Capítulo 6 Capítulo 6
A família Romano estava sentada ao redor da mesa de jantar formal. Ninguém falava. O silêncio era pesado e desconfortável.
Zelda cutucava a comida. Ela parecia triste. Seus olhos estavam levemente vermelhos, como se tivesse chorado.
— Eu tô muito preocupada com a Scarlett — Zelda disse em voz baixa. — Ela tá grávida e tá sozinha lá fora. E se acontecer alguma coisa com ela?
O rosto de Viviana ficou vermelho.
— Não mencione essa menina ingrata dentro desta casa.
— Mas, mãe, ela é família. E se ela precisar de ajuda?
— Ela fez a escolha dela — Viviana retrucou, ríspida. — Ela jogou na nossa cara tudo o que a gente ofereceu. Agora que aguente as consequências.
Zelda mordeu o lábio. Baixou os olhos para o prato.
— Eu não consigo parar de pensar nela. Sozinha. Grávida. Sem dinheiro. Sem apoio.
Ela fez uma pausa. Quando voltou a falar, sua voz estava ainda mais baixa:
— E se ela ficar desesperada? E se ela tiver que fazer coisas por dinheiro? Coisas ruins?
O rosto de Viviana passou do vermelho para o roxo. Ela jogou o garfo com força sobre a mesa.
— Essa putinha provavelmente nem precisa ficar desesperada. Aposto que já tá fazendo essas coisas. Como você acha que ela acabou grávida?
Salvatore estava na cabeceira da mesa. Seu rosto estava sombrio de raiva. Lorenzo sentava ao lado dele, com a mesma expressão pesada. Nico ficava de frente para os dois, balançando a cabeça.
— Ela vive na rua há anos — Sal disse. — Ela sabe como aquele mundo funciona. Se conseguiu engravidar sem ser casada, provavelmente é capaz de coisa muito pior do que isso.
— Eu não entendo por que ela não pode ser mais como a Zelda — Viviana disse. Ela esticou a mão e deu um tapinha na mão de Zelda. — Você é tão doce. Tão obediente. Tão respeitosa. Por que a Scarlett não pode ser como você?
Os olhos de Zelda se encheram de lágrimas.
— Por favor, não compara a gente. A Scarlett teve uma vida difícil. Talvez ela só precise de tempo pra se adaptar.
— Para de defender ela — Lorenzo disse. A voz dele era fria. — Ela teve seis meses pra se adaptar. Preferiu passar vergonha e fazer a nossa família passar vergonha também.
— Ela não merece a nossa atenção — Nico acrescentou. — Deixa ela se virar. Quis ir embora, foi. Acabou.
Zelda assentiu devagar. Enxugou os olhos com o guardanapo. Mas, quando abaixou o guardanapo, havia um pequeno sorriso em seu rosto que ninguém mais viu.
Zelda trancou a porta do quarto atrás de si. Caminhou até a escrivaninha e abriu o notebook. Iniciou uma chamada de vídeo.
Uma mulher apareceu na tela. Estava muito maquiada. O rosto era bonito, mas duro.
— Mãe — Zelda disse.
— E aí, como foi, bebê? — a mulher perguntou.
— Perfeito. A família Romano largou de vez aquela vadiazinha. Agora eles acham que ela é lixo.
— Ótimo. Mantém assim.
— Tem um problema, porém — disse Zelda. — Eles querem que eu me case com o Adrian Santoro agora. O noivado era pra ser da Scarlett, mas agora que ela sumiu, tão tentando empurrar ele pra mim. Eu não quero casar com aquele aleijado.
A mulher na tela riu.
— Às vezes você é tão burra. A gente finalmente se livrou daquela vadia. Por que você deixaria ela voltar?
— Mas o noivado...
— Não se preocupa com o noivado. A Viviana ama você. Aqueles três filhos idiotas dela amam você. Eles vão dar um jeito de quebrar o contrato. Só continua fingindo ser a filha doce e inocente.
— E a Scarlett?
— E o que tem ela? Ela sumiu. Era isso que a gente queria. Mantém ela longe.
— Mas e se ela tentar voltar?
O rosto da mulher ficou frio.
— Então você precisa fazer a Viviana e os três filhos idiotas dela odiarem a Scarlett ainda mais. Cria conflitos. Grandes. Faz eles fazerem alguma coisa com a Scarlett que o Sal não consiga perdoar. Algo tão terrível que o Sal culpe a Viviana e aqueles três meninos imbecis por destruírem a relação dele com a filha de verdade.
Os olhos de Zelda brilharam.
— Você quer que o Sal expulse eles?
— Exatamente. Quando o Sal botar a Viviana e os filhos dela pra fora da família, meus filhos e eu finalmente vamos poder voltar pra família Romano. Onde é o nosso lugar. Como a verdadeira mulher do Sal. Como os filhos legítimos dele.
Zelda assentiu devagar. Um sorriso foi se abrindo em seu rosto.
— Entendi.
— Você foi muito bem, meu amor. Agora continua fazendo o seu papel. Seja doce. Deixa eles acharem que você é a filha perfeita. E aquela vadiazinha da Scarlett nunca vai conseguir voltar pra casa.
A mulher mandou um beijo pra câmera.
— Te amo, meu bem.
— Também te amo, mãe.
Zelda encerrou a chamada. Ela se recostou na cadeira e sorriu.
Tudo estava saindo exatamente como o planejado.
Damon estava sentado à mesa em seu escritório escuro. A única luz vinha da tela do computador. Ele estava revisando relatórios financeiros quando o telefone tocou.
Ele apertou o botão de viva-voz sem olhar o identificador de chamadas.
— Fala — ele disse.
— Chefe, é o Axel. Eu terminei a investigação de antecedentes da Scarlett Romano.
Damon se recostou na cadeira. Seu rosto não mostrava nenhuma expressão.
— Manda.
— Ela foi sequestrada quando tinha três anos, durante um ataque de uma família rival. Os sequestradores venderam ela pra traficantes de pessoas. Ela acabou no sistema de adoção de Montana. Cresceu na pobreza rural. Vários lares adotivos. Alguns eram ruins. Muito ruins. Mas ela manteve a cabeça baixa e ficou longe de problema.
Damon não disse nada. Só ouviu.
— Ela tá limpa — Axel continuou. — Nada na ficha criminal. Nada de envolvimento com gangue. Nenhuma conexão com família nenhuma, fora os Romanos. Ela voltou pra Nova York seis meses atrás, quando acharam ela.
— O que aconteceu naquela reunião de negócios um mês atrás? — Damon perguntou.
— Aí é que fica interessante. A Zelda, a filha adotiva, comeu de propósito um macarrão com frutos do mar que a Scarlett tinha pedido. A Zelda é alérgica a crustáceos. Teve um choque anafilático. A família toda botou a culpa na Scarlett. Gritaram com ela e largaram ela lá.
O maxilar de Damon enrijeceu levemente.
— Ela tava sozinha em Champlain quando você apareceu — Axel disse. — Pela linha do tempo das câmeras de segurança, você pegou ela uns vinte minutos depois que a família foi embora e deixou ela lá.
— Que mais?
— Hoje de manhã ela foi pro hospital fazer um teste de gravidez. Deu positivo. Ela voltou pra mansão dos Romano e contou pra família. Eles ofereceram duas opções: abortar o bebê e casar com o Adrian Santoro, ou cair fora. Ela escolheu ir embora. Fez as malas e saiu.
Axel fez uma pausa.
— Chefe, ela não é espiã. Não tá armando nada pra cima de você. É só uma garota que engravidou e não tem pra onde ir.
Damon ponderou aquela informação. Batia com o que a Scarlett tinha contado. Ela tinha sido sincera em tudo.
— Mais alguma coisa? — Damon perguntou.
— Tem, sim. Lembra da Sable? A assassina?
Os olhos de Damon se estreitaram. Sable era a número dois na lista de mais procurados da dark web. Só o próprio Damon ficava acima dela.
— O que tem ela?
— Sumiu faz seis meses. Saiu completamente do mapa. Os boatos na dark web dizem que ela morreu.
— Você acredita nisso?
— Eu já não sei no que acreditar. A Sable era boa demais pra ser pega. Mas também faz seis meses que não pega nenhum trabalho. Zero atividade. Nenhum contato. Nada. — Axel riu. — Eu acho é que ela arrumou um boy novinho e se aposentou pra curtir a vida.
O rosto de Damon continuou impassível. Ele não se importava com as teorias de Axel.
— Não preciso ouvir suas fofocas — Damon disse. Desligou sem dizer mais nada.
Ficou sentado no escuro por um instante. Pensou na Scarlett saindo daquela mansão só com uma mochila e uma bolsa de viagem. Ela não tinha nada. Sem dinheiro. Sem recursos. Sem apoio da família.
E carregava um filho dele.
Ela era ingênua. E também frágil. Provavelmente achava que dava conta de tudo sozinha. Tava enganada.
Ele ia garantir que ela nunca mais tivesse que se preocupar com nada.
O segundo celular de Damon tocou. Aquele era um descartável. Ele só passava o número pra gente com quem precisava falar uma vez.
Atendeu.
— Senhor Wolfe, aqui é o doutor Chen, do centro de pesquisa genética.
— Pode falar.
— Terminamos de analisar as amostras de sangue que o senhor nos enviou. A compatibilidade genética foi confirmada. Ambos os sujeitos têm a mesma condição genética rara. A correspondência é legítima. Parabéns por encontrar uma parceira compatível.
Damon sentiu algo se mover em seu peito. Ele já suspeitava, mas ouvir a confirmação era diferente.
— E quanto à saúde dela? — ele perguntou. — Ela consegue levar a gravidez com segurança?
— Com base nos exames de sangue, a senhorita Romano está em excelente saúde. Jovem, sistema imunológico forte, nenhuma doença de base. A criança deve se desenvolver normalmente. O problema genético deles só afeta a compatibilidade com pessoas comuns. Como vocês dois têm a mesma condição, a gravidez deve prosseguir sem complicações relacionadas aos fatores genéticos.
— E a criança vai ser saudável?
— Pelos marcadores genéticos, é provável que a criança seja excepcional. Os dois pais têm perfis genéticos notavelmente fortes. A criança provavelmente vai herdar essas vantagens.
Damon fechou os olhos. Um herdeiro. Seu próprio sangue.
— Vou transferir o financiamento de que falamos em até três dias — disse Damon.
— Obrigado, senhor Wolfe. Agradecemos o seu apoio contínuo à nossa pesquisa.
Damon desligou. Desligou o celular por completo. Depois retirou o chip, quebrou ao meio e jogou os pedaços no lixo.
O doutor Chen voltou para o próprio consultório. Seu assistente o esperava com um tablet na mão.
— Doutor, temos uma atualização sobre o painel hormonal da senhorita Romano.
O doutor Chen pegou o tablet e olhou os resultados. Seu rosto empalideceu.
— Isso não pode estar certo — murmurou.
— Eu repeti o exame três vezes. Os resultados são consistentes.
O doutor Chen encarou os números. Os níveis do hormônio de implantação estavam elevados. Mas os níveis do hormônio de gravidez não estavam subindo como deveriam.
Era um falso positivo.
— Ela não está grávida — sussurrou o doutor Chen.
— Não, doutor. Os hormônios de implantação elevados geraram o falso positivo no teste padrão. Mas não existe gravidez de fato.
O doutor Chen agarrou o telefone. Discou o número do qual o senhor Wolfe tinha ligado.
Entrou a mensagem automática:
— Este número não está mais em serviço.
Ele tentou de novo. A mesma mensagem.
— Não, não, não — disse o doutor Chen. Ele tinha usado um número descartável, de uso único. Agora não havia nenhuma maneira de entrar em contato com o senhor Wolfe.
O assistente franziu a testa, confuso:
— Doutor, aconteceu alguma coisa?
— O senhor Wolfe acabou de descobrir que vai ser pai — disse o doutor Chen. Sua voz tremia. — Mas a mulher não está realmente grávida. E eu não tenho como avisá‑lo.
