Capítulo 3 Capítulo 3
Ponto de vista do Damon
Fiquei encarando o celular depois que ela desligou.
Scarlett Romano.
Recostei na cadeira e fechei os olhos. Um mês atrás. A reunião de negócios no Brooklyn que virou uma emboscada. Alguém tinha pago caro pra enfiar uma bala na minha cabeça naquela noite.
Eles me drogaram primeiro. Colocaram alguma coisa na minha bebida no restaurante. Quando percebi o que estava acontecendo, já tinha dois pistoleiros me seguindo até o estacionamento.
Consegui chegar até o Champlain. Mas a droga bateu de vez quando entrei. Minha visão começou a embaçar. Meu corpo pegando fogo.
Lembrava de atravessar o saguão cambaleando. Pegar o elevador privativo até a cobertura. E, no corredor, agarrar alguém. Uma garota. Puxei ela pra dentro da suíte do último andar comigo e tranquei a porta.
Eu precisava de cobertura.
Lembrava do cheiro dela. Algo limpo, simples. Não era perfume. Era só sabonete e shampoo. Lembrava do corpo dela colado no meu. Macio. Quente. E então eu acordei sozinho. A cama vazia. Ela tinha ido embora.
Por semanas, repeti pra mim mesmo que não importava. Só mais uma noite. Só mais um quase. Eu já tinha sobrevivido a coisa pior.
Mas eu tinha pensado nela. Mais do que queria admitir. A garota do cheiro limpo. A que não gritou nem tentou lutar comigo, mesmo tendo todo direito de fazer isso. A que simplesmente... ficou.
E agora ela estava aqui.
Meu assistente bateu na porta.
— A senhorita Romano está aqui pra ver o senhor.
Endireitei na cadeira. Ajustei a gravata. Minhas mãos estavam firmes, mas meu pulso não. Ignorei isso.
— Manda entrar.
A porta se abriu.
Ela era jovem. Vinte e poucos anos. Usava uma calça jeans justa que abraçava o quadril e as coxas. O jeans esticado sobre a bunda arredondada, realçando curvas impossíveis de ignorar. Uma jaqueta preta por cima de uma camiseta colada, agarrando nos seios fartos. Ela não era magra de passarela. Tinha peso de verdade. Forma de verdade. O tipo de corpo que se movimenta quando anda.
Minhas mãos lembravam daquele corpo. Da maciez. De como ela encaixava em mim.
Me obriguei a olhar pro rosto dela em vez disso.
Cabelo castanho-claro preso pra trás. Olhos claros que captavam a luz do escritório. Bonita sem fazer esforço. Sem maquiagem pesada. Sem joias. Natural.
Linda.
Esmaguei esse pensamento na mesma hora.
A terceira coisa que notei foi o quanto ela parecia calma. Entrou no meu escritório como se fosse dela. Olhou ao redor uma vez — percebendo as saídas, entendi, surpreso — e então prendeu os olhos nos meus.
A maioria das pessoas não aguenta segurar meu olhar por mais de alguns segundos. Ela não desviou.
Algo apertou no meu peito. Interesse. Atração.
Levantei devagar. Abotoei o paletó pra ganhar tempo pra pensar. Dei a volta na mesa, mas sem chegar perto demais.
Não toca nela. Não chega perto o bastante pra sentir o cheiro dela de novo. Mantém o controle.
— Prova que era você — eu disse.
Minha voz saiu fria. Eu queria que ela entendesse que eu não estava brincando. Mesmo que uma parte de mim quisesse algo muito diferente.
Ela não perguntou o que eu quis dizer. Simplesmente sentou numa das cadeiras em frente à minha mesa, sem ser convidada.
Ousada. Eu gostei disso.
Não deixei aparecer no meu rosto.
“Você tem uma cicatriz na omoplata esquerda”, ela disse. A voz firme. Nítida. “Parece tiro. Tem uns cinco centímetros de comprimento e faz uma curva leve pra direita.”
Meu corpo ficou imóvel. Aquela cicatriz ficava escondida debaixo da roupa. Ninguém via, exceto meu médico e as pessoas que tinham estado na minha cama. Não eram muitas.
Ela tinha me tocado ali. Naquela noite. Os dedos dela tinham seguido a linha da cicatriz enquanto eu estava meio grogue de remédio. Eu lembrei de repente. Lembrei da delicadeza daquilo.
“Você acordou no meio da noite”, ela continuou. Estava olhando direto pra mim. Aqueles olhos claros totalmente focados. “Você segurou meu pulso. Perguntou três vezes se a porta estava trancada. Depois checou a gaveta do criado-mudo. Tinha uma Glock 19 lá dentro.”
Minha respiração mudou. De leve.
Ela estava falando a verdade. Era mesmo ela.
A garota daquela noite. Aquela em que eu vinha pensando havia um mês. Estava sentada bem na minha frente.
Eu quis ir até lá. Quis puxar ela daquela cadeira e—
Não.
Voltei pra trás da mesa e sentei. Coloquei o móvel entre nós. Passei a olhar pra ela com mais atenção.
Ela também me encarava. Me estudando do mesmo jeito que eu estudava ela.
Isso me deixou desconfiado de novo. A atração puxava pra um lado. Meu instinto de sobrevivência puxava pro outro.
“Por que você fugiu?”, perguntei. Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia.
“Porque acordar na cama de um chefão do crime não parecia uma boa ideia”, ela disse. Nenhum pedido de desculpa na voz. Só sinceridade.
“Por que veio agora?”
“Porque eu precisava.”
“Como conseguiu meu número privado?”
“Revirei sua carteira enquanto você tava apagado”, ela disse. “Vi sua identidade. Seus cartões de visita. Conseguir o número não foi difícil depois que eu soube quem você era.”
Eu devia estar com raiva. Devia estar ameaçando ela por ter roubado de mim. Mas tudo em que eu conseguia pensar era que ela era esperta. Do tipo que pensa rápido sob pressão.
Cerrei o maxilar. Minha mente corria por possibilidades. Isso era armação? Ela trabalhava pra alguém? Os Romanos eram pequenos, mas tinham conexões. Talvez tivessem mandado ela pra se aproximar de mim. Talvez isso tudo fosse uma cilada.
“Quem te mandou?”, perguntei. Minha voz desceu até virar gelo.
“Ninguém.”
“Não acredito em você.”
“Não tô nem aí.”
Ela enfiou a mão no bolso do casaco. Tirou um papel dobrado. Empurrou-o sobre a mesa na minha direção.
“Eu tô grávida”, ela disse. “Quatro semanas.”
Tudo em mim parou.
Fiquei olhando pro papel. Não peguei. Não me mexi.
Grávida. Ela estava grávida.
De um filho meu.
Cem cenários passaram pela minha cabeça. Isso podia ser armação. Podia ser chantagem. Podia ser—
Ela empurrou o papel ainda mais pra perto.
