Capítulo 8 Capítulo 8
Perspectiva em terceira pessoa
Zelda hesitou. Ela olhou em volta, como se estivesse checando se alguém podia ouvir a conversa.
— Ela é muito diferente da gente. Ela não entende como as coisas funcionam no nosso mundo. A mãe tá se esforçando tanto pra ajudar ela a se adaptar, mas a Scarlett simplesmente não valoriza nada do que a gente faz por ela.
— Que ingrata — disse Madison. — Sua mãe recebeu ela de volta depois de todos esses anos. Era pra ela agradecer vocês todo santo dia.
— Eu sei — disse Zelda.
Ela suspirou.
— Mas em vez disso, ela só arruma problema. Ela se recusa a usar as roupas de grife que eu ofereço. Não aceita minha ajuda com nada. Age como se fosse boa demais pra nossa família.
— Pera, onde é que ela tá agora? — perguntou Ashley. — Ela tá em casa?
A expressão de Zelda mudou. Por um segundo, surgiu algo frio nos olhos dela. Mas logo sumiu.
— Na verdade, a Scarlett se mudou. Ela não mora mais com a gente.
— O quê? Por quê?
— É complicado — disse Zelda, baixando a voz. — Ela anda muito fora de controle ultimamente. Saindo a qualquer hora. Chegando tarde. A gente não sabia pra onde ela ia nem com quem ela tava saindo.
— Meu Deus — sussurrou Sophie.
— E aí, semana passada, a gente descobriu que ela tá grávida — continuou Zelda.
Ela olhou pro chão, como se estivesse com vergonha.
— Ela não quer contar quem é o pai. Ela não tem namorado. Só apareceu um dia, anunciou que tava grávida e depois foi embora.
A boca de Madison ficou aberta.
— Você tá falando sério?
— Queria que não estivesse — disse Zelda. — A mãe tá de coração partido. O pai tá furioso. Meus irmãos nem querem tocar no assunto. Tá sendo horrível pra família inteira.
As três garotas ficaram encarando Zelda. Elas pareciam chocadas.
— Isso é loucura — disse Ashley, por fim. — Como é que ela pode estar grávida se não tem namorado? Você acha que ela tava, tipo, ficando com qualquer cara por aí?
— Eu não quero presumir nada — disse Zelda rapidamente. — Mas ela anda muito secreta com tudo. E agora se mudou e a gente não faz ideia de como ela tá se sustentando ou de onde tá vindo o dinheiro.
— Meu Deus, olha ali — disse Madison de repente.
Ela agarrou o braço de Zelda e apontou pro outro lado do piso.
As quatro meninas viraram para olhar.
Scarlett estava parada perto da entrada de uma boutique. Ela observava um vestido num manequim. Usava uma calça jeans simples e uma blusa básica. O cabelo estava preso num rabo de cavalo.
— É ela? — sussurrou Sophie.
— Meu Deus, é sim — disse Madison. — O que ela tá fazendo aqui? Pensei que você tivesse dito que ela tinha se mudado. Ela tá com dinheiro agora?
O rosto de Zelda ficou duro. A expressão doce desapareceu.
— Não faço ideia de como ela tá conseguindo bancar compras no andar de luxo.
— Pera, tem um cara com ela — disse Ashley. Ela apertou os olhos. — Cês tão vendo? Perto da vitrine?
Todas olharam.
Um homem de terno escuro e caro estava parado a poucos metros de Scarlett. Não dava pra ver o rosto dele direito. Ele estava de costas pra elas. Mas dava pra ver que era alto. Ombros largos. O terno parecia sob medida.
— É o namorado dela? — perguntou Sophie.
— Nem ferrando — disse Madison. Ela riu. — Olha pra ele. Isso não é namorado. É sugar daddy.
— Como assim?
— Ah, vai, pensa um pouco — disse Madison. — Olha o jeito que ela tá vestida. Roupa barata. Nada de joia. Agora olha pra ele. Aquele terno provavelmente custa mais caro que meu carro. E ele é bem mais velho que ela. Dá pra ver só pelo jeito que ele se porta. Nenhum cara de faculdade fica em pé daquele jeito.
— Você acha mesmo que ela tá com um tiozão por causa de dinheiro? — perguntou Ashley, com nojo na voz.
— Ia ser o quê, então? — disse Madison, cruzando os braços. — Você mesma disse que ela não tem dinheiro. Nem emprego. Nem namorado. Mas do nada aparece fazendo compra no andar de luxo com um homem mais velho e rico? Obviamente é ele que tá pagando tudo.
Zelda observava Scarlett do outro lado do piso. As mãos dela estavam cerradas em punhos.
— Eu não acredito que ela faria uma coisa dessas. Isso é tão humilhante pra nossa família.
— Espera, olha! — Sophie agarrou o braço de Madison. — Ele tá dando alguma coisa pra ela. É um cartão de crédito?
Todas se inclinaram pra frente pra enxergar melhor.
Damon estava tirando a carteira do bolso. Ele pegou um cartão de crédito preto e entregou pra Scarlett. Elas estavam longe demais pra ouvir o que os dois diziam. Mas viram Scarlett pegar o cartão e enfiar no bolso.
— Meu Deus — disse Madison. A voz dela estava sem expressão. — Que nojo. Ela é mesmo um tipo de mulher sustentada.
— Eu vou passar mal — disse Ashley. — Quão desesperada você tem que estar pra transar com um velho por causa do cartão de crédito dele?
— Ele deve ter, tipo, uns quarenta anos — acrescentou Sophie. — Talvez mais. Que nojo.
Zelda mordeu o lábio. Parecia chateada. Mas os olhos brilhavam com outra coisa. Algo que parecia satisfação.
— Eu sabia que ela tava com problemas, mas não achei que fosse tão sério assim. Como é que ela foi acabar desse jeito?
— Porque ela é lixo — disse Madison, simplesmente. Ela olhou pra Zelda. — Você cresceu com bons valores. Você se respeita. Mas ela cresceu sabe-se lá onde, fazendo sabe-se lá o quê. Pra ela isso aí deve ser normal.
O homem de terno tirou o celular. Atendeu a uma ligação. Elas o viram dizer alguma coisa pra Scarlett. Depois ele se virou e foi embora. Em direção aos elevadores do outro lado do piso.
Scarlett ficou ali sozinha. Olhou por mais um momento pro vestido no manequim. Depois entrou na boutique.
— Agora ela tá sozinha — disse Madison. Ela se virou pra olhar pra Zelda. — Quer saber? Eu cansei de ouvir histórias sobre como ela te trata como lixo em casa. Cansei de ouvir sobre como ela faz sua mãe chorar. Dessa vez a gente pegou ela no flagra.
— Como assim? — perguntou Zelda. A voz dela estava baixa.
— A gente devia ir lá — disse Madison. — Devia confrontar ela. Perguntar que diabos ela acha que tá fazendo. Ver se consegue arrumar alguma desculpa pra explicar o que ela tá fazendo aqui com um velho qualquer que acabou de dar o cartão de crédito pra ela.
— Eu não sei — disse Zelda. Parecia insegura. — Se a gente fizer um barraco, pode ser constrangedor pra ela.
— Ótimo — disse Madison. — Ela é que tem que ficar constrangida. Garota nova que se vende por bolsa de grife tem mais é que ter vergonha.
— A Madison tem razão — disse Ashley. Agora ela parecia com raiva. — Isso é nojento. Ela tá literalmente se prostituindo. E é sua irmã. Você não acha que alguém devia dizer pra ela que isso é errado?
— Ah, sei lá, se ela já tá grávida, talvez o estrago já esteja feito — disse Sophie. Ela fez uma careta. — Deus, será que aquele cara é o pai? Quão desesperado você tem que ser pra pagar por sexo com alguém que já tá grávida?
Zelda levou a mão à boca.
— Por favor, não falem dela assim. Ela ainda é minha irmã.
— É ela que escolheu agir desse jeito — disse Madison. — A gente só tá chamando as coisas pelo nome. Vamos. Vamos falar com ela.
— Eu não quero começar uma briga — disse Zelda. Parecia preocupada. — E se ela ficar chateada?
— Então ela fica chateada — disse Madison. Começou a andar em direção à boutique. — Não tô nem aí. Alguém precisa dizer a verdade pra ela. Ela não pode simplesmente passar essa vergonha pra sua família e achar que ninguém vai falar nada.
Ashley e Sophie foram atrás de Madison. Zelda hesitou por apenas um momento. Depois caminhou atrás delas. O rosto parecia apreensivo. Mas qualquer pessoa que observasse com atenção teria visto o pequeno sorriso no canto da boca dela.
Elas atravessaram o piso. Indo direto para a boutique onde Scarlett tinha acabado de entrar.
