A Noiva Assassina do Rei da Máfia

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Capítulo 5 Capítulo 5

POV da Scarlett

O quarto que o Damon me deu era três vezes o tamanho do meu quartinho de empregada na mansão dos Romano. Cama king size. Closet walk-in. Banheiro privativo com uma banheira grande o bastante pra nadar. Janelas do chão ao teto com vista pra cidade.

Sentei na beira da cama e peguei o celular.

Parecia um Nokia antigo. Daqueles que avô e avó usam. Capa de plástico preta. Telinha minúscula. Botões físicos. A maioria das pessoas acharia que não valia nada.

Não era o caso.

Digitei uma sequência no teclado. A tela piscou. Uma nova interface apareceu. Software de chat criptografado. Segurança nível militar.

Sete mensagens não lidas.

Peguei o prato de frutas do criado-mudo. A governanta do Damon tinha trazido mais cedo. Morangos e cerejas frescas. Coloquei uma cereja na boca e abri a primeira mensagem.

Atualizações de status. Confirmações de serviço. Comprovantes de pagamento. O de sempre.

Eu estava rolando a terceira mensagem quando o celular vibrou na minha mão.

Chamada entrando.

Na tela apareceu uma única palavra: Flint.

Fiquei olhando pro nome. Meu dedo pairou sobre o botão de recusar.

O celular continuou vibrando.

Suspirei e atendi.

— Alô.

— Sable? — A voz estava digitalmente distorcida. Aguda e robótica. — Você tá online? Aconteceu alguma coisa?

— Eu não posso simplesmente entrar sem ter algo errado acontecendo? — Comi outra cereja.

— Você nunca simplesmente entra. Você só se conecta quando precisa de alguma coisa ou quando tá encrencada.

Não discuti. Ele tinha razão.

— Da última vez que você falou comigo, disse que dois caras da Crimson Hand tavam no seu encalço — continuou Flint. — Você precisava de extração de emergência. Aí sumiu por três semanas. Achei que tivesse morrido.

— Eu não morri.

— Obviamente. Então o que aconteceu? Você deu cabo deles?

Parei.

— Me diz você. Eles chegaram a aparecer de novo?

Houve um longo silêncio do outro lado.

— Você não vai acreditar nisso — Flint finalmente disse.

— Tenta.

— A polícia de Nova York pegou eles no Queens duas semanas atrás.

Parei de mastigar.

— O quê?

— Tô falando sério. Dois assassinos internacionais. Matadores profissionais. Procurados em seis países. E foram presos por policial de trânsito.

— Como?

— Eles roubaram um carro. Um Honda Civic. Plena luz do dia. Um cara denunciou o roubo e a polícia emitiu um alerta. Uma viatura viu o carro uma hora depois e parou eles por causa de uma lanterna traseira quebrada.

Eu não consegui falar.

— Eles tinham armas não registradas no porta-malas — Flint continuou. — A polícia rodou as impressões digitais deles e deu alerta no sistema. O FBI apareceu. Descobriram que eles tão em várias listas de observação internacionais. Agora tão sob custódia federal.

Larguei o prato de frutas.

— Você tá zoando.

— Quem me dera. Eu consegui o boletim de ocorrência. É real. Dois dos matadores mais perigosos da rede Crimson Hand caíram porque não sabiam furtar um carro direito.

Comecei a rir. Não consegui segurar.

— Isso é insano — falei.

— Nem me fala. Tô nesse ramo há doze anos e nunca vi nada assim.

Enxuguei os olhos. A risada foi sumindo. Um silêncio incômodo se estendeu entre nós.

— Então — disse Flint, com cuidado. — Por que você tá online? Precisa de um trabalho? De um contato? De informação?

— Não. — Respirei fundo. — Eu vou me casar.

A linha ficou completamente muda.

Depois a voz distorcida do Flint subiu três oitavas:

— O QUÊ?

Afastei o celular do ouvido.

— Jesus. Fala baixo.

— Você tá falando sério? Com quem? Ele sabe quem você é? Ele sabe o que você faz? Você vai realmente se aposentar?

As perguntas vieram em rajada. Esperei até ele parar de falar.

— Sim, tô falando sério. Sim, vou me aposentar.

— Sable. Você não pode simplesmente se aposentar. As pessoas não se aposentam disso.

— Eu vou me aposentar — repeti. Minha voz saiu seca.

Outro longo silêncio.

— Ele sabe? — Flint perguntou, baixinho. — Sobre o seu trabalho?

— Não.

— E você não vai contar pra ele?

— Não.

— Isso é perigoso. Se ele descobrir algum dia... —

— Ele não vai.

Flint não disse nada por um momento. Quando falou de novo, a voz estava diferente. Mais suave.

— Você parece cansada — ele disse.

As palavras acertaram alguma coisa dentro de mim. Eu me recostei na cabeceira. Fechei os olhos. Apertei os dedos contra as têmporas.

— Eu tô cansada — falei baixo.

Eu tava tão cansada que sentia nos ossos. — Tô cansada de olhar por cima do ombro — continuei. — Tô cansada de dormir com um olho aberto. Tô cansada de não confiar em ninguém. Tô cansada de me perguntar se hoje é o dia em que alguém vai enfiar uma bala na minha cabeça.

Minha garganta apertou.

— Eu quero ser uma pessoa normal, Flint. Quero acordar de manhã e não checar se tem armadilha. Quero comer sem me preocupar se tá envenenado. Quero morar num lugar e não precisar decorar todas as saídas. Eu só quero ser normal.

A linha ficou silenciosa.

Abri os olhos. Fiquei encarando o teto daquele quarto enorme.

Mais cedo hoje, depois que saímos do consultório, Damon me levou até o carro dele. Uma Mercedes preta com vidros blindados e portas reforçadas. Ele mesmo abriu a porta do passageiro pra mim.

— Você tá bem? — ele perguntou.

— Tô.

— Você não parece bem.

Olhei pra ele. Ele me observava com atenção. O rosto era duro, mas os olhos estavam preocupados.

— Sua família — ele disse. — Eles te machucaram.

Não era uma pergunta.

Eu assenti devagar.

— Me conta o que eles fizeram.

Então eu contei. Não tudo. Não sobre o meu trabalho de verdade. Mas contei sobre a Viviana. Sobre ter sido tratada como lixo por seis meses.

O rosto dele foi escurecendo a cada palavra. Quando terminei, o maxilar dele tava travado.

— Eles nunca mais encostam em você — ele disse. A voz era gelo. — Você vai ficar comigo. A gente casa semana que vem. Você vai ter tudo de que precisa.

Olhei pra ele. Aquele homem era um chefão do crime. A pessoa mais temida de Nova York.

Mas ele tava me oferecendo proteção.

Pelo nosso bebê.

Eu conseguia fazer isso. Eu conseguia casar com ele. Conseguia interpretar o papel de esposa dele. A gente podia ser estranhos educados morando sob o mesmo teto. Podíamos criar essa criança juntos sem atrapalhar a vida um do outro.

Quanto ao que ia acontecer depois disso... eu resolvia mais tarde.

Damon me levou até a propriedade dele. A mansão branca parecia coisa de filme. Guardas em cada entrada. Câmeras de segurança por todo lado. Muros altos e portões de ferro.

— Ala leste — ele disse pra governanta. — Dá pra ela a suíte master de hóspedes. Garante que ela tenha tudo de que precisa.

E agora eu tava ali. Sentada no luxo. Conversando com meu antigo parceiro sobre aposentadoria.

— Sable. — A voz do Flint me puxou de volta pro presente. — Você tem certeza disso?

— Tenho.

— Uma vez que você sai, você sai. Você sabe disso, né? Não tem volta.

— Eu não vou mudar de ideia.

Flint ficou em silêncio de novo. A respiração embaralhada era o único som na linha.

— Tá bom — ele disse finalmente. A voz dele tava estranha. Quase triste. — Boa sorte, Sable. Espero que você consiga ser uma pessoa normal. De verdade.

A linha morreu.

Abaixei o telefone. Fiquei olhando pra tela preta.

Fiquei ali muito tempo, só sentada. O prato de frutas esquecido no criado-mudo. O quarto em silêncio.

Levantei o telefone. A tela tava escura. Refletia meu rosto como um espelho.

Vinte e dois anos, cabelo castanho claro e rosto delicado. O tipo de garota que você veria estudando numa biblioteca ou trabalhando numa cafeteria. Nada de perigoso.

Ninguém jamais ia adivinhar o que eu realmente era.

Sable.

A principal assassina do Círculo de Ferro. A organização internacional que os governos contratavam quando precisavam de alguém morto. O grupo que treinava matadores desde a infância. A rede que tinha contato em todas as grandes cidades do mundo.

Eu tinha matado meu primeiro alvo aos quinze anos. Aos dezoito, já era uma das operativas mais requisitadas. Aos vinte, eu tinha uma reputação que deixava assassinos experientes nervosos.

A garota que nunca errava. Era isso que eu era.

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