindo das mãos quando ela bateu na quina da bancada.
“Vadia desajeitada”, ele disse, a voz ainda assustadoramente calma. “Você tem ideia de quanto custou essa camisa?”
Ruby levou a mão à bochecha, onde uma marca vermelha de dedos já começava a aparecer. “Me desculpa, senhor. Foi um acidente—”
O segundo golpe a derrubou no chão. Um gemido baixo escapou dos lábios dela quando se encolheu, um braço erguido numa tentativa de se proteger.
“Amelia, não”, Kaela avisou, percebendo meus pensamentos antes mesmo de eles se formarem por completo.
“Eu não posso só assistir”, rebati em silêncio, mesmo com o medo me congelando no lugar.
“Pode, sim. Você tem que conseguir.”
Mas Ruby ergueu os olhos para mim então, os olhos cinzentos arregalados de dor e pavor, e alguma coisa dentro de mim se soltou. Eu já tinha estado no lugar dela vezes demais. Eu sabia o que vinha em seguida.
“Beta Dominic”, eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. “Foi mesmo um acidente.”
A cabeça dele virou na minha direção, como se só então notasse minha presença. “O que foi que você disse, sem-lobo?”
O insulto ardeu, como sempre, mas eu me forcei a dar um passo à frente. “A bandeja estava pesada, e o senhor estava muito perto. Qualquer um podia ter derramado.”
“Que porra você tá fazendo?”, Kaela rosnou. “Cala a boca!”
Os lábios de Dominic se curvaram num algo que não chegava a ser um sorriso. “Você tá me dizendo como eu devo pensar, sua ninguém?”
“Não, senhor.” Minha voz tremeu. “Eu só… ela não fez de propósito.”
